Isto não é uma legenda. É um epitáfio sobre o Ocidente.

11 de Setembro de 2026. Londres. Residência oficial da Arcebispa de Cantuária.
Numa primeira leitura esta foto retrata a cerimónia com que a Arcebispa de Cantuária, Sarah Mullally, assinalou os 25 anos dos atentados do 11 de Setembro. Numa segunda leitura este é um dos retratos mais eloquentes do nosso tempo, do como e do porquê chegámos aqui, a este tempo de bruteza e vazio. Por fim esta é a foto do terrível desencontro que corrói o Ocidente.
Comecemos pelo princípio, pela data: 11 de Setembro. Há 25 anos a América foi atacada pelo terrorismo islâmico. Depois disso o islamismo terrorista atacou em Londres, Paris, Berlim, Madrid, Israel, Líbano, Síria, Moçambique… Matou cristãos, muçulmanos, ateus, agnósticos, hindus, budistas, animistas… Não faltavam pelo mundo figuras que a personalidade mais importante da Igreja de Inglaterra pudesse destacar nessa data. Mas não foi por aí que seguiu a escolha da Arcebispa de Cantuária, Sarah Mullally.
Em primeiro lugar, Mullally escolheu um clérigo paquistanês, Hafiz Muhammad Tahir Mehmood Ashrafi, que tem no seu curriculum elogios a Osama bin Laden, a defesa das leis da blasfémia e que considera legítimos os ataques aos soldados da NATO. Para assinalar o 11 de Setembro nem se vislumbra o que haveria de mais apropriado!
Em segundo, Hafiz Muhammad Tahir Mehmood Ashrafi não foi apenas à residência oficial em Londres dos arcebispos de Cantuária para se encontrar com Sarah Mullally no dia 11 de Setembro. Ele foi a Lambeth Palace para ser distinguido com um prémio que distingue a reconciliação e a cooperação inter-religiosa. Deixando de lado a questão da cooperação inter-religiosa que é sempre muito invocada e nada avistada, passemos à reconciliação. O uso do termo reconciliação em contextos de terrorismo é retoricamente falando uma armadilha que mais não visa que desculpabilizar os autores dos atentados, ao amalgamar todos, vítimas e terroristas, num mar de dores e acusações. Como trabalha para a reconciliação o homem que não só invocou Bin Laden como “Espada de Deus” quando Isabel II entregou o título de cavaleiro a Salman Rushdie como mais recentemente classificou os autores do 7 de Outubro em Israel como combatentes pela liberdade? Não se trata de reconciliação mas sim de subordinação.
Mas não acabam aqui os paradoxos desta cerimónia. Olhe-se para o vulto que está entre a arcebispa e Hafiz Tahir Ashrafi. Não foi identificada pelo nome. Tal como também não foi identificada a jovem que aparece no outro lado da fotografia. Dizem as notícias que devem ser a mulher (ou uma das mulheres de Hafiz Tahir Ashraf, pois ele defende que os homens podem ter até quatro esposas) e uma sua filha. E assim aqui temos a Arcebispa de Cantuária, Sarah Mullally, primeira mulher a chegar a tal cargo, ela mesma associada à corrente dita progressista dentro da Igreja de Inglaterra, a sancionar o uso do niqab em Londres, numa invisibilização física e social da dita mulher, pois nem o seu nome foi referido, nem a razão para estar ali, nem quem é.
Em resumo, temos um defensor de Bin Laden, dos atacantes do 7 de Outubro, da poligamia e da bondade da legislação sobre a blasfémia no Paquistão, acompanhado por uma mulher que usa niqab, a receber em Londres, a 11 de Setembro de 2026, das mãos da Arcebispa de Cantuária um prémio pelo seu trabalho em prol da reconcliação. Isto não é uma legenda. É um epitáfio sobre o Ocidente.
Este desencontro entre as pessoas que ocupam os postos mais simbólicos dos países e os seus povos é um dos traços mais perturbantes do nosso tempo: Sarah Mullally é Arcebispa da Cantuária no país em que milhares de pessoas se agarram à bandeira de São Jorge como símbolo duma identidade e duma soberania que sentem ameaçadas pela imigração, nomeadamente pela imigração muçulmana. Em que grupos de homens de rosto tapado se dirigem para os portos para procurar impedir o desembarque dos imigrantes que os seus militares e agentes de segurança não conseguem deter. E em que o governo, neste caso o britânico, não percebe porque é que as populações de pequenas localidades, como é o caso de Piddington, que no passado viveram traquilamente com bases militares nas proximidades, não aceitam agora a instalação de 1256 requerentes de asilo numa dessas bases militares desactivadas.
As democracias ocidentais geraram e geram níveis de prosperidade invejáveis. Mas estas mesmas sociedades, que pareciam invencíveis vistas de fora, são corroídas há anos pela abjuração de si mesmas: a sua História e os seus valores, que foram a estrutura que permitiu o progresso, a liberdade e a tolerância, foram primeiro ridicularizados, depois desvalorizados e agora esquecidos ou criminalizados.
Ora o que resta aos povos quando sentem o chão a fugir-lhes e vêem os seus líderes religiosos (e na Europa a religião antecedeu os estados) a comportar-se como a arcebispa de Cantuária, ou os seus governos a falhar clamorosamente como está a acontecer em Ceuta? Resta o mais corrosivo de todos os sentimentos numa sociedade: o sentimento de que somos fracos, governados por fracos, vivendo em sociedades que são ricas mas fracas.
PS1. A Arcebispa de Cantuária revogou entretanto a distinção concedida a Hafiz Tahir Ashraf. Literalmente falando é o chamado procurar ficar bem na fotografia.
PS1. O wokismo tem coisas pícaras. Não sei se é distracção minha mas não encontrei até agora nas múltiplas reportagens sobre o que cada vez mais se designa como “crise migratória” em Ceuta referências a um bairro onde não entrou praticamente nenhum dos grupos provenientes de Marrocos, dada a reacção hostil dos seus habitantes. Nem tendas, nem barracas, nem ocupações. Nada. Trata-se do bairro Juan XXIII e lá residem boa parte dos ciganos de Ceuta. Aqueles activistas do “não há fronteiras”, “eu sou cidadã do mundo” e outras sandices próprias de quem vive em condomínios fechados podiam ir lá fazer umas sessões de esclarecimento.
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