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Wednesday, October 7, 2026

'Bela e poderosa': por que todos nós precisamos da gordura corporal

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    • Author, Melissa Hogenboom
    • Role, BBC Future
  • Published

  • Tempo de leitura: 9 min

A gordura é algo indesejado há anos.

A cultura das dietas nos manda queimá-la. Algumas empresas alimentícias nos vendem produtos com baixo teor de gordura. E os fóruns de levantamento de peso compartilham dicas sobre como ter o mínimo de gordura corporal possível.

Basta passar alguns instantes nas redes sociais para encontrar conselhos sobre como ficar "com o corpo definido", ou seja, com um físico vigoroso e músculos extremamente bem definidos.

Neste ano, os especialistas passaram a se preocupar com o ressurgimento da tendência à magreza extrema. Em alguns casos, ela é alimentada pela popularidade das medicações para perda de peso.

O excesso de gordura traz preocupações de saúde e pode levar à obesidade. Mas ter pouca gordura também não faz bem. Ter como objetivo eliminar totalmente a gordura pode ser biológica e socialmente prejudicial, segundo diversos especialistas.

"Precisamos amar nossa gordura", afirma a endocrinologista e professora de medicina Elif Oral, da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos. "Ela desempenha uma função biológica muito importante."

Mas de quanta gordura precisamos? E por que ter pouca gordura pode nos fazer mal?

Por que a gordura corporal é importante

De forma geral, existem dois tipos diferentes de gordura: a gordura alimentar e a gordura corporal.

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A gordura alimentar é aquela que você ingere na alimentação. A gordura corporal é a forma encontrada pela natureza para armazenar a energia de que você não precisa.

Quando você come uma refeição, as gorduras alimentares, os carboidratos e as proteínas do alimento são decompostos em blocos de construção simples, que o seu corpo pode usar como combustível. Os carboidratos se transformam em glicose, as proteínas se tornam aminoácidos e as gorduras assumem a forma de ácidos graxos.

Mas, em vez de permanecerem passivamente no corpo, sabemos, agora, que a gordura corporal é um órgão ativo que regula as funções do corpo.

Como na história de Cachinhos Dourados e os três ursos, o nosso corpo funciona melhor quando tudo está "na medida certa". A escassez e os grandes excessos são prejudiciais para a nossa saúde.

Podemos pensar na nossa gordura corporal como um cofre de armazenamento especializado, que absorve os nutrientes quando há energia demais e os libera apenas quando eles são necessários, explica o professor de pesquisa clínica e experimental do tecido adiposo Mikael Ryden, do Instituto Karolinska, na Suécia.

Pessoa comendo salada em uma tigela e olhando para o relógio de pulso.

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, A gordura corporal é um órgão ativo, vital para armazenar o excesso de energia

Outro papel importante é a comunicação.

As células de gordura produzem hormônios que dizem ao resto do corpo quanta energia nós temos e até que ponto estamos satisfeitos. O mais estudado desses hormônios é a leptina, segundo Elif Oral.

"A leptina informa ao cérebro que há armazenamento de energia suficiente e, com isso, o cérebro pode quase relaxar", explica ela.

Este processo permite que o corpo se concentre em processos biológicos importantes, como a reprodução e o combate a infecções. Mas, sem a leptina, o cérebro começa a se preocupar com a quantidade de energia disponível, fazendo com que as funções essenciais comecem a perder prioridade.

A gordura corporal também é importante para preservar o calor do corpo.

A gordura branca armazena o excesso de energia, mas também age como camada de isolamento. Paralelamente, a gordura marrom e bege contém células especializadas que queimam energia para produzir calor, o que ajuda o corpo a manter sua temperatura.

O que acontece quando temos pouca gordura?

As consequências à saúde de ter gordura demais são bem conhecidas. Elas incluem o maior risco de doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2, certos tipos de câncer e osteoartrite. Mas ter muito pouca gordura também não é bom.

A queda da gordura corporal para níveis muito baixos, devido à severa restrição de calorias, pode causar efeitos profundos para a nossa saúde e fisiologia, explica a estudante de pós-graduação Jessica Maung, pesquisadora de doenças metabólicas da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos.

"Ter muito pouco tecido adiposo gera perturbações das funções do corpo e dos órgãos", explica ela.

Pessoa mede a barriga com fita métrica.

Crédito, Stock Photo via Getty Image

Quando o corpo tem pouca gordura, ele reage tentando economizar energia. Basicamente, o corpo entra em modo de inanição.

Com isso, os sistemas começam a se desligar, incluindo nossa função imunológica. E, sem ter reservas, o corpo começa a decompor músculos e a construção e os reparos dos ossos são suspensos.

Este processo resulta em fragilidade e aumento do risco de fraturas, segundo o professor de medicina metabólica Fredrik Karpe, da Universidade de Oxford, no Reino Unido.

"Esta não é uma situação saudável", segundo ele, especialmente porque deixa o corpo sem reservas para enfrentar infecções sérias ou outras emergências médicas.

Ter pouca gordura também pode afetar os hormônios e a saúde reprodutiva.

Em homens que ficam extremamente magros por se alimentarem de forma cronicamente insuficiente, a testosterona pode diminuir, bem como os níveis de energia e o desempenho físico. E algumas mulheres atletas com muito pouca gordura corporal vivenciam irregularidade ou interrupção da menstruação.

As pessoas com obesidade são mais propensas a sofrer de doenças cardiovasculares, por exemplo, mas a sua probabilidade de morrer devido a elas é menor do que entre os indivíduos mais magros. Este fenômeno é conhecido como paradoxo da obesidade.

Uma camada de reservas de gordura aparentemente ajuda o corpo a suportar eventos cardíacos sérios, AVCs e outras doenças agudas, segundo Elif Oral.

