PE: Médica é nomeada para maternidade onde mãe é serviços gerais há 23 anos


Eram 10h30 da quarta-feira passada, quando Edilene Gomes, 56, parou um instante o seu serviço na Policlínica e Maternidade Professor Arnaldo Marques, no bairro do Ibura, Zona Sul do Recife, para atender uma chamada de vídeo.
No outro lado da tela, estava o prefeito do Recife, Vitor Marques (PCdoB), que anunciou que a sua filha, a ginecologista Patrícia Lima, estava sendo nomeada para trabalhar na mesma unidade em que atua há 23 anos.
"Eu acho que é o sonho de qualquer mãe viver esse momento. Ver minha filha chegar depois de tantos anos esperando isso, estar com ela perto, realizando o sonho que ela sempre quis?", diz ao UOL uma emocionada Edilene.
Patrícia foi uma das 135 profissionais nomeados pela Prefeitura para atuar na rede de saúde municipal. Até então, a mãe não sabia para qual unidade Patrícia iria. "Obviamente eu não poderia ter escolhido outro lugar, senão ao lado da minha mãe", conta à médica à coluna.
Ela trabalha aqui desde que eu tinha oito anos de idade, e eu quis vir para cá para estar trabalhando ao lado dela, para honrar essa maternidade de onde ela tirou nosso sustento. É uma forma de gratidão a tudo que ela fez por mim.
Patrícia Lima

Um dia após a nomeação, Patrícia já deu o primeiro plantão e encontrou a mãe.
Superação
A história de Patrícia é de superação, marcada por períodos de fome e moradia em uma ocupação no bairro de Tejipió durante sua juventude.
Edilene criou Patrícia e a irmã Bárbara sozinha. "A gente já passou muita dificuldade, fome. Muitas vezes eu não tinha nada para dar a ela e eu pedia muito a Deus que ele olhasse por nós", conta a mãe de Patrícia.
A situação financeira só começou a se estabilizar quando Edilene conseguiu o emprego de auxiliar de serviços gerais na maternidade. Foi da maternidade que Edilene garantiu o sustento das filhas para que elas pudessem se dedicar exclusivamente aos estudos.
O local tornou-se referência também para a família, que utilizava os serviços de pediatria, odontologia e vacinação.
Já Patrícia desde a infância dizia do desejo em ser médica. "Mas eu não tive ninguém na minha família que tenha acessado o ensino superior, então não sabia nem como fazer. Só passava pelos hospitais e dizia para minha mãe que eu queria ser médica e apontava dizendo que eu iria trabalhar ali", lembra.

Bolsa e cotas fundamentais
O caminho para a universidade pública começou a se desenhar aos 14 anos, quando Patrícia ingressou com uma bolsa na escola de referência Cícero Dias, do Recife.
Em 2012, após frequentar um curso pré-vestibular gratuito, conseguiu ingressar na UPE (Universidade de Pernambuco) pelo sistema de cotas.
Patrícia se formou em 2018 e foi trabalhar em uma unidade de ESF (Estratégia de Saúde da Família) em Ipojuca, na Grande Recife, onde ficou até 2021.

Naquele ano, já com a vida mais estabilizada e ajudando financeiramente sua mãe e sua irmã (hoje formada em biomedicina), ela ingressou na residência médica em ginecologia e obstetrícia no Hospital Barão de Lucena.
Após três anos de residência e outro de subespecialização em gestação de alto risco, ela prestou o concurso da Prefeitura do Recife e foi chamada agora.
Com a renda de médica, ajudo minha mãe e minha irmã financeiramente. Eu saí de casa, minha irmã casou, mas minha mãe preferiu continuar morando pelo Ibura por causa da proximidade ao trabalho. Mas as condições de moradia melhoraram.
Patrícia Lima
Reportagem
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