TAG: Se eleito, Flávio precisa pôr ajuste fiscal à frente de anistia e crise com STF
- • A TAG Investimentos dá a Flávio Bolsonaro 92% de chance de vencer o segundo turno, mas avisa que o mercado não terá paciência se anistia e impeachment de ministros do STF passarem à frente da agenda econômica
- • Para a gestora, a probabilidade de o Brasil adotar uma política econômica saudável sobe de "perto de zero" para algo entre 50% e 60% com a vitória de Flávio
- • O vencedor herda dívida bruta de 82,9% do PIB, Selic de 13,75% e um Bolsa Família R$ 22 bilhões mais caro em 2027
- • A TAG está aumentando posição em bolsa brasileira e em títulos atrelados à inflação. A classe de que menos gosta é o dólar contra o real
A TAG Investimentos vê Flávio Bolsonaro (PL) como favorito no segundo turno, mas avisa que a vantagem nas urnas não se converte automaticamente em apoio do mercado. Na carta mensal de outubro, a gestora faz um alerta direto sobre as prioridades de um eventual governo de oposição. "Se Flávio gastar muito tempo com anistia e impeachment de ministros do STF e com isso prejudicar a agenda econômica, o mercado não terá paciência e cobrará isso nos preços", diz a carta.
Segundo a TAG, a janela para entregar resultados é curta. "Quem desperdiçar os primeiros seis meses vai governar os outros 42 com a rua contra", diz a carta. Entre os pontos a observar, caso a vitória se confirme em 25 de outubro, a gestora cita a formação do novo governo, a ordem das prioridades no início do mandato e o fato de Flávio ser, na avaliação da casa, mais político do que o pai.
A agenda que o mercado espera
A lista de tarefas, segundo a gestora, é conhecida. A primeira é arrumar o fiscal. A dívida bruta chegou a 82,9% do PIB em agosto, o maior nível desde março de 2021. A segunda é cortar impostos sem abrir buraco nas contas e, com isso, dar ao Banco Central espaço para cortes agressivos de juros. Com a Selic em 13,75% e a inflação em 4,22% em 12 meses, a TAG calcula um juro real de 9,1% hoje.
A terceira frente é a reforma do Judiciário. Segundo a gestora, o tema não lidera as preocupações dos brasileiros, como a violência e a corrupção, mas é o que reúne mais consenso. No Datafolha de setembro, 76% dos entrevistados disseram achar que os ministros do STF têm poderes excessivos. Na Quaest, 53% apoiam mandato fixo para os integrantes da Corte.
O risco apontado pela TAG está na dosagem. Uma coisa é reformar o Judiciário. Outra é transformar o início do governo em uma disputa com o Supremo enquanto o ajuste fiscal espera.
Favoritismo não é mandato
A gestora lembra que boa parte dos votos de domingo não foi de adesão. No Datafolha de agosto, 35% dos eleitores de Flávio diziam votar nele principalmente para derrotar outro candidato. Entre os eleitores de Lula, a fatia era de 23%. Na véspera da eleição, os dois tinham 45% de rejeição cada.
Se confirmada a vitória, diz a carta, Flávio governará com a oposição da metade do país que vota em Lula e com a paciência curta de quem votou nele só para tirar o PT do poder.
As contas da TAG para o segundo turno
Flávio terminou o primeiro turno com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula, uma diferença de pouco menos de 2 pontos percentuais. Pelo modelo da TAG, a chance de vitória de Flávio no segundo turno é de 92%.
Para virar o jogo, Lula precisaria conquistar cerca de 65,2% dos eleitores dos demais candidatos que escolherem um lado no segundo turno. Em 2022, os eleitores de Simone Tebet se dividiam entre 59% a favor de Jair Bolsonaro e 41% a favor do petista, segundo o Datafolha. Agora, os eleitores dos outros candidatos pendem para Flávio.
As pesquisas, mais uma vez, erraram. A média da véspera do 1º turno dava Lula 2,2 pontos à frente. A urna inverteu o placar, um erro de 4,1 pontos na margem, segundo a gestora. Foi a terceira eleição seguida em que os levantamentos subestimaram o campo conservador.
Na leitura econômica, a TAG avalia que, com Lula, a probabilidade de o país entrar nos trilhos de uma política econômica funcional era "algo perto de zero". Com a vitória de Flávio, essa chance sobe para pouco acima de 50%, talvez perto de 60%. "O Brasil era um paciente na UTI, com os médicos já pensando em chamar a família", escreve a gestora. O paciente estaria indo para o quarto, mas debilitado e com uma longa recuperação pela frente.
