Como PF e PGR mapeiam suposta rede de exploração sexual de Vorcaro: 'Voo das kengas é para sair de manhã'

- Author, Leandro Prazeres e Luiz Fernando Toledo
- Role, Da BBC News Brasil em Brasília e em Londres
Published
Tempo de leitura: 6 min
A Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República (PGR) trabalham para mapear a suposta rede de exploração sexual de mulheres que teria sido operada pelo banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master.
Duas fontes ouvidas pela BBC News Brasil familiarizadas com o caso detalharam as principais frentes de investigação. Os investigadores apuram duas principais suspeitas relacionadas ao empresário.
A primeira apura se Vorcaro se beneficiou, direta ou indiretamente, dessa suposta rede. A suspeita é de que ele teria utilizado essa rede para obter acesso e influência sobre políticos, autoridades e empresários.
A segunda é a de que ele teria conhecimento e autorizado o recrutamento e o transporte, doméstico e internacional, de mulheres para a prática de prostituição em alguns dos eventos financiados por ele.
A pena para o crime de exploração sexual varia de dois a cinco anos de prisão. O tráfico de pessoas para fins de exploração sexual pode levar a penas de cinco a oito anos de detenção.
A investigação, que ainda está em fase preliminar, foi revelada nesta semana pelo portal UOL. Ela já mapeou pelo menos três pessoas, além de Vorcaro, que teriam dado suporte à suposta rede.
A BBC News Brasil enviou questionamentos sobre a investigação à defesa de Vorcaro, mas não recebeu respostas.
Na terça-feira (13/10), em manifestação sobre outra reportagem, a defesa de Vorcaro negou a prática de exploração sexual de mulheres.
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"Nego veementemente que tenha, em algum momento, explorado ou desrespeitado mulheres. Isso não é da minha índole. Na verdade, a falsa narrativa criada é exatamente o oposto do que sou, o que pode ser confirmado por qualquer mulher que me conheceu ou com quem me relacionei", disse.
As mensagens extraídas do telefone celular do banqueiro, preso desde março deste ano por supostos crimes contra o sistema financeiro nacional, revelam contatos com promotores de eventos no Brasil e no exterior que organizaram festas para Vorcaro ao longo dos últimos três anos com a presença de mulheres.
Sua defesa vem tentando firmar um acordo de colaboração premiada com as autoridades, mas até agora o acordo não foi celebrado.
Em depoimentos prestados desde o ano passado, Vorcaro negou ter cometido irregularidades.
A BBC News Brasil obteve acesso às mensagens extraídas pela Polícia Federal do telefone de Vorcaro.
As fontes ouvidas pela BBC News Brasil disseram que a investigação considera o fato de que, no Brasil, a prostituição não é crime, mas que a exploração dela por terceiros, sim, é passível de punição criminal.
Procuradores da PGR e da PF mantiveram reuniões sobre o assunto nos últimos meses, mas as investigações não fazem parte de um inquérito específico. A expectativa, segundo uma fonte da PF informou a BBC News Brasil, é de que um inquérito dedicado ao assunto seja aberto em breve.
'Vou já escravizar ela pra hoje'
As fontes afirmam que as principais perguntas sobre a suposta rede operada por Vorcaro são:
- A contratação de mulheres supostamente financiada por Vorcaro previa a exploração sexual ou apenas a presença social das mulheres em eventos?
- Qual era a dinâmica financeira dos intermediários e se havia cobrança de "pedágio" sobre os repasses feito às mulheres?
- Houve exploração da situação de vulnerabilidade das mulheres contratadas?
- Existe comprovação de vinculação direta entre a suposta oferta de acompanhantes e contrapartidas de agentes públicos ou privados?
Para responder a essas perguntas, a investigação, inicialmente, deverá focar sua atenções em três pessoas, além de Vorcaro.
Um deles, segundo os investigadores, é o empresário Leo Serrano, sócio da empresa SL Consulting.
As mensagens do telefone de Vorcaro sugerem que a empresa era responsável por parte da logística internacional dos eventos de Vorcaro.
Mensagens trocadas entre os dois obtidas pela BBC News Brasil mostram Vorcaro solicitando o transporte de mulheres para Nova York para um evento em maio de 2024.
"O voo das kengas tem que sair de manhã", disse o banqueiro. "Kenga" era o termo usado por Vorcaro para se referir a algumas das mulheres que participavam de eventos patrocinados por ele. O termo é frequentemente usado para se referir a garotas de programa.
"Não posso chegar junto com elas", complementou o banqueiro.
"Ok, vou colocar 10:00am Domingo, vai pousar em NY por volta das 20:00", respondeu Serrano.
Procurada, a defesa de Serrano disse que sua empresa não participou de atividades ilícitas.
