Bissau sob tensão espera violência se Embaló voltar domingo

O medo chegou antes dele. Ex-presidente anunciou regresso. Escolas e escritórios fecharam no dia a seguir. Governo apelou à calma. Mas a violência é quase certa, avisam analistas e político.
As escolas chamaram os pais para irem buscar os filhos e encerraram as portas, escritórios do centro da cidade fecharam depois do almoço, algumas instituições fizeram o mesmo. E terá havido “movimentações de armamento pesado perto do Palácio Presidencial para parte incerta”. A capital da Guiné-Bissau “está tensa, as pessoas estão com medo”, contou ao Observador um morador. “Porque se esse senhor regressar ao país como prometeu, vai haver tiros. Se será uma guerra civil saberemos no futuro próximo, chega de brincar com a inteligência das pessoas. Ele que venha, ainda temos homens neste país“, adiantou o mesmo guineense que pediu reserva de identidade: “Falar aqui é perigoso”.
O “senhor” é o Presidente deposto Umaro Sissoco Embaló em novembro último, num alegado golpe de Estado, que anunciou na segunda-feira o seu regresso ao país este domingo, dia 4, e a sua recandidatura nas eleições de 6 de dezembro.
Após ser deposto, Sissoco Embaló anuncia candidatura às presidenciais de dezembro na Guiné-Bissau
O ambiente tornou-se tão instável que o porta-voz do ministro do Interior (equivalente ao ministro da Administração Interna português) deu uma conferência de imprensa para garantir “não haver razões para preocupações com a segurança no país” e “tranquilizar” as pessoas.
Agostinho Tonecas Djata desvalorizou os relatos de problemas na Guarda Presidencial e afirmou que “não há nenhuma situação alarmante que deva provocar pânico em Bissau”. Segundo Djata, as movimentações de militares na Praça dos Heróis Nacionais, onde fica o palácio da República, correspondem a reafetações de rotina, fazendo parte da “natural mobilidade das forças de segurança e defesa”. Mais não eram do que transferências, explicou. E acabou mesmo por aconselhar os guineenses a irem ao estádio apoiar a seleção nacional que jogava com a Nigéria (ganhou 3-1).
“A intenção declarada de Embaló assumir o poder só pode ser baseada na força”
O mesmo clima de ansiedade durante o dia foi relatado ao Observador por mais quatro guineenses residentes em Bissau e outros dois que vivem em Lisboa e têm família na capital. A noite chegou mais calma, mas a incerteza não os abandonou: “Vamos ver o que nos reserva domingo”, disse um deles.
▲ Umaro Sissoco Embaló, deposto pela atual junta militar no poder, anunciou no domingo que regressa no domingo a Bissau
YURI KOCHETKOV / POOL/EPA
“Seja o que for que se vá passar daqui até dia 4 e depois, os tempos próximos serão tudo menos tranquilos”, prevê o ativista político Sumaila Djaló ao Observador. A violência é quase certa. Venha ela de onde vier. E há várias hipóteses. Mas já lá vamos.
"Há uma coisa que todos os guineenses sabem, é que Umaro Sissoco Embaló não representa a unidade e a paz, não se postula a favor da tranquilidade"
Domingos Simões Pereira, líder do PAIGC
Que nesta terça-feira se respirou preocupação em Bissau, ninguém, a não ser o Governo, parece duvidar. No entanto, Juliano Augusto Fernandes, líder do COLIDE-GB — Convergência Nacional para a Liberdade e o Desenvolvimento, admite que “toda a gente está completamente em estado de alerta”, mas que isso não é diferente de outros momentos de sobressalto. “O nosso país está sujeito a vulnerabilidades que têm muito a ver com especulações e sinais de instabilidade, e tudo serve de mote para ajuizarmos bem os passos seguintes, para nos colocar de sobreaviso e para nos acautelarmos da confusão”, esclarece o ex-ministro do Interior e ex-Procurador-Geral da República.
"Se de facto Umaro Sissoco Embaló sofreu o golpe, como é que se pode explicar que regresse normalmente sem qualquer tipo de alteração das circunstâncias perante o mesmo regime que o afastou do poder? Não há nenhuma explicação lógica para isso",
Néxus Faria, jurista guineense
Já Domingos Simões Pereira não tem dúvidas de que as pessoas não estão a exagerar nos seus receios. “Há uma coisa que todos os guineenses sabem, é que Umaro Sissoco Embaló não representa a unidade e a paz, não se postula a favor da tranquilidade”, lamenta o principal opositor político na Guiné-Bissau. “Ele tem consciência de que tem sido rejeitado pelo povo guineense, perdeu eleições legislativas em 2023 e em 2025 e agora com a realização do referendo [à nova Constituição, elaborada segundo parâmetros definidos anteriormente por Sissoco, em que a oposição registou 90% de abstenção] ficou evidente qual é a posição dos guineenses”, sublinha.
