Everest, robôs e uma bengala inteligente: os finalistas do Sul no Prêmio Na Prática 2026
A gaúcha Amanda Wilmsen, 22 anos, e os paranaenses Gustavo Cordoni, 24, e Rafael Meneses, 23, disputam nesta terça-feira, 20 de outubro, o título da Região Sul no Prêmio Na Prática 2026.
Os três estão entre os 15 finalistas escolhidos entre mais de 9 mil inscritos, e quem vencer ganha uma imersão de uma semana na China.
Os projetos que os levaram à final saíram da universidade para resolver problemas concretos: o acesso restrito à robótica educacional, a lentidão das fusões e aquisições e os acidentes de pessoas cegas com obstáculos que a bengala não detecta.
Como funciona o Prêmio Na Prática
Criado em 2025 pelo Na Prática, plataforma de carreira da Fundação Estudar, o Prêmio Na Prática Protagonismo Universitário reconhece estudantes que se destacam dentro e fora da sala de aula à frente de projetos com impacto econômico, social ou tecnológico. A segunda edição recebeu mais de 9 mil inscrições de todo o país.
A seleção é feita por região, de acordo com o estado onde o candidato estuda. Cerca de 1,6 mil inscritos passaram pela triagem inicial e 500 seguiram para entrevistas e testes de raciocínio lógico. Uma banca regional com 50 candidatos definiu os 15 finalistas, três por região. Treze deles estudaram em escola pública ou em escola particular com bolsa.
Nesta semana, os finalistas participam de uma imersão em São Paulo, com curso de liderança, visitas a empresas parceiras e apresentação a uma banca de especialistas e executivos. Cada região terá um vencedor, e um dos cinco recebe também o título nacional. Os premiados viajam por uma semana à China, com custos pagos, para conhecer o ecossistema de inovação do país. Os vencedores da primeira edição passaram por Pequim e Xangai, com visitas a empresas como a Alibaba e a centros de saúde e robótica.
O prêmio tem apoio do BTG Pactual e da Suzano. A EXAME é parceira de mídia da premiação.
A brasileira que mudou um processo de 38 anos
Amanda entrou para a FIRST, maior competição de robótica educacional do mundo, aos 14 anos. Para competir, precisou viajar para fora do país. Oito anos depois, é a primeira brasileira e uma das 18 mulheres no grupo internacional de 300 inspetores-chefes de robôs.
Ela desenvolveu o r-inspect, software que digitalizou um processo de inspeção manual usado havia 38 anos. Organiza eventos da modalidade desde os 15 anos, em mais de dez estados, no Uruguai e nos Estados Unidos, e acompanhou o salto de oito para 220 equipes no Brasil. Hoje integra o Comitê Nacional de Robótica do SESI.
Estudante de Engenharia de Software na PUCRS, trabalha com inteligência artificial na HP, onde é a única estagiária e a única mulher da equipe.
“Minha maior conquista não foi até onde a robótica me levou, mas quantas outras pessoas ajudei a levar até ela”, diz Amanda.

Duas montanhas de 8 mil metros e uma startup de M&A
Gustavo escala desde os 14 anos. Neste ano, completou o chamado Double Head: subiu o Everest e o Lhotse, a montanha mais alta e a quarta mais alta do mundo, em menos de 24 horas. Foi o primeiro paranaense e o sul-americano mais jovem a fazer a combinação. Para conciliar treino, faculdade e trabalho, acordava às 4h.
O desafio tinha também um objetivo prático: ganhar visibilidade para financiar a subida dos outros 12 maiores cumes do planeta.
Estudante de Direito na PUC-PR, ele fundou com o irmão a Tukana AI depois de estagiar na área de fusões e aquisições de um escritório. A plataforma reúne dados de 27 bases públicas para identificar riscos e organizar essas operações, que costumam ser lentas e manuais. O MVP já foi testado em escritórios e chegou à semifinal da Startup World Cup São Paulo.
“O Double Head me ensinou que um objetivo grande é construído ao longo de muitos dias de esforço, inclusive naqueles em que você duvida de si mesmo”, diz Gustavo.

O obstáculo que a bengala não alcança
Rafael saiu de Pernambuco para estudar Engenharia da Computação na UTFPR. Na Neosenti, startup que fundou, criou a BIA Radar, um dispositivo que se prende a qualquer bengala branca e vibra para avisar sobre obstáculos fora do alcance dela: um galho na altura do rosto, um portão de garagem, a porta aberta de um carro.
O projeto nasceu de um desafio nacional de bengalas inteligentes da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), com o governo do Paraná. Antes de programar, Rafael foi à Associação de Deficientes Visuais de Toledo ouvir os futuros usuários. Sozinho, chegou a dois protótipos em seis meses.
A startup venceu o desafio em uma avaliação feita por pessoas cegas em um circuito urbano real e conquistou R$ 680 mil em recursos não dilutivos. Hoje tem quatro funcionários e vai fornecer 100 bengalas ao governo paranaense. Rafael também fundou a ProteJÁ, que desenvolve um dispositivo vestível para prevenir quedas de idosos, com bateria de três meses.
“Tem quem diga que é melhor vender pra metade das pessoas pelo dobro do preço. Eu quero fazer o contrário: levar tecnologia feita no Brasil a quem costuma ficar de fora”, diz Rafael.
Na reta final, os três falam menos do troféu e mais do que vem depois dele.
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