“Brain fry”: estudo da BCG mostra como excesso de IA no trabalho gera fadiga mental e erros
Adicionar mais uma ferramenta de inteligência artificial à rotina nem sempre significa trabalhar melhor. Um estudo do Boston Consulting Group (BCG), publicado na Harvard Business Review em março de 2026, indica que a produtividade percebida cresce até três ferramentas e cai quando o profissional passa a usar quatro ou mais.
A pesquisa, feita com a Universidade da Califórnia em Riverside, ouviu 1.488 trabalhadores em tempo integral de grandes empresas dos Estados Unidos.
O que o estudo encontrou
Os autores batizaram o fenômeno de “AI brain fry”, algo como “fritura mental por IA”, definido como a fadiga mental causada pelo uso ou pela supervisão de ferramentas além da capacidade cognitiva da pessoa. Não se confunde com burnout, que é um esgotamento emocional crônico.
Ao passar de uma para duas ferramentas, a produtividade percebida sobe de forma significativa. Com três, chega ao pico. A partir de quatro, o desempenho cai, enquanto a tensão mental continua aumentando.
Entre os usuários de IA ouvidos, 14% disseram já ter vivido esse quadro. Quem supervisiona as ferramentas de forma intensiva relatou 14% mais esforço mental, 12% mais fadiga e 19% mais sobrecarga de informação. Os afetados também reportaram 39% mais erros graves.
Por que a supervisão pesa mais que o número de ferramentas
O desgaste vem menos do uso em si e mais da supervisão constante. Toda resposta gerada por IA precisa ser lida, conferida e, muitas vezes, corrigida. Com várias ferramentas, o profissional alterna entre interfaces e formatos diferentes, o que exige mais atenção e memória de trabalho.
Um gerente sênior de engenharia ouvido na pesquisa disse que trabalhava mais para administrar as ferramentas do que para resolver o problema.
Exemplo prático
Imagine um analista que usa um assistente para redigir e-mails, outro para resumir reuniões, um terceiro para montar planilhas e um quarto para pesquisar dados. Ao longo do dia, ele precisa conferir quatro tipos de resultado, cada um com falhas próprias. O tempo ganho na produção pode ser consumido na revisão.
Como reduzir a sobrecarga
Segundo os pesquisadores, usar IA para substituir tarefas rotineiras e repetitivas pode diminuir a ocorrência do problema. Eles também afirmam que as empresas devem administrar os efeitos negativos de forma proativa, sem abandonar a adoção da tecnologia.
Os resultados indicam que o ponto de equilíbrio fica em até três ferramentas, cada uma com função clara, como redação, análise de dados ou organização de reuniões.
Limites do levantamento
Os dados são autodeclarados, e os autores reconhecem que ainda não está claro se o brain fry é um fenômeno duradouro ou uma fase de adaptação. A incidência varia por área: 26% em marketing e 6% em jurídico.
Em outro estudo, com quase 12 mil trabalhadores em 14 países, a BCG apontou que mais de 40% dos usuários regulares de IA sem cargo de gestão relataram economizar um dia inteiro de trabalho ou mais por semana. Os dois levantamentos indicam que o ganho depende da forma de uso.
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