Oposição guineense considera referendo constitucional “fracasso total”
Por isso, o líder do histórico Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC) sustenta que “a intenção declarada de Sissoco Embaló voltar e assumir o poder só pode ser baseada na força”. Portanto, “se as forças que o acompanham consumarem a sua intenção de controlar tudo e lhe estenderem o tapete para o regresso, teremos uma solução; se não for isso, o cenário será outro”. Ou seja, explica o político, “vamos ver no que é que essa correlação de forças vai dar”. Pode até “sair-lhe o tiro pela culatra”, uma expressão também utilizada pelo analista político Néxus Faria, “e dar-se a consumação do golpe”. Os que o apoiaram em novembro podem já não estar no mesmo campo.
A confirmação do “golpe cerimonial”
Esta é uma das possibilidades levantadas por Néxus Faria para quem o regresso de Sissoco Embaló, a partir de Brazaville, no Congo, “não será pacífico”, para além de confirmar “que o que aconteceu em novembro foi um autogolpe”, diz ao Observador o jurista guineense.
“Fica definitivamente comprovado que foi uma encenação preparada pelo próprio Sissoco, para evitar o conhecimento dos resultados das eleições de 23 de novembro de 2025”, continua o advogado. Porque, “se de facto ele sofreu o golpe, como é que se pode explicar que regresse numa normalidade sem qualquer tipo de alteração das circunstâncias perante o mesmo regime que o afastou do poder? Não há nenhuma explicação lógica para isso”, argumenta.
As mesmas dúvidas são colocadas por Domingos Simões Pereira, o político que esforços diplomáticos de Timor-Leste (presidente da CPLP) e Portugal conseguiram tirar de uma cadeia de Bissau para Lisboa.
“Eu não sei o que é que mudou até hoje desde que Sissoco saiu do país presumivelmente como vítima de um golpe de Estado para que todas as outras forças políticas e atores políticos estejam impedidos de exercer normalmente a sua atividade política e ele se sinta em condições de regressar, de retomar e antecipadamente poder já dizer que vai ser candidato”, afirma ao Observador.
Tal como Néxus Faria, Domingos Simões Pereira não tem dúvidas de que se tratou de um “golpe cerimonial, como lhe chamou o ex-Presidente da Nigéria, para impedir que os resultados eleitorais que davam a vitória a Fernando Dias da Costa fossem divulgados”.
O político recorda como, “infelizmente”, a Guiné “tem o registo de muitos golpes de Estado” mas não se lembra de ter havido algum em que seja a própria vítima a anunciar ao mundo que sofreu um golpe de Estado”. E que, meses mais tarde, faça as afirmações que Sissoco Embaló fez “em relação a quem o afastou do poder”.
No anúncio do seu regresso e recandidatura, o ex-Presidente guineense disse à revista Jeune Afrique que o general Horta N’Tam Inta-a, presidente da junta militar que assumiu o poder a 26 de novembro de 2025 e “principal artífice do seu afastamento, mas de quem se manteve próximo, respeitará os termos da carta de transição e não se candidatará”, deixando o caminho livre para o homem que há menos de um ano tirou da Presidência.
“O regresso de Sissoco não será pacífico nem fácil”
Umaro Sissoco Embaló “saiu com quem quis sair do país, tirou o que quis tirar do país e, alguns meses depois, tranquilamente, com os mesmos que assumiram o poder a controlar a situação, declarou o seu regresso. Era previsível, consta do roteiro inicialmente desenhado pelo próprio Sissoco”, observa Domingos Simões Pereira. No entanto, pode ter um desfecho diferente do que ele previu, avisa Néxus Faria que lê sinais de divisão dentro da ala que estava com o ex-Presidente em novembro.
“O regresso não será fácil. A Guiné é altamente instável do ponto de vista político e é também um país violento”, sublinha o jurista. “Quando as transições no poder se deram por via do golpe de Estado nunca houve um Presidente deposto a regressar pacificamente ao país. A não ser João Bernardino Vieira [Nino Vieira] mas acabou assassinado”, salienta.
