'Vai envolver Milton Leite': áudios de investigado do PCC citam ex-vereador em negociação sobre empresa de ônibus em SP

🔎 Deflagrada em abril de 2024 pelo Ministério Público de São Paulo (MP-SP), a Operação Fim da Linha investigou a infiltração do PCC no transporte coletivo da capital e atingiu empresas como Transwolff e UPBus (leia mais abaixo).
Segundo a polícia, Leite passou a ser considerado foragido. O ex-vereador, porém, nega e afirma que está viajando. Já o ex-presidente da SPTrans foi preso temporariamente (leia mais abaixo).

Operação mira Milton Leite e o PCC
Os arquivos foram obtidos pela perícia da Polícia Civil por meio da extração de conteúdo telemático do aparelho celular de José Daniel, um iPhone XR apreendido durante o cumprimento de um mandado judicial em 5 de junho de 2025.
Em uma das conversas, registrada em julho de 2024, José Daniel fala com o advogado Cícero José dos Santos Filho sobre a possibilidade de substituir a UPBus por uma empresa ligada ao grupo dele. Ao mencionar a negociação, José Daniel afirma que seria necessário envolver Milton Leite.
"Eu comentei com o doutor Milton referente à substituição da UPBus pela nossa empresa lá. Querendo ou não, vai envolver o Milton Leite, né? Eu falei, ah doutor, então beleza, qualquer coisa a gente dá um toque no Milton Leite também, né?"

Áudio cita Milton Leite em conversa sobre substituição da UPBus
José Daniel Satilite é apontado pela Polícia Civil como integrante do PCC e como intermediário entre empresários, advogados, políticos, pessoas próximas a políticos e integrantes da facção. Ele também foi alvo da operação desta quinta. Até a última atualização desta reportagem, ele não havia sido preso.
Os áudios fazem parte do conjunto de elementos usados pelos investigadores para sustentar a hipótese de que Milton Leite tinha influência sobre decisões relacionadas ao transporte público da capital.
Veja abaixo linha do tempo sobre a origem dos áudios, das conversas de julho de 2024 e dos desdobramentos da investigação.
Ônibus em miniatura encontrados na casa de Milton Leite nesta quinta (17). — Foto: Reprodução
'Vai envolver Milton Leite'
Em outro áudio, de 15 de julho de 2024, Cícero fala sobre uma reunião relacionada a Levi dos Santos Oliveira, então presidente da SPTrans. Na conversa, o advogado afirma:
"Referente lá ao Levi, da São Paulo Transporte, o Lima tá indo lá, na primeira reunião, tá bom? Vamos ver o que vai dar, hein? Eu acho que vai envolver Milton Leite, o pessoal todo."

Advogado diz que negociação sobre empresa de ônibus 'vai envolver Milton Leite'
Segundo a investigação, as conversas ocorreram no contexto de tratativas para a substituição de empresas que operavam linhas de ônibus após a Operação Fim da Linha.
José Daniel demonstra preocupação em comunicar Milton Leite antes de uma eventual mudança. Nas conversas, também aparece a necessidade de tratar do assunto com Levi Oliveira, que, segundo a investigação, manteve encontros periódicos com José Daniel para tratar de interesses relacionados a empresas de transporte.
Os diálogos também fazem referência a Ubiratan Antonio da Cunha, conhecido como Bira e ligado à UPBus, e a Silvio Luiz Ferreira, conhecido como Cebola, apontado pela investigação como integrante da liderança do PCC.
Segundo o relato de José Daniel, Levi teria perguntado se ele havia conversado com Bira. O investigado respondeu que não seria necessário tratar diretamente com ele, mas com o "patrão dele", numa referência a Cebola.
Após a prisão de Bira na Operação Fim da Linha, as conversas entre José Daniel e Cícero também tratam da possibilidade de assumir o comando da garagem da UPBus, com o aval atribuído a Cebola.
Onde atuam empresas de ônibus suspeitas de ligação com o PCC — Foto: Arte/g1
Influência de Milton Leite
Segundo a investigação, decisões estratégicas envolvendo empresas suspeitas de ligação com o PCC dependeriam do conhecimento ou da aprovação política do ex-vereador. A conclusão foi baseada, segundo os investigadores, na análise do conteúdo obtido nos aparelhos e em elementos de outras investigações relacionadas ao papel de Leite no setor.
No pedido que embasou a Operação Vectura Corrupta, Milton Leite é citado como responsável direto pela operação de algumas empresas que, segundo a investigação, seriam controladas pelo PCC. O documento também menciona declarações de policiais militares prestadas em procedimento no Tribunal de Justiça Militar segundo as quais ele seria o dono de fato da Transwolff.
Linha do tempo
- Abril de 2024 — O Ministério Público de São Paulo deflagra a Operação Fim da Linha, que investiga a infiltração do PCC em empresas de ônibus da capital. A UPBus e a Transwolff estão entre as empresas atingidas.
- Junho de 2024 — Após a operação, começam a ser discutidas, segundo a investigação, mudanças na operação das empresas de transporte atingidas.
- Julho de 2024 — José Daniel Satilite conversa com o advogado Cícero José dos Santos Filho sobre a possibilidade de substituição da UPBus por uma empresa ligada ao grupo. Em um dos áudios, ele afirma que a negociação "vai envolver o Milton Leite" e que seria necessário "dar um toque" no então vereador.
- 15 de julho de 2024 — Em outro áudio, Cícero fala sobre uma reunião relacionada a Levi dos Santos Oliveira, então presidente da SPTrans, e afirma: "Eu acho que vai envolver Milton Leite, o pessoal todo."
- Agosto de 2024 — A Polícia Civil inicia a investigação que posteriormente dá origem à Operação Decurio. Dados extraídos de um celular apreendido em outra investigação ajudam a identificar integrantes da estrutura do PCC.
- 5 de junho de 2025 — A Polícia Civil apreende o iPhone XR de José Daniel Satilite durante o cumprimento de um mandado judicial. O aparelho é submetido à perícia, com extração do conteúdo digital por meio do Cellebrite UFED Touch.
- 2025–2026 — A análise do conteúdo do aparelho e outros elementos de investigação passam a compor o conjunto de provas usado na apuração sobre a atuação do PCC no transporte público e suas conexões com empresários, advogados e agentes públicos.
- 17 de setembro de 2026 — A Polícia Civil e o Gaeco deflagram a Operação Vectura Corrupta, com mandados de prisão e busca e apreensão. Milton Leite é alvo de mandado de prisão, mas não é encontrado em casa. Ele afirma que estava viajando, nega estar foragido e diz que pretende se apresentar às autoridades.
- 17 de setembro de 2026 — Levi dos Santos Oliveira, ex-presidente da SPTrans, é preso na operação. A investigação afirma que ele mantinha encontros periódicos com José Daniel para tratar de interesses relacionados a empresas de transporte.
O que dizem os envolvidos
Em nota, Milton Leite afirmou que está viajando e negou estar foragido. “Estou em viagem, não estou foragido, e vou me apresentar às autoridades em até 24 horas. Vou provar minha inocência em todas as acusações”, declarou o ex-vereador.
A defesa da Tranwolff afirma que Milton Leite nunca teve nenhuma participação societária na empresa, nunca participou da gestão ou “deu ordens” e diz que tal afirmação está completamente equivocada e dissociada da realidade.
Já a defesa de Levi dos Santos Oliveira diz que ele não tem antecedentes, construiu ao longo de décadas, uma trajetória de relevantes serviços públicos prestados à cidade de São Paulo, atuando na SPTrans, onde se consolidou como referência técnica em sua área.
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