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Thursday, September 24, 2026

Desemprego e inflação derrubam popularidade de Kast no Chile

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Cercanías

A newsletter da Folha sobre América Latina, editada pela historiadora e jornalista Sylvia Colombo

José Antonio Kast chegou ao Palácio de La Moneda há seis meses prometendo um "governo de emergência". O problema é que, passado o primeiro semestre, a emergência mudou.

O presidente chileno foi eleito prometendo enfrentar sobretudo a criminalidade, a imigração irregular e uma economia que considerava estagnada. Hoje, porém, é justamente o bolso que ameaça consumir sua gestão. O desemprego chegou a 9,5%, maior nível em cinco anos, a inflação anual está em 4,1% e o Banco Central reduziu a previsão de crescimento do país neste ano para entre 0,25% e 0,75%. O próprio Kast já admite que o Chile atravessa um "período de crise".

A gasolina ajudou a transformar indicadores em mau humor. Diante da alta internacional dos combustíveis, o governo decidiu repassar parte do aumento aos consumidores para preservar as contas públicas. O episódio ganhou um nome inevitável no Chile: "bencinazo" (no Chile, a gasolina é chamada de bencina). Kast reconheceu que foi o primeiro grande golpe em sua popularidade.

Os números mostram o tamanho do estrago. Pesquisa Cadem feita para marcar os seis meses de governo dá a Kast apenas 35% de aprovação, contra 61% de desaprovação. Para 62% dos entrevistados, sua gestão foi pior do que esperavam; apenas 8% consideram que foi melhor. O "bencinazo" aparece como um dos principais erros da gestão, citado por 38%.

Mais interessante do que a fotografia da popularidade, porém, é a mudança das prioridades. Economia e emprego são hoje apontados por 79% dos chilenos entre os temas aos quais o governo deveria dedicar seus maiores esforços. Segurança, delinquência e narcotráfico aparecem com 33%.

É uma inversão importante para um presidente que chegou a La Moneda embalado pelo medo da criminalidade e por uma guinada regional à direita que colocou segurança, fronteiras e imigração no centro da política. Poucos dias antes da posse, Kast esteve em Miami na cúpula inaugural do Escudo das Américas, iniciativa de Donald Trump que reuniu líderes como Nayib Bukele e Daniel Noboa em torno do combate ao crime organizado e ao narcotráfico. O Chile, porém, permanece como observador do grupo.

Seis meses depois, a urgência do eleitor chileno parece bem mais prosaica: emprego, salário e custo de vida.

O governo argumenta que herdou problemas que não poderiam ser resolvidos em meio ano e que sua política começa a preparar uma recuperação. Kast destaca o ajuste das contas públicas e investimentos que pretende destravar. A redução dos gastos fiscais aparece, aliás, entre os principais acertos da sua gestão, segundo a própria Cadem.

E seis meses são, de fato, pouco para decretar o destino de um mandato de quatro anos. O Chile também continua sendo, apesar de suas tensões sociais, uma das economias e democracias institucionalmente mais estáveis da América Latina.

Talvez por isso o caso chileno mereça atenção além da cordilheira. Kast faz parte de uma geração de políticos de direita que avançou na região prometendo ordem, segurança e ruptura com governos anteriores. O início de seu mandato mostra que uma eleição pode ser vencida sob o signo da criminalidade e da imigração, mas o eleitor não necessariamente permanece quatro anos olhando para os mesmos problemas.

No Chile, o bolso recuperou rapidamente o centro da conversa. A direita chegou ao governo com a promessa de responder à emergência da segurança. Agora Kast precisa demonstrar que consegue responder a outra, muito mais antiga na política latino-americana: a de quem teme perder o emprego ou não conseguir pagar as contas.

Fresta para a liberdade na Venezuela

Pela primeira vez em anos, a jornalista Luz Mely Reyes, diretora do "Efecto Cocuyo", pode abrir de seu celular na Venezuela o site sem recorrer a uma VPN. O veículo está entre os 17 sites de notícias cujo bloqueio foi suspenso pelo regime de Delcy Rodríguez, oito meses depois da queda de Nicolás Maduro e às vésperas de uma nova rodada de negociações com a oposição.

A censura obrigou o "Efecto Cocuyo" a ensinar leitores a usar VPNs e buscar outras formas de distribuir suas reportagens. Reyes, premiada internacionalmente, teve de deixar o país durante a perseguição a jornalistas e meios independentes.

"Não é um ato de clemência. Tampouco de justiça. Nunca deveriam ter nos bloqueado", escreveu ela ao anunciar a mudança.

A fresta ainda é estreita. Segundo a VE Sin Filtro, 188 sites permanecem bloqueados na Venezuela, 79 deles de notícias. O sindicato dos jornalistas pediu a liberação de todos eles.

MIRADA

Policiais reprimem protestos na capital da Bolívia, La Paz, que reclamam das políticas de ajuste e pela extensão do estado de emergência convocado pelo presidente de direita Rodrigo Paz.

LATINAS

Uma câmera no meio do golpe.
O chileno Patricio Guzmán, morto no último dia 15, aos 85 anos, deixou um dos grandes documentos cinematográficos da história política latino-americana. Em "A Batalha do Chile", trilogia filmada entre 1972 e 1973, sua pequena equipe acompanhou nas ruas a crescente tensão em torno do governo de Salvador Allende, reuniões de trabalhadores, confrontos políticos e, finalmente, o golpe de 11 de setembro. Guzmán foi preso e passou duas semanas no Estádio Nacional. Os rolos do filme foram escondidos e retirados do país, e a obra foi montada em Cuba. Seu cinegrafista, Jorge Müller, seria preso e desaparecido pela ditadura em 1974. Guzmán passou a vida no exílio, mas nunca deixou de filmar o Chile. "Um país sem cinema documental é como uma família sem álbum de fotografias", costumava dizer. As três partes de "A Batalha do Chile" estão na Mubi e serão exibidas em cópias restauradas na 50ª Mostra de São Paulo, em outubro.

Um crime que o México não resolveu.
Em 1994, Luis Donaldo Colosio, carismático candidato do PRI e favorito à Presidência do México, foi assassinado ao deixar um comício em Tijuana, cercado por uma multidão. Mario Aburto foi condenado pelo crime e permanece preso. Mais de três décadas depois, porém, uma pergunta continua assombrando o país: ele agiu sozinho? A série documental "Colosio - Assassinato Político", da HBO Max, revisita as contradições da investigação e acompanha uma pista que ganhou força recentemente: a existência de um segundo atirador. Um ex-agente do serviço de inteligência, detido no dia do crime e liberado horas depois, foi preso novamente em 2025 como possível coautor. São três episódios que terminam sem resolver o maior mistério: se houve um complô, quem mandou matar Colosio?

Cortázar falando de Cortázar.
Quatro longas entrevistas concedidas pelo escritor argentino Julio Cortázar a emissoras públicas da Espanha e da Argentina, entre 1977 e 1983, chegam agora ao papel em "Cortázar por ele mesmo", da editora 7Letras. O jornalista e pesquisador Cassiano Viana reuniu, transcreveu e traduziu as conversas, nas quais Cortázar fala de literatura, política, humor, memória e da própria vida. Viana defende que ouvir, e agora ler, o escritor explicando a si mesmo permite voltar à sua obra por outro caminho: as entrevistas compõem uma espécie de autorretrato, revelando a dimensão pessoal por trás de livros como "O Jogo da Amarelinha" e de seus célebres contos. Uma pequena preciosidade para cortazarianos —e talvez uma boa porta de entrada para quem ainda não é.

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