Portugal ganhou até 40 noites tropicais em 20 anos

O mesmo período incluiu sequências de cinco dias consecutivos com temperaturas mínimas superiores a 20ºC em zonas do interior e do Algarve. Os dados mostram que, durante certos episódios, o calor noturno pode afetar simultaneamente uma parte significativa do país e prolongar-se ao longo de vários dias.
O estudo de 2026 analisou 1.001 pontos geográficos, numa grelha de cerca de nove quilómetros, relativos ao período entre 1980 e 2025. Em 23,38% desses pontos, cerca de 234, onde as noites tropicais aumentam mais rapidamente, com uma tendência de aumento superior a mais duas noites por década. Mas em 17,19%, onde as noites tropicais já são frequentes, a frequência média atinge ou ultrapassa as 20 noites tropicais por ano. A validação dos números contou com os dados de observações de 24 estações meteorológicas do IPMA.
Já o estudo histórico, que analisa o longo período de 1941 a 2006, reuniu observações de 23 estações meteorológicas do IPMA. Conclusões globais: nestes 65 anos, a tendência de aumento das noites tropicais foi de 1,1 por década. E houve uma intensificação significativa desse aquecimento depois de 1976 (antes de começar a análise do estudo mais recente). A principal descoberta é que os locais onde as noites tropicais são mais frequentes não são aqueles onde essas noites estão a aumentar mais depressa.
Olhando também para os números dos relatórios do IPMA, é possível fazer a comparação entre as cinco cidades portuguesas. E há grandes diferenças no número e na extensão das noites tropicais. Eram esperados números diferenciados no Funchal, já que a Madeira tem um clima muito próprio. Mas as diferenças são também acentuadas no continente. As regiões do interior não apresentam todas o mesmo comportamento. As cidades próximas do mar também têm registos muito divergentes. Uma cidade com tardes muito quentes não é aquela que regista mais noites tropicais. E a frequência de noites tropicais depende da geografia e meteorologia locais.
Começando pela exceção, que é o Funchal e a ilha da Madeira. Em 2023, o Funchal registou cerca de 58 noites tropicais acima da média climatológica. Em 2024, voltou a ultrapassar a média (53% acima), com cerca de 38 noites acima de 20ºC. A capital madeirense acumulou cerca de 95 noites tropicais acima da média histórica desde 1961. Tem quase quatro vezes mais noites acima de 20ºC do que Lisboa.
O Algarve mostra também como o fenómeno se concentra em sequências prolongadas. Em 2023, o número de noites tropicais ficou cerca de 81% acima da média. Em junho do ano passado, Olhão teve 16 noites tropicais: mais de metade das noites desse mês. Faro ganhou três semanas de noites tropicais anuais: a média aumentou 80%. Faro ultrapassou Portalegre na comparação entre as médias históricas: anteriormente, Portalegre apresentava maior frequência; agora Faro tem mais 11 noites tropicais anuais do que a cidade alentejana. E, se fizermos a comparação com Lisboa, são mais 25,4 noites tropicais por ano.
E temos de falar de Portalegre, bem junto à fronteira espanhola, o caso que comprova todas as teorias. A cidade tem mais 14,4 noites tropicais por ano do que Lisboa. Soma 18 vezes mais noites tropicais do que Bragança, o que faz um contraste importante entre duas cidades do interior. Mas o aumento não é uniforme. A alteração principal tem lugar em junho e agosto, enquanto julho permanece estável. O que mostra que a evolução das noites tropicais também está a mudar a distribuição do calor noturno ao longo dos meses.
Portalegre chegou à tal mínima de 31,5ºC em junho de 2025. Superou em 0,8ºC o recorde anterior, atingido em 2003 e igualado em 2018. Ou seja, teve três episódios (já documentados) de mínimas superiores a 30ºC em anos diferentes. O último foi o de junho, antes dos meses tradicionalmente mais quentes. E a cidade fica a cerca de 597 metros de altitude, o que mostra que isso não impede necessariamente temperaturas mínimas extremas. Mas um recorde também não demonstra uma tendência. Os casos de Portalegre não mostram por si só que estas noites extremas estão a aumentar.
