Stablecoins, Nu Global e a migração do dinheiro das redes fechadas para as abertas
O Nubank acaba de lançar o Nu Global, uma conta internacional construída sobre stablecoins. Na essência, funciona como os outros produtos de stablecoin que vêm se multiplicando: Os depósitos, por exemplo, são convertidos em stablecoins de dólar ou de euro que rendem juros automaticamente. Os clientes podem gastar essas stablecoins em qualquer lugar do mundo com cartões virtuais, e também podem enviar saldos instantaneamente para dezenas de países a taxas de câmbio competitivas e sem nenhuma outra tarifa.
Já não surpreende ver um grande banco lançar um produto com stablecoins. Embora contas globais não dependam de stablecoins para funcionar, as stablecoins vêm sendo cada vez mais usadas como infraestrutura central porque os produtos construídos sobre elas, sobretudo os produtos internacionais, simplesmente tendem a funcionar melhor.
Para produtos bancários globais, "funcionar melhor" significa tarifas mais baixas, menos transações de cartão recusadas, transferências internacionais instantâneas e saldos que rendem mais juros do que os bancos costumam oferecer sobre depósitos tradicionais. Esses produtos explodiram nos últimos anos: a McKinsey estima que os gastos em cartões vinculados a stablecoins chegaram a US$ 4,5 bilhões em 2025, uma alta de 673% em relação a 2024.
Internet e intranet do dinheiro
Muitas vezes as pessoas se perguntam o que há nas stablecoins que lhes permite entregar experiências melhores do que a infraestrutura bancária tradicional. Para responder a isso, talvez ajude considerar a diferença entre a internet, a rede aberta e global que conecta praticamente tudo, e as intranets, que são redes fechadas e proprietárias.
Todos nós entendemos a utilidade da internet aberta. Ao mesmo tempo, porém, há casos de uso em que uma intranet fechada é a melhor solução, particularmente quando segurança e controle importam mais do que conectividade. Segredos de Estado não circulam na internet; ficam em intranets cujos dispositivos o governo controla um a um.
As grandes blockchains são como a internet: abertas e globais. Stablecoins são simplesmente versões digitais de dinheiro que vivem nessas blockchains. O dinheiro em uma conta bancária tradicional, em contraste, vive dentro da rede fechada de um único banco ou, na melhor das hipóteses, de uma rede fechada que conecta vários bancos entre si. O Pix é um exemplo de uma intranet enorme que conecta todos os bancos do Brasil.
Na internet, incluir um novo participante não exige permissão nem integração com os participantes já existentes. As intranets, no entanto, precisam das duas coisas, permissão e pontes sob medida, para se conectarem umas às outras. Essa diferença fundamental de infraestrutura explica em boa medida por que os produtos financeiros se degradam quando cruzam fronteiras.
Para um pagamento saltar de uma intranet para outra, alguém precisou construir aquela ponte antes, seja uma relação de banco correspondente, uma conta nostro / vostro ou um acordo bilateral. A cada salto, a transação pode ser recusada, atrasada ou reprecificada. A força da internet é que um pacote pode sair de São Paulo e chegar a Jacarta sem que ninguém jamais tenha construído um elo específico entre essa origem e esse destino.
Por que as stablecoins funcionam melhor?
O mesmo vale para as stablecoins. Os produtos de stablecoin funcionam melhor porque mitigam os sintomas das intranets interligadas por pontes. Um cartão recusado é uma intranet rejeitando um pacote que não reconhece. Uma transferência lenta é um pagamento esperando, a cada ponte, que a próxima intranet o aceite. Taxas de câmbio ruins são pedágios cobrados na travessia entre duas redes fechadas.
Empresas como o Nubank, que querem conquistar clientes entregando as melhores experiências de produto, estão descobrindo que podem se apoiar nas stablecoins, a "internet" do dinheiro, para oferecer funcionalidades como saldos em dólar que valem em dezenas de países simultaneamente.
É preciso ser justo: intranets podem funcionar excepcionalmente bem. O Pix é barato e instantâneo. É uma das redes de pagamento mais bem construídas do mundo. Mas, justamente por ser uma intranet entre bancos brasileiros, não é possível que um comerciante em Jacarta receba um Pix de seu cliente brasileiro, já que o banco indonésio do comerciante não consegue se conectar à rede do Pix. A internet não vence por ser uma rede mais bem construída do que as intranets. Ela vence por ser uma rede só, em vez de muitas.
Migração da infraestrutura financeira
Os melhores produtos financeiros, ou seja, aqueles que são mais rápidos e mais baratos, têm sido construídos com stablecoins. Estamos no início de uma migração da infraestrutura financeira de redes fechadas para a infraestrutura de redes abertas, análoga à migração que remodelou as comunicações uma geração atrás.
Até pouco tempo, o dinheiro se movia sobre intranets porque não havia alternativa aberta e global capaz de guardar valor e liquidá-lo de forma confiável. Agora que essa opção existe, adotar a rede aberta como padrão se torna uma opção clara para qualquer produto que cruze uma fronteira ou que toque qualquer outro produto que cruze uma fronteira. Em um horizonte de tempo suficientemente longo, os efeitos de rede tornam a opção pela internet do dinheiro uma escolha óbvia.
Stablecoins não são apenas mais um produto construído sobre essa nova infraestrutura. Elas são a própria infraestrutura. Tudo o que acontece onchain, seja um pagamento, uma negociação ou um empréstimo, precisa ser liquidado em algo, e é liquidado em dinheiro. As stablecoins são esse dinheiro. Elas são a camada sobre a qual todo o sistema financeiro aberto funciona, e é por isso que são menos um caso de uso do que o alicerce do qual todos os outros casos de uso dependem.
E é aqui que o trabalho que ainda temos pela frente ganha nitidez. As finanças onchain hoje são liquidadas predominantemente em dólares, porque o dólar - a moeda principal de reservas globais - chegou primeiro. Mas uma migração para redes abertas que atende a uma única moeda não abriu, de fato, as finanças para o mundo. Muitas economias, como a do Brasil, não são dolarizadas.
Para que a internet do dinheiro seja realmente global, ela precisa de boas stablecoins em toda denominação de moeda fiduciária, de modo que qualquer pessoa possa entrar na rede aberta na sua própria moeda, em vez de ter que converter para a moeda de outro país antes. O dólar foi a primeira iteração. O resto é o que vem a seguir.
*John Delaney é o cofundador e CEO da Crown
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