Já passei por coisas muito dolorosas por pressão estética, diz Débora Nascimento
O ano era 2007. Ainda iniciando na carreira de atriz, Débora Nascimento teve duas oportunidades artísticas: fazer uma ponta no longa "O Incrível Hulk", estrelado por Edward Norton e Liv Tyler, e interpretar a madrinha de bateria Andréia Bijou, em "Duas Caras" (Globo), seu primeiro personagem fixo em uma novela.
"Chorei muito mais ao saber que tinha passado [no teste] para a novela do que com o filme", lembra. Mesmo diante de convites internacionais, a atriz nascida em uma família humilde da zona leste de São Paulo conta que preferiu, seguir com aquilo que mexia com o seu âmago. "Não passou pela minha cabeça, 'vou morar fora para poder [trilhar uma carreira]'. Naquele momento eu escolhi a Hollywood brasileira porque era o que se comunicava comigo. A minha avó chorava [por ela estar em uma novela]."
Quase 20 anos depois, Débora vive um momento parecido. Agora reconhecida nacionalmente, voltará às produções da Globo após sete anos, ao mesmo tempo em que lança um filme internacional. "É que tudo funciona do jeito que tem que ser", diz.
A atriz conversou com a coluna na Redação da Folha no fim de agosto, às vésperas de embarcar para o Festival de Veneza para apresentar "Hombre al Agua", longa dirigido, coproduzido e estrelado por Gael García Bernal.
Desta vez, Débora não faz apenas uma ponta. Ela é Fabiana, uma atriz brasileira por quem o salva-vidas cubano Camilo, vivido por Gael, se encanta ao vê-la atuando em uma novela. Nessa novela, inserida dentro do filme, ela dá vida a Marisa, mulher de um líder sindical chamado Lula, em uma referência ao atual presidente e à ex-primeira-dama Marisa Letícia (1950-2017).
A atriz define a produção como uma comédia em que a política se faz presente. Temas como fake news e polarização também são abordados. "O filme fala sobre a importância de você pensar com as suas convicções. É muito fácil a gente seguir pela narrativa alheia. De repente você está vivendo algo que foi dito para você que é certo, mas você fala: "Opa, peraí, quem sou eu? Para onde eu vou?."
Questionada sobre a eleição deste ano, Débora diz que votará pela reeleição de Lula. "Entre uma democracia e alguém que flerte com o autoritarismo, não há dúvida: a minha escolha vai ser pelo sistema mais democrático possível, mesmo que seja imperfeito."
O convite para integrar a "Hombre al Agua" surgiu, relembra ela, "em um lindo dia de sol no Rio de Janeiro", cidade onde mora atualmente e onde Gael passeava com a família. A atriz conta que quase não acreditou ao receber a ligação de uma produtora de elenco dizendo que o ator e artista mexicano conhecia o trabalho dela e queria conversar sobre um novo projeto.
Soube depois que Gael tinha assistido às suas atuações no filme "O Pacificado" (2019), vencedor de prêmios internacionais, e na série "Olhar Indiscreto" (2023), da Netflix. "Quando nos encontramos, ele falou que já tinha o conceito da personagem e na hora eu falei: 'Claro, com certeza [topo], que privilégio poder aprender com você", relembra.
Débora afirma que Fabiana "não pede desculpa, não pede licença por existir". Nesse sentido, a atriz reflete que ela se assemelha a sua personagem em "Lá na Minha Terra", novela das seis prevista para estrear em novembro na Globo e que marcará o retorno da artista às produções nacionais após sete anos. "Assim como a Fabiana, a mulher que vou interpretar na trama é dona do próprio desejo", afirma, sem entrar em detalhes sobre o papel.
A atriz conta que ela também aprendeu a bancar as próprias vontades e a não se render às imposições da sociedade ou de outras pessoas. Quando era mais nova, diz que vivia em uma espécie de ansiedade e medo sobre o futuro, com muitas dúvidas na cabeça. "Como será quando eu envelhecer, quando chegar aos 40 anos? Como será a minha profissão? E casamento?"
"Era tudo um 'e se e se, como será, como será, como sera?'". Hoje, aos 41 anos, afirma que está achando tudo uma "delícia". "Estou me divertindo bem mais e me arriscando em todas as áreas da minha vida. Entendendo a liberdade do meu desejo, de fazer a arte que quero, de me relacionar do jeito que eu quero", diz. "E acredito que daqui a 10 anos vai ser ainda mais gostoso", acrescenta.
Muito dessa segurança diz que veio após se tornar mãe de Bella, 8 anos, fruto do seu relacionamento com o também ator José Loreto. "Porque a maior e a mais importante referência que ela pode ter na vida é a mãe dela. E eu pensei: 'Meu Deus do céu, sou cheia de erro, de traumas, de dores. Como é que vou passar algo? Mas o maior acerto é ser eu mesma, com os meus medos, com a minha vulnerabilidade, com as minhas dores."
Modelo a partir dos 15 anos, quando viajou para diversos países sozinha, Débora revela que já passou por "algumas coisas muito dolorosas" por pressão estética. "Já tive anorexia. Esse [a questão estética] sempre foi um ponto de atenção", comenta. "É até engraçado que hoje em dia tomo banho com minha filha, ela me vê à vontade e fala: 'Mamãe, sua bunda balança'. E eu falo: 'É, filha, balança'. Daí eu danço com ela e mostro que está tudo bem, estou feliz."
"É muito difícil... Eu posso dizer 'sou livre', mas, na verdade, o que é a liberdade feminina? Não me sinto tranquila andando na rua à noite. Sou absolutamente julgada pelo meu corpo estar X ou Y. Então, faço o que for preciso para mostrar que pelo menos no corpo dela, que é o lar dela, ela pode se sentir confortável."
Atualmente Débora não está casada e despista sobre namoros. Diz apenas que seu "coração está saltitando" e que vive um momento "muito feliz". Afirma ainda preferir a discrição. "O que o povo não sabe, o povo não estraga", revela, entre risos.
A discrição se faz presente também nas redes sociais. "Isso é muito orgânico. Não foi algo planejado para fazer mistério, como já me disseram. Não pretendo ser alguma coisa, simplesmente sou." Mas admite que vez ou outra posta uma foto mais sensual para "ganhar um biscoito" dos seus 4,5 milhões de seguidores no Instagram.
Débora já viveu um momento de grande exposição na mídia quando se separou de José Loreto em 2019, em meio a suspeitas de traição do ator —o que ele nega.
"Quanto mais eu mantenho a minha vida pessoal íntima, mais rica ela se torna", afirma. Ela diz preferir ser reconhecida pelos seus trabalhos. "Quero que meus personagens alcancem, conversem, brinquem, despertem curiosidade."
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