"Grande parte da elite da classe castrense guineense tem uma renda muito acima do que aufere do salário pelo que geralmente tende a alinhar-se com quem paga mais, e neste momento, quem tem o controle dos dinheiros públicos é o primeiro-ministro da transição"
Néxus Faria, jurista guineense
O analista diz mesmo que a volta do ex-Presidente não será “bem aceite pela população nem pelos agentes que colocou no poder”. Uma fonte guineense disse ao Observador que “as milícias de Sissoco, que estavam no Palácio foram hoje [terça-feira] desarmadas e acantonadas pelas forças armadas num quartel militar”. Uma outra fonte acrescentou que houve militares detidos. O esclarecimento do Governo de que se tratou de transferências regulares não convenceu Néxus Faria. “Querem abafar tudo isto. A explicação não tem qualquer cabimento. Há trâmites legais para as transferências, não se fazem coercivamente, não se vai buscar a pessoa onde ela está para a mudar fisicamente do posto de trabalho, isso é mais sequestro, detenção”, assinala o advogado.
O jurista não tem dúvidas de que na origem destas ordens estará o primeiro-ministro do governo de transição. Ilídio Vieira Té “já criou o próprio partido, manifestando que tem aspirações políticas, nomeadamente ao cargo do primeiro-ministro eleito e talvez à própria Presidência da República”. O que entra em conflito com os interesses do Umaro Sissoco Embaló, que disse querer retomar o controlo político da Guiné-Bissau.
"Sissoco, que exercia o poder à distância, zangou-se com Ilídio Vieira Té. Foi perdendo apoios dos militares por isso quis regressar à pressa ao país para tentar assaltar o poder"
Fonte guineense
“Temos neste momento duas pessoas que estão dentro da esfera do poder político guineense com pretensões a governarem o país, e uma delas domina as forças militares, pois gere o erário público”, continua Néxus Faria.
“Vários estudos indicam que grande parte da elite da classe castrense guineense tem uma renda muito acima do que aufere do salário, pelo que geralmente tende a alinhar-se com quem paga mais, e neste momento, quem tem o controlo dos dinheiros públicos é o atual primeiro-ministro da transição, que vem comprando a lealdade e a parceria dos militares”, refere o jurista.
▲ O Governo de transição, liderado por Horta N’Tam já disse oficialmente que Umaro Sissoco Embaló tem direito a regressar ao país e a recandidatar-se
AFP via Getty Images
“Sissoco, que exercia o poder à distância, zangou-se com Ilídio Vieira Té. Foi perdendo apoios dos militares por isso quis regressar à pressa ao país para tentar assaltar o poder”, explica uma outra fonte guineense.
Este seria um foco de violência: a luta de duas alas que já estiveram unidas. Mas há outro cenário que preocupa igualmente alguns guineenses e que não depende de cisões internas no atual poder. Decorre do regime violento de Sissoco Embaló, segundo um ativista e Domingos Simões Pereira.
▲ Imagens das ruas de Bissau a 26 de novembro de 2025, dia do golpe de Estado que tirou Sissoco Embaló no poder
AFP via Getty Images
Sissoco Embaló poderá ser vítima da própria violência
Sumaila Djaló não vê divisões entre o regime atual e o antigo Presidente. Aponta para a declaração oficial do Governo desta terça-feira. Fernando Vaz, porta-voz do Conselho Nacional de Transição (CNT), disse que Sissoco é “um cidadão como qualquer outro” e que tem direito a regressar ao país e a candidatar-se às presidenciais de 6 de dezembro, desde que cumpra os requisitos legais, citou-o a Agência de Notícias da Guiné.
O ativista menciona os “rumores de que alegadamente há militares a serem presos”, o que não o surpreende. “Ao longo dos últimos anos, sempre que nos aproximámos de períodos eleitorais, houve uma espécie de caça às bruxas. E estamos perto das próximas eleições”. Pelo que, para Sumaila Djaló, as alegadas detenções “são mais uma tentativa de meter nos calabouços da ditadura todas as pessoas que não tenham propriamente uma ação contra o regime, mas que não aceitam alinhar com ele, que se recusam a servi-lo, quer nas Forças Armadas quer nos partidos políticos”.
