“O terrorismo de hoje é diferente do início do século XXI”

Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Gabinete de Guerra na Rádio Observador. Hoje contamos com a análise de Bernardo Valente, professor de Relações Internacionais na Universidade de Lisboa. Boa noite, Bernardo. Muito obrigada por ter aceitado o nosso convite.
Olá, boa noite.
Hoje vamos focar este gabinete de guerra no 11 de setembro. Assinalam-se 25 anos deste ataque. Começava por lhe perguntar se há uma geopolítica mundial antes e depois do 11 de setembro.
Sim, sem dúvida, parece-me evidente. E aliás, os conflitos que ainda hoje vamos vendo todos os dias e que nos entram pela casa adentro, são também sintomáticos disso. Temos aquilo que Samuel Huntington chamava em tempos o choque de civilizações, que ficou mais perto do que nunca no pós 11 de setembro. Ou seja, há um mundo ocidental com valores muito concretos e que tenta também, por vezes, ter algum tipo de interferência no mundo islâmico. E há um mundo islâmico que tem também as suas manobras de subversão, mas que curiosamente está mais dividido também do que nunca. E portanto, se por um lado todo o aparelho securitário do Ocidente, o atual pelo menos, muito se deve ao 11 de setembro e às ramificações que trouxe, e depois à questão do Afeganistão e da presença norte-americana no Médio Oriente subsequente, e também antes do 11 de setembro, que no fundo é o que leva aos atentados, ou pelo menos era a justificação que Bin Laden e os orquestradores dos atentados davam. Também, por outro lado, é verdade que no mundo islâmico temos uma luta por aquilo que será a próxima potência regional. E é isso que também está à vista agora no confronto do Irão, que tem ramificações para o Iémen e para a luta que existe no Iémen entre um proxy do Irão, os Houthis, e por outro lado, a Arábia Saudita, uma coligação liderada pela Arábia Saudita. Curioso e importante mencionar aqui que Donald Trump já fez referência, não só Donald Trump, mas toda a sua administração, até para legitimar a sua postura neste conflito várias vezes ao passado traumático que os Estados Unidos têm com nações islâmicas. Mas há que perceber que o regime iraniano é completamente diferente, é diametralmente diferente e até a certo ponto inimigo, não só do regime que a Al-Qaeda tentou implementar na região, como até numa expansão da Al-Qaeda do próprio Estado Islâmico. E por isso, quando olhamos para o Médio Oriente, quando olhamos para o mundo islâmico, devemos sempre pegar com pinças, porque não só existe uma diferença entre xiitas e sunitas, como já abordamos aqui noutros gabinetes de guerra, mas mesmo dentro tanto do Estado Islâmico como da Al-Qaeda, há diferenças gritantes que vão desde diferenças doutrinais relativas à sucessão de Maomé, como também a diferenças na prática daquilo que é a relação destes movimentos com o Ocidente e também com os Estados Unidos, claro.
Mas portanto, hoje quando o Donald Trump no discurso a propósito desta data disse que os Estados Unidos continuam atualmente a guerra contra o terrorismo a combater o regime de Teerão, não há aqui então fundamentos para achar que o atual conflito entre os Estados Unidos e o Irão deriva ainda do 11 de setembro?
Serve como esforço narrativo e acredito que para alguns americanos, porque o 11 de setembro é um trauma coletivo, e não só pelo que aconteceu, mas até por toda a discussão que se despoutou depois na sociedade civil relativamente a se aquilo seria um inside job, se seria um acontecimento promovido de forma perversa pela administração Bush na altura para ter entrada direta no Médio Oriente, uma justificação para o fazer, foi uma marca que dilacerou a coesão social norte-americana. E fez com que levassem uma parte pelo todo. Por quê? Porque Donald Trump quando diz que continua neste momento no Médio Oriente para combater o terrorismo, em parte pode ter razão, no sentido em que sabemos que os iranianos também têm grande penetração dentro de territórios europeus, mesmo dentro dos Estados Unidos, existe uma migração histórica que faz com que alguns lone wolves, portanto alguns lobos solitários que operem sozinhos, possam eventualmente levar a cabo ataques terroristas. Mas até aquilo que é a constituição do terrorismo ou os princípios do terrorismo xiita, que é o terrorismo maioritariamente iraniano e também do Iraque, e aquilo que é o terrorismo sunita, são muito diferentes. E a Al-Qaeda e o Estado Islâmico, que sai depois da Al-Qaeda, são ambos sunitas e têm um modo de executar este tipo de ataques, este tipo de ações contra o Ocidente, muito diferente, que é através de ataques que eles próprios chamam de ataques espetaculares, ou seja, são ataques que tentam promover um grande número de baixas, que tentam atacar indiscriminadamente civis, ao contrário dos ataques xiitas. E aliás, isso ficou bastante patente porque depois de cair o último xá, o que aconteceu é que tivemos um primo do xá, por exemplo, a ser assassinado na Suíça por forças xiitas. Por quê? Porque o xiismo, diferente daqueles ataques sunitas, que são sempre em grande escala e com alvos indiscriminados, os xiitas são ligeiramente diferentes. Os xiitas atacam quase sempre alvos muito específicos e normalmente não são alvos civis, são alvos estratégicos do contexto geopolítico. Por isso, o tipo de terrorismo que vem do Irão é diferente do tipo de terrorismo sunita que vimos acontecer em grande escala E com grandes baixas e com o tal trauma coletivo no 11 de Setembro, que é o terrorismo sunita. Por isso, estas diferenças dizem-nos que, por muito que o Donald Trump diga que está a tentar combater o terrorismo, o tipo de terrorismo de que está a falar agora, quando fala do Irão, é muito diferente do tipo de terrorismo que tínhamos no início do século XXI, nos primeiros 15 anos do século XXI.
