Filha convence pai, doa rim e tira ele da diálise no CE: 'Ver era doloroso'


Depois de 13 anos e três meses de hemodiálise e oito anos esperando na fila por um rim, Rafael Pereira de Souza, 43, comemora hoje a saúde de volta graças à doação do órgão feito pela filha de 21 anos, que esperou a maioridade para convencer o pai a aceitar o procedimento.
O transplante foi feito em 18 de janeiro de 2026 no HUWC (Hospital Universitário Walter Cantídio), em Fortaleza, e tanto Rafael como Eduarda de Souza Araújo estão recuperados e bem de saúde.
A família é natural da cidade de Sucupira do Norte (MA), mas hoje mora na capital cearense. Rafael se mudou em busca de tratamento, em 2017, e a filha foi morar com ele em 2022, quando a mãe dela morreu e a guarda passou a ser do pai.
Busca sem sucesso por doador
Rafael fazia hemodiálise três vezes por semana e já enfrentava o desgaste natural pelo tempo de procedimento. O caso dele foi revelado inicialmente Diário Nordeste.
Ao UOL, a médica Claudia Maria Oliveira, nefrologista responsável técnica do transplante no HUCW, explica que o período que Rafael ficou na diálise é considerado longo e pode gerar problemas. "Tempo longo em diálise acrescenta risco de complicações cardiovasculares pós-transplante, mas ele está evoluindo de modo muito positivo", diz.

Em regra, diz Claudia, um paciente fica na lista de espera por doador falecido durante um período e, caso não apareça ninguém, a ideia do transplante intervivos passa a ser considerada. Nesses casos, parentes até o 4º grau podem doar, sem necessidade de autorização judicial.
"Existem regras na seleção do Sistema Nacional de Transplante, de acordo com a pontuação que o paciente tem. Quando demora muito, o paciente começa a ter mais problemas por estar mais tempo em diálise, e aí a família pode se oferecer para doar, ou então o próprio paciente pode aceitar uma doação que antes ele não queria", explica.
Foi o caso de Rafael, que inicialmente recusou a oferta da filha. "Ela era muito nova ainda, eu tinha medo de acontecer alguma coisa", conta o aposentado pelo INSS.

"Após um tempo, conversei com a médica, e ela disse que Eduarda tinha grande chance de doar e, como ela é nova, não teria problema para ela. Foi então que aceitei", relembrou.
Minha vida hoje está muito boa. Depois que a pessoa sai da hemodiálise, se renova. Praticamente nasci de novo, é muito bom. Só gratidão a minha filha, a Deus e aos médicos.
Rafael
Insistência para doar
A filha conta que desde os 15 anos queria fazer a doação ao pai e quando completou os 18 anos já estava apta legalmente para ceder um dos rins.
"Foi naquela idade que comecei a entender o tamanho do problema do pai. Ver ele passando por esse tratamento e não poder fazer nada era doloroso, mas eu tinha fé e esperança que logo teria a chance de mudar a vida dele", diz Eduarda.
O desgaste do pai comovia a jovem, que à época estudava no ensino médio. "Quando vim morar aqui, ele fazia a hemodiálise em uma clínica longe de casa, tinha de ir de ônibus. Ele saia daqui de casa perto das 14h para entrar na máquina às 16h e só chegava aqui às 20h."
Somente em 2024 ele conseguiu uma vaga no HUWC, quando passou a fazer hemodiálise perto de casa. "Mas ele chegava em casa 10h da manhã cansado, com fome. Ver ele daquele jeito era de cortar o coração. Era triste demais, porque a máquina suga a pessoa no tratamento", relata.
Quando Eduarda fez 18 anos, ela disse ao pai que queria doar. "Eu sempre ficava dizendo, mas ele com aquele receio dizia que eram os médicos que não queriam fazer; mas eu sabia que não eram os médicos, era ele", revela.
Acabou que um dia fui para consulta junto com ele em 17 de julho de 2025; conversei com a doutora, perguntei tudo, e ela me respondeu e deu segurança. A partir daí começamos o processo.
Eduarda

Como é a doação intervivos
"Para ver a compatibilidade entre a dupla doador e receptor, são avaliados o grupo sanguíneo, o teste de compatibilidade HLA [Antígeno Leucocitário Humano, que é um conjunto de proteínas presentes na superfície de células e que funciona como a 'impressão digital' do sistema imunológico] e a prova cruzada [teste entre o sangue do doador e do receptor que avalia a chance de realizar o transplante sem rejeição imediata]", lista a médica Claudia Maria Oliveira.
Além disso, o doador passa também por uma bateria de exames de saúde a fim de confirmar que ele não tem condições de saúde que impeçam a doação.
"Se aparece algum problema, como hipertensão arterial, um histórico de infecção urinária, cálculos renais de repetição ou diabetes, entre outros, a opção é não utilizar esse doador para garantir a saúde a longo prazo", explica.
A expectativa de vida de Rafael, agora, é a melhor possível para um transplantado. "O transplante é a melhor opção de tratamento renal substitutivo, desde que o paciente não apresente comorbidades graves ou contra indicações. Foi o caso dele."
Reportagem
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