Montenegro tenta superar crise com ramo de oliveira

Se essa foi a novidade introduzida por Luís Montenegro, houve também espaço para a defesa da honra. A do Governo e a dele. Quanto à primeira dimensão, o primeiro-ministro recordou tudo aquilo que o Executivo já fez para minorar a crise da Habitação, em particular junto dos mais jovens, prometendo um esforço de 10 mil milhões em investimento público até 2030, ao mesmo tempo que se esforçava por tentar recolocar o debate em termos realistas.
“Não acordámos agora e temos de mudar para melhor. [Mas] temos de ter a coragem de dizer aos portugueses que precisamos de tempo para que as políticas produzam os resultados que são pretendidos. Estamos a fazer uma escolha política. Não há políticas públicas grátis. Há escolhas. Quem vender uma ilusão de que tudo pode ser realizado sem sentido de responsabilidade, não presta um bom serviço. Pode vender ilusões, pode até ter umas palmadinhas nas costas, mas não vai contribuir para o futuro do país.”
Mas Montenegro fez também a defesa da sua própria honra, chegando a usar uma ideia que, em tempos, Aníbal Cavaco Silva, santo padroeiro do atual Governo, usava quando era primeiro-ministro: o mito do não-político. A determinada altura, já em resposta aos jornalistas, o líder social-democrata disse mesmo que não era “comentador”, “nem político“.
“Aquilo que se pede ao primeiro-ministro e ao Governo é que governem. Eu tenho direito e o dever de governar. Aquilo que o país espera de mim é que não esteja todos os dias a dar opinião. O primeiro-ministro falou quatro vezes ao longo de 15 dias. Falei duas vezes na primeira semana. E falei outras duas cerca de 10 dias depois. Aquilo que se pede ao primeiro-ministro não é que comente a realidade todos os dias. O primeiro-ministro não é um dirigente partidário qualquer. É injusta a crítica de que há silêncio”, foi repetindo Montenegro.
Havia também expectativa para perceber que leitura faria o primeiro-ministro sobre a decisão do Tribunal Administrativo de Lisboa. Tal como explicava o Observador, o Governo entendeu aquele acórdão como uma saída de emergência para uma crise que estava a escapar ao controlo do Executivo — tornou-se claro que era impossível lidar com o impacto político de cargas policiais fim de semana sim, fim de semana não. “Esta decisão pode dar-nos uma saída airosa“, concedia ao Observador fonte do Governo. Havia, apesar de tudo, sinais contraditórios: Luís Neves e, mais tarde, Hugo Soares, ambos se prenderam à interpretação jurídica (uma de muitas possíveis) de que aquela decisão apenas autorizava uma tenda — a tenda de Renata Cambra.
Luís Montenegro seguiu simplesmente em frente e não deu para o peditório da discussão jurídica. Não falou do número de tendas, dos donos das tendas, nem decretou o fim dos acampamentos — como Neves fez a 20 de outubro. Deixando cair a expressão “egoísticas“, ideia que usou na primeira vez que falou sobre o tema e que repetiu quando esteve no Parlamento, o primeiro-ministro tentou desescalar a situação, sem deixar cair a ideia de que o Governo tudo fará para impedir que os exemplos espanhol, francês, italiano ou alemão se tornem a realidade portuguesa.
“Somos um país pacífico onde todos podem ver respeitados os seus direitos Disse e repito: não há razão em Portugal para se importarem modelos de protestos violentos e tudo deve ser feito para evitar qualquer confronto indesejável. [Importa conciliar] o direito de reunião, de manifestação, de livre expressão, mas também o direito de livre circulação, o direito ao sossego, o direito à ordem, à tranquilidade, à segurança, o direito à salubridade e preservação do espaço público e o direito ao exercício da autoridade pelas forças e agentes que para isso estão habilitados pela lei e pela Constituição”, rematou o primeiro-ministro.
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