Vitória de Flávio legitimaria a direita na América Latina, diz analista

UOL: Existe uma expectativa enorme nos governos de direita da região diante da possível vitória de Flávio Bolsonaro no Brasil. Essa expectativa está justificada, no sentido de que representaria uma mudança verdadeiramente positiva para esses governos e para a administração de Donald Trump nos Estados Unidos?
Sandra Borda: Mais do que mudanças estruturais imediatas nos países governados pela direita ou extrema-direita na América Latina, uma vitória de Flávio Bolsonaro será utilizada, principalmente, como um potente elemento de legitimação política para outros presidentes da região. Pensemos no contexto atual: Abelardo De la Espriella, presidente colombiano, ganhou por uma margem muito estreita em seu país; José Antonio Kast enfrentou uma perda de popularidade expressiva no Chile; e o próprio Javier Milei, na Argentina, viu seus níveis de aprovação caírem bastante. Para esse bloco, o triunfo da direita em um gigante como o Brasil não é apenas uma boa notícia; é o escudo político de que precisam para validar suas próprias agendas internas.
UOL: Falando em escudo, especula-se muito no Brasil com uma eventual entrada do país no Escudo das Américas, lançado por Trump, do qual já faz parte a Colômbia. Uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro pode favorecer o escudo trumpista e sua aliança com governos de direita na região em matéria de segurança?
Sandra Borda: A realidade é muito diferente dos discursos. Falou-se muito, por exemplo, de supostas retiradas de fundos de assistência militar dos EUA destinados a países da Europa e da África para serem realocados à América Latina, mas isso não aconteceu. Quando De la Espriella foi eleito, anunciaram, com pompa e circunstância, um pacote bilionário de ajuda dos EUA para a Colômbia. No final das contas, não aconteceu absolutamente nada, porque essas decisões precisam passar pelo Comitê de Apropriações do Congresso dos Estados Unidos e, em período eleitoral — em referência às eleições de meio de mandato nos EUA —, tudo isso fica em suspense. É muito barulho por quase nada. Então, vejo discursos muito fortes, mas pouca mudança no terreno.
UOL: No Brasil, a experiência da Colômbia com Trump é observada por políticos, militares e acadêmicos. Especula-se sobre a instalação de bases militares americanas em território colombiano, como parte da aliança entre De la Espriella e Trump. Quão viável é esse cenário?
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