Em casos extremos, ter pouca gordura pode gerar graves consequências ou ser fatal. A condição de saúde mental conhecida como anorexia nervosa, por exemplo, pode gerar danos permanentes aos órgãos ou até a morte.

De quanta gordura realmente precisamos?

É surpreendentemente difícil avaliar a quantidade de gordura que temos no corpo. E também não existe um percentual ideal universal, pois as necessidades variam para cada indivíduo.

Mas, de forma geral, os homens adultos saudáveis costumam ter cerca de 10-20% de gordura corporal. Já as mulheres adultas saudáveis tendem a ter cerca de 20-29% e as pessoas que vivem com obesidade costumam ter gordura corporal acima de 30%.

Em termos de qual seria o ideal, "é muito difícil definir exatamente uma faixa", segundo Ryden. "Ela pode variar entre as pessoas, de acordo com o sexo e a etnia."

Entre os atletas, a quantidade típica de gordura corporal tende a ser mais baixa.

Nos seus estudos, a pesquisadora do desempenho esportivo Tamara Hew-Butler, da Universidade Estadual Wayne em Detroit, nos Estados Unidos, e seus colegas examinaram mais de 700 atletas. Para isso, eles usaram um scanner Dexa, que mede a composição do corpo, incluindo a gordura interna.

Alguns dos participantes ficaram surpresos com este resultado, segundo Hew-Butler, pois os atletas do estudo se exercitavam regularmente. Eles acreditavam que sua gordura corporal fosse entre 1% e 2%.

Homem sem camisa de pé, comendo uma tigela de salada

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, Não há percentuais ideais de gordura corporal para todas as pessoas, apenas orientações gerais

O local onde você armazena a gordura também é importante. A gordura visceral, também conhecida como abdominal, é especialmente prejudicial em quantidades excessivas.

Ao contrário da gordura que fica sob a pele, a gordura visceral envolve órgãos internos vitais e libera substâncias inflamatórias, que aumentam a pressão arterial e interferem com a insulina. Com isso, ela dificulta o controle do açúcar do sangue pelo corpo, aumentando o risco de diabetes tipo 2.

Como medir a gordura

Existem algumas formas de medir a quantidade de gordura corporal.

As avaliações mais detalhadas vêm dos scanners corporais completos Dexa. Eles conseguem diferenciar a gordura do corpo, a massa muscular magra e a massa óssea. Mas é necessário utilizar equipamentos especializados, que podem ser caros.

Um teste doméstico popular é o teste de dobra da pele. Ele envolve a medição da espessura da camada de gordura logo abaixo da pele, pressionando-a com um par de pinças especialmente projetado para esta função.

Mas este instrumento só consegue medir a espessura de dobras de gordura em partes específicas do corpo. A gordura visceral não pode ser medida diretamente desta forma.

E os testes de dobra da pele não são particularmente precisos e podem fornecer números baixos e ilusórios.

Outra opção doméstica é o uso de balanças inteligentes. Elas funcionam enviando uma corrente elétrica baixa através do corpo, para estimar a massa de gordura.

Mas as leituras são influenciadas pela quantidade de fluido que temos no nosso corpo. Por isso, elas não são consideradas precisas para medir os níveis de gordura. E também não conseguem dizer onde ela está armazenada, nem diferenciar entre a gordura abdominal e os demais tipos.

Mulher jovem e um pouco acima do peso corre em um parque.

Crédito, Stock Photo via Getty Images

Legenda da foto, Uma camada de reservas de gordura aparentemente ajuda o corpo a suportar eventos cardíacos sérios, AVCs e outras doenças agudas. É o paradoxo da obesidade

Na verdade, tentar medir os níveis de gordura em detalhes geralmente não é necessário para manter o corpo saudável. Mas existem duas medições que podem ajudar a manter o peso saudável e acompanhar onde a gordura está sendo armazenada.

Uma fita métrica pode ajudar a oferecer uma visão rápida. A razão entre a cintura e a altura mede a quantidade de gordura abdominal central em relação à altura.

Depois de medir a circunferência da cintura, você pode usar uma calculadora online para descobrir esta razão. Uma faixa saudável é entre cerca de 0,4 e 0,49.

A razão entre a cintura e os quadris também pode fornecer uma boa indicação. Para obter este número, meça a cintura na altura do umbigo e divida pela medida da parte mais larga dos seus quadris, ou use uma calculadora online.

Medidas acima de 0,90 para os homens e 0,85 para as mulheres são consideradas altas, pois o excesso de gordura em torno da cintura é um indicador de saúde metabólica precária.

O índice de massa corporal (IMC) não prevê com precisão a gordura corporal, pois não consegue diferenciar entre o teor de gordura e de músculos do corpo. Por isso, pessoas com grande percentual de músculos e muito pouca gordura podem ter IMC alto.

Você pode desejar acompanhar mais de perto sua composição corporal durante o envelhecimento. Nossa massa de gordura tende a aumentar, enquanto os níveis de músculos e ossos diminuem.

Como este processo pode causar prejuízos à saúde, é importante comer bem, fazer exercícios e praticar treinos de força.

Mas precisamos aprender a valorizar as importantes funções da gordura, que são muitas, sem ficarmos obcecados por objetivos extremos em relação à sua quantidade. O importante é ter a quantidade certa, sem lutar para reduzi-la ao máximo possível.

Como diz Elif Oral, "acreditamos que a gordura é bela e poderosa".

Melissa Hogenboom é repórter de saúde da BBC e autora dos livros Breadwinners ("Provedoras", em tradução livre) e The Motherhood Complex ("O complexo da maternidade"). Sua conta no Instagram é melissa_hogenboom.

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