O 11 de Setembro redefiniu a segurança global em coisas mais óbvias, como por exemplo, a forma como viajamos de avião, mas também a vários outros níveis, Bernardo.
Sim, a vários níveis, até porque se formos olhar para aquilo que é a reconfiguração política mesmo destes movimentos, fez com que, por exemplo, no Médio Oriente, tivéssemos a partir daí uma presença norte-americana quase obrigatória e constante, e que acabou por estabelecer bases norte-americanas em praticamente todos os países do Golfo Pérsico, como vemos. E que esse, aliás, foi um dos critérios, na altura, para que a Al-Qaeda tivesse atacado as Torres Gémeas, o Pentágono e também o outro avião que caiu na Pensilvânia. Portanto, levado a cabo este ataque, porque diziam na altura que realmente os Estados Unidos entraram na guerra do Kuwait com o Iraque para proteger a Arábia Saudita e para não deixar a Arábia Saudita isolada na região, mas depois nunca de lá saíram. E isso fez com que Bin Laden, ainda por cima o Bin Laden era um guerreiro mujahideen, ou seja, os guerreiros por Alá que tinham derrotado a União Soviética no Afeganistão, e depois queria ele também assegurar a segurança, passe o pleonasmo, da Arábia Saudita. E o que na altura a monarquia saudita disse foi que preferia ter os Estados Unidos a fazerem a sua proteção. Portanto, os Estados Unidos têm uma presença praticamente obrigatória e constante desde o 11 de Setembro e que já vem até de um bocadinho antes, portanto, desde que começámos a ter a suspeita do terrorismo islâmico no mundo ocidental, no Médio Oriente. Depois, para além disso, temos também agora uma relocalização destes movimentos, a partir do momento que os Estados Unidos tornam-se hegemónicos ou conseguem expandir a sua área de influência para o Médio Oriente, estes movimentos saíram daquilo que era a sua casa mãe, saíram de países que eram Estados falhados, em que estes movimentos lutavam pelo poder com monarquias, que lutavam pelo poder com governos fragmentados, como é o caso da Síria, onde isso ainda hoje é visível, como é o caso até do Líbano, como é o caso do Iraque. E saíram para onde? Saíram para a África e saíram para uma região muito particular, principalmente a Al-Qaeda, saiu para o Sahel. E isto é uma reconfiguração pós-11 de Setembro, mas também pode ter consequências nos dias de hoje. Por quê? Saíram para o Sahel, que é aquela região que tem o Mali, que tem o Burkina Faso, que tem o Níger, tantos países também com Estados pouco desenvolvidos e que a Al-Qaeda foi capaz de se adaptar e de adaptar os seus métodos àquela região. De forma que até acabaram por derrubar o pouco de Estado que existia nesses países. E então há a possibilidade de, no futuro, termos essas ações subversivas a vir não do Médio Oriente, mas a vir dos resquícios que a Al-Qaeda está a implementar, dos resquícios do movimento, claro, porque é o movimento que está mais enfraquecido do que estava antes do 11 de Setembro, mas que tem vindo a implementar nesta região do Sahel. E por isso é que é particularmente sensível a temática das migrações, porque quando falamos das migrações, quando falamos da questão de Ceuta, há cerca de três semanas, toda esta população que alguns a fugir da Al-Qaeda, mas também com pessoas da Al-Qaeda entre eles, vão fugindo de uma África subsaariana para norte, sempre à procura de um mundo melhor, de uma vida melhor, como é habitual e como é legítimo para todos nós. Mas a verdade é que há a possibilidade de termos, como dizia, pessoas da Al-Qaeda infiltradas nestes grupos. Portanto, a geopolítica destes movimentos também se reconfigurou. Não só os Estados Unidos passaram a ter uma presença permanente no Médio Oriente, empoderaram-se ainda mais do título dos policiais do mundo na luta contra o terrorismo, mas também estes movimentos tentaram adaptar-se, ou seja, saíram daquilo que eram as suas nações de origem e passaram principalmente para o continente africano. E o continente africano, como sabemos, é também muito fragmentado a nível étnico, portanto, há Estados que não são bem Estados homogêneos. Isso permitiu que a Al-Qaeda se infiltrasse e por isso podemos ter ataques a vir precisamente desses movimentos, mas de outra geografia, portanto, a partir de África. Isto é particularmente curioso porque, por exemplo, a Rússia também tem grande influência nessa região e tem recrutado até soldados dessa região, muito semelhante ao que aconteceu com Bashar al-Assad na Síria, há quase aqui uma união Al-Qaeda, Estado Islâmico, Rússia.