Já Bragança teve um aumento de apenas 0,4 noites tropicais por ano. Mas a subida percentual é maior do que a o número absoluto pode sugerir. É um bom exemplo de como uma variação percentual pode parecer importante, mesmo sem representar muitos dias adicionais.
Há outros dados gerais relevantes. Agosto ultrapassou julho e passou a ser o mês com mais noites tropicais. Junho e agosto concentram cerca de 79% do aumento de noites tropicais — junho ganhou 1,6 noites por ano, cerca de 37%; e agosto 1,7 noites, cerca de 21%. Em julho quase não houve alterações — manteve as 9,1 noites tropicais. E em setembro até houve uma pequena descida. Mas maio mais do que duplicou a frequência média destas noites quentes, embora o aumento absoluto seja inferior a uma noite. Este aumento de noites tropicais em maio e outubro mostra que o fenómeno não se limita ao período central do verão.
Pergunta central: por que é que as noites não arrefecem? A resposta mais óbvia: porque o aquecimento global aumenta a probabilidade de a temperatura mínima ultrapassar os 20ºC. Depois as explicações mais em detalhe: a circulação de massas de ar quente pode provocar episódios extremos, como o de Portalegre ou Faro; a proximidade do mar influencia o arrefecimento noturno, mas de formas diferentes ao longo da costa, consoante a região; a altitude não garante arrefecimento noturno e, mais uma vez, o exemplo de Portalegre exige considerar também a circulação atmosférica, o vento e o relevo; as cidades podem acumular calor durante o dia, criando ilhas de calor urbano, e aumentar a temperatura noturna, porque não conseguem libertar todo o calor retido durante a noite; e a humidade agrava o desconforto, embora não conte para a definição de noite tropical. Em resumo, o aquecimento global cria as condições de fundo e a geografia e a meteorologia determinam a intensidade do fenómeno em cada local.
As noites tropicais são sobretudo uma questão de persistência do calor. O Algarve e a Madeira são os exemplos portugueses mais claros. Lisboa ocupa uma posição intermédia, mas muito acima do Porto, apesar de estarem ambos no litoral. Beja e Évora demonstram que as regiões com tardes muito quentes não são as que acumulam mais noites tropicais. A Madeira é diferente do continente devido à influência marítima, à latitude e à temperatura do oceano, que dificultam o arrefecimento noturno. Por isso, o Funchal teve um total de 129 noites tropicais em 2023 e 109 em 2024, mais de um terço das noites de todo o ano.
2025 foi o verão mais quente em Portugal continental desde 1931 e teve 10 novos extremos de temperatura mínima. 2026 teve o quarto junho mais quente desde 1931, e a mínima média ficou 1,45ºC acima da normal: com agosto a ter a oitava mínima média mais elevada desde 2000. A tendência é que a cada 10 anos haja mais 1,1 noites tropicais por ano. A cada 20 anos mais 2,2 noites. E a cada 30 anos: +3,3 noites. Números que aumentam muito em algumas regiões. E que mostram uma evolução sem travões.
E o que é que se passa na Europa?
O fenómeno não é português. Acompanha uma tendência (preocupante) europeia de aumento e expansão geográfica das noites quentes. Em Espanha, as cidades mediterrânicas tiveram quase meses inteiros de noites tropicais no ano passado. Em França, a persistência também foi impressionante: durante a onda de calor de 19 de junho a 4 de julho de 2025, Narbonne teve 15 noites tropicais, Nîmes 14 e Aix-en-Provence 12. Na outra onda, entre 8 e 18 de agosto, Nice teve 11 noites quentes consecutivas.
A agência de meteorologia de Espanha (AEMET) define as noites tórridas como aquelas em que a mínima é igual ou superior a 25ºC. Nas dez maiores capitais espanholas, a frequência dessas noites multiplicou-se por dez entre 1984 e 2019. As mais quentes ficam na costa do Mediterrâneo: Valência, em junho de 2025, teve 26 noites tropicais no mesmo mês, contra 24 em Alicante e 25 em Castellón — recordes de junho nas três cidades. Em Barcelona foram 24 noites tropicais em junho, quatro delas com mínima igual ou superior a 25ºC.
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