Andreia C. Faria: "Ler e escrever é fazer a máquina vacilar"

Há na escrita de Andreia C. Faria uma resistência à fluência do presente, marcado pela rapidez e pelo imediatismo. Na prosa ou na poesia, a autora procura a pausa e a hesitação, abrindo espaço ao debate, à reflexão interior e à busca por um enraizamento. O seu novo livro, Aposto Tudo Numa Elegância Ferida (Companhia das Letras, 2026), reúne textos escritos ao longo de vários anos, a que se junta agora um texto inédito. Entre a ficção, o registo ensaístico e a prosa poética, a premiada escritora continua a procurar aquilo que permanece oculto sob a superfície. “Não me interessa dar a ver aquilo que já é visível”, diz em entrevista ao Observador. “Interessa-me acercar-me do que está latente por trás do visível.”
A escrita deve, por isso, recusar também a ideia de eficácia, defendendo uma literatura que permite o desacerto. E se ler e escrever equivale a tempo, esse tempo é também uma forma de resistência: “Só o facto de perder tempo a ler e a escrever já é uma forma de resistir, de fazer a máquina vacilar”. É a partir dessa fenda que Andreia C. Faria pensa a beleza, a vulnerabilidade, os animais, a violência do mundo contemporâneo e o espaço para a subversão. Num tempo novamente marcado pela violência, a autora dá-nos uma escrita que não procura deliberadamente a provocação, mas que, ao contrariar o lugar-comum, abre novas possibilidades.
Este é um livro difícil de resumir, constrói-se na relação entre histórias, imagens e vozes muito diferentes. Como é que se relaciona com esta constelação de textos? Há uma lógica que só se tornou visível depois de olhar para este arco temporal de escrita?
Este livro nasce, em primeiro lugar, de uma ausência. Alguns destes livros estiveram indisponíveis durante muito tempo e por isso nasceu em mim a vontade de os reeditar. São livros de que gosto particularmente, até por terem passado um pouco mais despercebidos e achei importante resgatá-los. Neste caso acaba por ser um livro com textos muito diferentes. Alguns mais próximos do conto, outros da novela, do ensaio ou do poema em prosa. Há toda uma diversidade na forma que assumem. Ao reler sobretudo o Clavicórdio – o mais antigo, de 2020 –, reencontrei um livro de que sempre gostei, um segredo que considerava bem escondido. Já não existia fisicamente, mas guardava a sua ideia. Revisitá-lo fez-me perceber que havia ali uma continuidade, não tanto de temas, mas de pequenas obsessões, de imagens e figuras recorrentes.
Não há, portanto, antagonismo com nenhum destes textos, como tantas vezes acontece?
É sempre um exercício doloroso, e até de alguma estranheza, voltar àquilo que se escreveu, sobretudo às coisas mais antigas. É quase como regressar a um corpo estranho que já se separou de nós há algum tempo, que ganhou uma vida própria e que já foi apropriado pelos leitores. Já tive reações e retornos em relação ao Clavicórdio e ao Canto do aumento. Por isso, ou os reeditava muito próximo daquilo que eram na origem, ou então não fazia sentido.
Há uma linha de trabalho que começa em Clavicórdio e parece prolongar-se em Canto do aumento e agora neste livro. Quando olha para trás, reconhece essa continuidade?
Sim, é um trabalho de processo. Começo a escrever a partir de intuições, vou atrás dessas intuições e nunca sei exatamente o que vou escrever à partida. Não consigo escrever com um plano: é um processo que vai ganhando a sua orgânica à medida que escrevo. Mas percebi, ao juntar estes textos, que há uma dinâmica ou uma forma comum a quase todos eles. Identifico uma confluência entre uma certa narratividade, um registo um bocadinho mais ensaístico e a própria poesia. Acho que a minha prosa é muito devedora da poesia, seja nos ritmos, na cadência, na forma de trabalhar as imagens e até na própria separação e fragmentação dos textos.
▲ Título: "Aposto Tudo numa Elegância Ferida" | Autora: "Andreia C. Faria | Editora: Companhia das Letras | Páginas: 200
Parece-me correto dizer que há na sua escrita, mesmo na poesia, uma inclinação natural para a prosa. O que procura quando entra nesse registo?