Um Congresso que ainda depende do centrão
O capital político de Flávio, segundo a carta, está no Congresso. O PL elegeu 121 deputados (tinha 98) e segue com a maior bancada da Câmara. A direita bolsonarista, que soma PL, Novo e Missão, foi de 104 para 132 cadeiras. O centrão caiu de 285 para 257, exatamente o número da maioria absoluta. A esquerda ficou estável, com 124.
No Senado, a direita bolsonarista praticamente dobra, de 15 para 31 senadores a partir de fevereiro de 2027. Ainda assim, faltam 10 votos para a maioria absoluta, necessária para aprovar ou barrar um indicado ao STF, e 23 para os 54 votos que permitem abrir e condenar um ministro do Supremo em um processo de impeachment. Somada ao centrão inteiro, a direita chegaria a 65.
A tradução, para a gestora, é que quem vencer em 25 de outubro vai negociar cada votação com o centrão, assim como ocorre com o governo atual.
O prêmio do Supremo
O próximo presidente poderá indicar até 4 dos 11 ministros do STF. A cadeira de Luís Roberto Barroso está vazia desde outubro de 2025, depois que o Senado rejeitou Jorge Messias por 42 a 34, a primeira rejeição desde 1894. Durante o mandato, ainda se aposentam compulsoriamente Luiz Fux (abril de 2028), Cármen Lúcia (abril de 2029) e Gilmar Mendes (30 de dezembro de 2030, seis dias antes do fim do mandato, em pleno recesso).
Se Flávio vencer e preencher as quatro vagas, os ministros indicados por um Bolsonaro passam de 2 para 6 das 11 cadeiras, maioria do tribunal. Seriam 5 se a vaga de Gilmar escapar pelo recesso. Se Lula virar, os indicados por presidentes do PT passam de 6 para 8. A carta pondera que indicar não é controlar, e cita Fux, indicado por Dilma Rousseff, que votou pela absolvição de Jair Bolsonaro.
A conta das bondades de outubro
A TAG não espera freio fiscal nas três semanas até o segundo turno. A gestora lembra que Bolsonaro antecipou o calendário do Auxílio Brasil e liberou o consignado do benefício entre os turnos de 2022. Agora, quem está atrás e tem a caneta é Lula. O Bolsa Família sobe de R$ 600 para R$ 691, com pagamento a partir de 19 de outubro, seis dias antes da votação. O custo é de R$ 5,8 bilhões em 2026 e R$ 22 bilhões em 2027.
Além disso, o Desenrola 3.0 autoriza a União a comprar até R$ 150 bilhões em dívidas com desconto mínimo de 90%, e o subsídio ao diesel vale até 26 de outubro, o dia seguinte ao segundo turno.
O vencedor, portanto, herda juro de dois dígitos, emendas parlamentares de cerca de R$ 50 bilhões por ano e um Congresso em que nada passa sem o centrão. Em junho, a TAG já havia escrito que não via vontade de ajuste fiscal nem em Lula nem em Flávio. "Flávio tem que provar ao mercado que o seu fiscalismo não é da boca para fora", diz a carta.
Como a TAG está posicionada
Na sexta-feira anterior à eleição, o Ibovespa subiu 2,63%, para 192.114 pontos, na aposta de que Flávio superaria as pesquisas. Na segunda-feira, a bolsa teve a maior alta diária em seis anos, com varejo, construtoras e B3 entre os destaques. A TAG avalia que o país pode ter um rali de alguns meses, a depender do cenário internacional de juros em alta, até que o governo comece. Daí em diante, só com entregas.
Na carteira, a gestora mantém posição muito favorável a títulos atrelados à inflação e está aumentando a duration (prazo médio dos títulos) dos papéis indexados ao IPCA. Também pretende ampliar a exposição a prefixados, com a avaliação de que, diante de uma economia fraquejando e de uma crise de crédito, o Banco Central quer um presidente fiscalista para reduzir juros. Pelo mesmo motivo, a TAG aumenta a posição em bolsa brasileira.
A classe de que a gestora menos gosta é o dólar contra o real. Com o diferencial de juros se reduzindo, as posições em real ficam menos atrativas, ainda que possam render, segundo a carta, menos que as demais classes quando ajustadas ao risco.
O ruído institucional, porém, deve continuar. Para a TAG, um Senado mais bolsonarista diante de um STF sob pressão é fonte de ruído permanente, ganhe quem ganhar.
KioskNews shows a cleaned-up reading view extracted from the publisher’s page — the original always lives on their site, not ours.