Hoje vivemos num mundo com medidas de segurança mais apertadas, mas acha que um ataque desta dimensão poderia voltar a acontecer nos dias de hoje?
Creio que não. A verdade é que digo que creio que não, porque não quero ser alarmista e acho que a análise também tem essa tarefa, tem essa componente, que é ser realista e não cair em alarmismos. Acho que neste momento o Estado Islâmico não tem a força que tinha antes. Acho que neste momento a Al-Qaeda não tem a força que tinha antes, mas a verdade é que estes fenómenos migratórios acabam por gerar algum medo, no sentido em que as pessoas Acham que se pode repetir o que aconteceu em Madrid, o que aconteceu em Londres, o que aconteceu em Moçambique, o que aconteceu na Bélgica, que são ataques já pós-11 de Setembro e que tiveram consequências danosas para a coesão da sociedade, principalmente da sociedade europeia ou ocidental, em termos muito latos. Se bem que são ataques mais pequenos, portanto eu acho que poderemos continuar a assistir, e acho que é quase certo, que mais tarde ou mais cedo, possamos assistir a outro tipo de ataques destes. Mas também é verdade que o aparelho securitário de todos os Estados, tanto europeus como dos próprios Estados Unidos, e aliás, a ação do ISIS é injustificável, mas a ação do ISIS é mais musculada que nunca, pelo menos nunca me lembro de ter visto uma presidência com uma polícia tão, não só politizada, mas também tão musculada. E isso faz com que seja mais fácil prevenir este tipo de ataques, mas por vezes nem o melhor aparelho securitário consegue deter estes métodos de guerra híbrida, estes métodos de subversão. E por isso poderemos voltar a ter algum tipo de ação semelhante àquele que vimos em Estados europeus nos últimos cerca de 20 anos, no pós-11 de Setembro, mas não me parece que possamos ter uma ação semelhante àquela que aconteceu no 11 de Setembro. Por quê? Porque a ideia do califado internacional, mesmo dentro da Al-Qaeda, mesmo dentro do Estado Islâmico, foi morrendo aos poucos, também com a falta de recursos de ambas as organizações, e isso faz com que não tenham a capacidade também de mobilizar e de ter os contactos que antes do 11 de Setembro tinham no Ocidente. Eu relembro que, por exemplo, o próprio Bin Laden tinha correspondência muito frequente com um sócio, que era também um constatário da monarquia saudita, que era o al-Farwas, e foi ele também que deu algumas dicas de como funcionava o aparelho securitário europeu, e isso permitiu que depois orquestrassem aquilo que conhecemos hoje como o 11 de Setembro. Esses casos já não acontecem tanto. Primeiro, porque essas pessoas que estão a trabalhar diretamente com estes movimentos dentro da Europa ou dentro dos Estados Unidos, já são detectadas com mais facilidade porque o aparelho securitário evoluiu e tem mais recursos, como também, como dizia há pouco, há um enfraquecimento institucionalizado destes movimentos, se bem que a Irmandade Muçulmana volta aqui a ter algum protagonismo, e até já tínhamos falado nisto no outro Gabinete de Guerra, que a Irmandade Muçulmana vai ganhando alguma força ali na plataforma euro-asiática, que pode eventualmente trazer aqui um recrudescêr de movimentos perigosos principalmente para a Europa. Mas não diria, não sendo alarmista, acho que poderemos ter um ataque esporádico, um ataque ad hoc muito espontâneo, mas de pequena escala, um 11 de Setembro novamente parece que roça o impossível.
Muito bem, obrigada pela sua análise. Bernardo Valente é professor de Relações Internacionais na Universidade de Lisboa. Obrigada por este Gabinete de Guerra dedicado ao 11 de Setembro.
Obrigada, boa noite.
Fica por aqui o Gabinete de Guerra, está de regresso amanhã.
KioskNews shows a cleaned-up reading view extracted from the publisher’s page — the original always lives on their site, not ours.