A empresa, conhecida e respeitada no mercado, presta serviços de viagens e eventos, para vários clientes, sempre atuando com profissionalismo e ética. Em hipótese alguma tinha conhecimento ou compactou com qualquer atividade ilícita", disse.
Outra pessoa na mira dos investigadores é o promotor de eventos Diogo Batista.
Em mensagens inicialmente reveladas pelo portal UOL e obtidas pela BBC News Brasil, Batista e Vorcaro citam a participação de mulheres estrangeiras em eventos financiados pelo banqueiro.
Em diversos casos, foram encontradas citações a refugiadas ucranianas e termos como "escravizar" em referência a mulheres.
"Mãe dela mandou áudio dos bombardeios", disse Diogo em referência a uma mulher de nacionalidade ucraniana localizada para participar de um evento patrocinado por Vorcaro.
"Segurei ela pq ela ia sair pra se refugiar na Itália", continuou o promoter.
"Que loucura", prosseguiu o promoter em mensagem enviada a Vorcaro no dia 14 de dezembro de 2023.
Em outro trecho da conversa, Diogo Batista diz que "escravizaria" uma mulher para trabalhar para eles.
"Vou operar uma agência aqui", disse.
"... as gatas daí moram fora", continuou o promoter.
"Essa minha amiga conhece Mule", prosseguiu em possível referência ao termo "mulher".
"Vou já escravizar ela pra hoje e fazer trabalhar pra gente aí", continuou o promoter em mensagem enviada no dia 29 de novembro de 2023.
A BBC News Brasil contactou Batista por meio de mensagens de texto e enviou questionamentos a ele, mas até o momento, nenhuma resposta foi recebida. A BBC News Brasil não conseguiu identificar se ele tem advogados.
Segundo as fontes ouvidas pela BBC News Brasil em caráter reservado, a investigação ainda precisa determinar se os pagamentos feitos à SL Consulting e a Diogo Batista se referiam apenas à presença de mulheres em eventos ou se envolviam na organização de encontros sexuais.
Segundo os investigadores, a apuração deverá tentar rastrear o fluxo de dinheiro e definir quem contratava, pagava e coordenava os deslocamentos.
Pessoa-chave
A terceira pessoa a ser investigada é uma mulher que, nas mensagens trocadas com Vorcaro, aparece fazendo cobranças relacionadas à participação dela e de outras mulheres em festas promovidas pelo banqueiro.
É ela que cobra Vorcaro, em 2025, o pagamento supostamente destinado a uma amiga que, segundo ela, teria "ficado" com um homem chamado "Kassio".
O portal UOL e a revista Piauí apontam que essa menção pode se referir ao ministro Kassio Nunes Marques.
Procurada pela BBC News Brasil sobre o assunto, a assessoria de imprensa do ministro enviou uma nota negando ter pedido qualquer favor ao banqueiro.
"O ministro Kassio Nunes Marques nunca votou a favor de Daniel Vorcaro (inclusive deu voto pela manutenção da prisão), nunca trocou mensagens com ele e nem pediu nada ao banqueiro. O ministro também nunca autorizou ninguém a falar em nome dele e não pode se responsabilizar por conversas ou ações de terceiros", diz um trecho da nota. .
Essa mulher, cujo nome completo ainda não foi identificado, é vista como uma pessoa-chave para compreender se Vorcaro organizava festas eventos voltadas para a prática da prostituição para tirar proveito direto ou indireto disso.
Até o momento, segundo as fontes, não foram identificados indícios de violência física ou ameaça explícita na operação dessa suposta rede.
A investigação procura ainda verificar se houve algum tipo de fraude ou abuso da condição de vulnerabilidade das mulheres envolvidas.
As duas fontes ouvidas pela BBC News Brasil sobre o caso afirmam que há dois fatores complicadores nesta investigação.
O primeiro é identificar se os supostos serviços sexuais prestados pela rede tinham alguma contrapartida de políticos, empresários ou autoridades.
Este ponto é considerado importante, mas, um dos investigadores afirmou que, ainda que não seja localizado um ato de ofício decorrente de um favor sexual financiado por Vorcaro, o banqueiro ainda assim poderia responder por se favorecer, ainda que indiretamente, da exploração sexual de mulheres.
O segundo ponto complicado da investigação é estabelecer o alcance internacional dessa suposta rede.
Segundo os investigadores, para isso é necessário identificar mulheres fora do Brasil e ouvir os seus depoimentos.
Os investigadores reconhecem ainda que muitas dessas mulheres talvez não queiram se identificar ou prestar depoimento para evitar suas próprias exposições.
Atenção: o novo aplicativo não está disponível no Reino Unido e nos Estados Unidos e não existe uma versão em inglês.
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