"Durante sete anos Sissoco Embaló (que ultrapassou os cinco anos constitucionais de mandato) e os seus fiéis (como Horta N’Tam) praticaram o poder com violência. Agora estão também sujeitos a serem confrontados com essa violência"
Sumaila Djaló, ativista político
Até prova em contrário, Sumaila Djaló não vê “nenhum indício claro de que o regime em vigor, encabeçado pelo Presidente da Transição Horta N’Tam Inta-a e Ilídio Vieira Té e todas as chefias militares estejam a agir contra um possível regresso de Umaro Sissoco Embaló ao poder”. Aliás, realça o ativista, “o exercício do poder interno tem sido na linha dele, o contacto entre os dois mantém-se”. Não se evidencia “nenhuma rutura entre as suas vontades”, considera. Mais interessante será ver como o regime lida com outros regressos, “porque há vários líderes políticos que foram obrigados a sair do país desde 2020”, destaca Sumaila Djaló.
Porém, o ativista não afasta um cenário de violência, de sublevação popular, inclusive. “Durante sete anos Sissoco Embaló (que ultrapassou os cinco anos constitucionais de mandato) e os seus fiéis (como Horta N’Tam) praticaram o poder com violência. Agora estão também sujeitos a serem confrontados com essa violência”.
"Durante sete anos Sissoco Embaló (que ultrapassou os cinco anos constitucionais de mandato) e os seus fiéis (como Horta N’Tam) praticaram o poder com violência. Agora estão também sujeitos a serem confrontados com essa violência"
Sumaila Djaló, ativista político
Sumaila Djaló recorda que as “liberdades democráticas estão neste momento todas eliminadas”. Os partidos políticos “que não se alinham com o regime têm as suas sedes confiscadas ilegalmente, os líderes desses partidos e coligações políticas estão no exílio, as manifestações não são permitidas, não há uma imprensa verdadeiramente livre, os jornalistas têm sido perseguidos e colocados na prisão, jovens ativistas têm sido assassinados, espancados, raptados e torturados quase até à morte.”
Assim, nestas circunstâncias, “não podemos falar de uma possibilidade de retorno à legalidade constitucional por meio de eleições livres, justas e transparentes”, critica. E por isso, “a violência poderá ser uma via praticada por forças internas ao próprio sistema, contra o Estado vigente, que pode ser dentro das próprias Forças Armadas que é geralmente o que acontece”. O que por si não é garante de um retorno à normalidade constitucional: “Podem levantar-se outros interesses também a gravitar em torno do poder que se aliam aos militares para manterem o regime”.
"Independentemente do que acontecer até dia 4 de outubro com o eventual regresso de Sissoco, isso não será muito diferente do que sucedeu nestes sete anos, uma ditadura de um autoritarismo violento e sanguinário"
Sumaila Djaló, ativista político
Seja como for, os próximos tempos não serão tranquilos, repete o ativista político. “Independentemente do que acontecer até dia 4 de outubro com o eventual regresso de Sissoco, isso não será muito diferente do que sucedeu nestes sete anos, uma ditadura de um autoritarismo violento e sanguinário”. Ou seja, remata, “não precisamos de o amanhã ser difícil, hoje já é muito difícil para o povo da Guiné-Bissau a todos os níveis.”
Domingos Simões Pereira quer acreditar que “a razão e o bom senso” vão imperar e seja possível “evitar o pior”. Para isso “é importante que as Forças Armadas compreendam que, para viver em democracia, é preciso respeitar a vontade do povo. Sempre que o povo foi chamado a expressar-se, mostrou que não quer este regime. Forçar o povo guineense é criar uma situação de rutura, de instabilidade”, avisa.
“Quem promove a violência, num primeiro momento, pensa que essa violência lhe será sempre favorável. O problema é que quem tem o poder de exercer essa violência pode ter vontade própria. E quando esta começa a manifestar-se, o outro afinal, percebe que a violência não lhe é favorável”, afirma Domingos Simões Pereira. Na verdade, conclui “A violência nunca nos é favorável”.
[Annie está de volta a Havana. Apesar das relações privilegiadas com altas figuras do regime, quer viver como os cubanos, divertir-se como os cubanos e… sofrer como os cubanos. Mas continua a ser filha do diretor da PIDE. E Fernando Silva Pais e Armanda Palhota não estão dispostos a deixá-la passar tão facilmente para o lado do inimigo. Já pode ouvir o terceiro episódio de “Os Escândalos de uma Revolucionária”, o novo Podcast Plus do Observador. Está disponível no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no YouTube.]
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