Acho que não há uma descontinuidade entre a minha poesia – no sentido do verso, mas também dos poemas em prosa que explorei no Canina – e a prosa. Não há propriamente um corte. O que talvez aconteça é que os meus poemas tendem a ser mais curtos e densos, com um final que funciona quase como um golpe: não para fechar o poema, mas para o reabrir a múltiplas leituras, pelo menos gosto de pensar que sim criando uma espécie de circularidade e de completude. Há poetas que conseguem, no próprio espaço do poema em verso, introduzir uma maior narratividade ou uma escrita mais especulativa, próxima do ensaio. Para fazer isso, preciso da prosa.
Podemos dizer que divide-se entre a vontade de contar histórias a de fazer uma análise mais subjetiva da realidade?
Sim. Por exemplo, no Canto do aumento, isso está muito patente e até sinto que é um dos textos que encontra mais eco nos leitores. É mais cru e assumidamente político. Os outros talvez o sejam de uma forma mais velada, sem o procurarem ser. Para responder à questão: começo por ser uma ouvinte de histórias. Gosto muito de ouvir pessoas a conversar ou a contar histórias, mas o que me interessa não é o arco mais convencional. Pode ser apenas uma forma de dizer, um detalhe que quase passa despercebido e que de repente me permite abrir uma espécie de rasgão no visível, naquilo que é o plano manifesto daquela história ou situação. Através desse rasgão, tento aceder a algo que está latente por trás do que é dito: uma imagem, pequenos fait-divers, sonhos ou somente as frases ditas por um homem no metro. Sinto que acedo a um espaço onde a minha imaginação pode trabalhar, um território por explorar que não torno inteiramente visível, mas do qual me acerco.
Sendo uma escrita muito visual, não há nenhum texto onde o som não esteja presente. Mais do que o som, a própria música – desde logo pelos títulos, como Clavicórdio ou Canto do aumento, mas também na convocação dos animais. Quando fala desse “rasgão”, a musicalidade e a dimensão sonora das coisas estão muito presentes nesta escrita?
Não tinha pensado muito na musicalidade dos textos por essa via, mas faz sentido. Talvez os componha com uma música em mente: tenho para mim que os textos têm uma cadência muito marcada, uma sonoridade que os aproxima, lá está, da poesia. Por isso acho que eles não se afastam tanto da poesia como se poderia pensar num livro em prosa. A musicalidade e a forma como trabalho a frase não são assim tão diferentes da forma como trabalho o verso. Simplesmente a frase é mais elástica, tende a ser mais expansiva. Ainda assim, acho que trabalho com a mesma condensação e faço na frase um trabalho de ourives idêntico ao que faço nos versos.
Há também na sua escrita uma ideia de desfiguração, de tornar qualquer coisa menos tangível do que parece? Um exemplo é o texto Eva, quando fala de alguém a quem foi retirada uma parte do corpo.
Uso muito a ideia de transfiguração. A minha escrita tende a transfigurar os elementos a partir dos quais parte, às vezes até a deformá-los ou a levá-los a uma certa proximidade com o grotesco, como acontece, por exemplo, nesse conto. Não me interessa dar a ver aquilo que já é visível. Interessa-me o que está latente por trás do visível. E não há nada de abstrato na minha escrita. Ela procura sempre uma transfiguração do real, dar a vê-lo de uma forma que o torne poroso. Aquilo que me agrada na escrita, sobretudo pondo-a em contraponto com este mundo acelerado e obcecado com a eficácia, é que a escrita é frágil, é incerta, é lenta. É um trabalho que não dá garantias, não nos leva do ponto A ao ponto B. Não é eficaz nesse sentido. A eficácia, como escrevo a dada altura, é uma forma de estupidez. Há dias: via a imagem de Harold Fisk, que cartografou o rio Mississippi. Ele usou cores para representar os vários meandros que o rio foi tendo, ou seja, as várias curvas que foi desenhando ao longo dos tempos. O que vemos é o curso do rio e depois o fantasma das curvas anteriores, digamos assim, dos sítios por onde o rio passou. É um mapa de meandros e de possibilidades. Diria que a escrita se aproxima muito mais desse mapa de meandros e de percursos-fantasma do que de um rio que corre em linha reta até ao mar.
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