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Monday, October 5, 2026

Caso das gémeas. Os interrogatórios de Nuno Rebelo de Sousa

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E, logo nesta primeira instância, Nuno Rebelo de Sousa procurou anular o peso da ligação ao pai: “Quando dizem assim, ‘Não, ele atuou como filho do Presidente da República…’ Mentira! Eu sempre atuei como presidente da Câmara [Portuguesa de Comércio no Brasil]. Foi nessa condição que eu estava em Portugal, foi nessa condição que foi pedida a reunião com os dois empresários brasileiros e, portanto, quando dizem ‘ele já sabia que a Presidência estava a pressionar o Governo’… não tinha qualquer informação. Essa assunção que é feita no processo é totalmente errada, totalmente errónea.”

Já no segundo interrogatório, que ocorreu após a sua defesa ter juntado uma série de mensagens de WhatsApp trocadas com Lacerda Sales ao processo, o filho do ex-chefe de Estado foi mais esclarecedor sobre a forma como decorreram os contactos com o Ministério da Saúde. Nuno Rebelo de Sousa explicou como abordou Tiago Gonçalves, então chefe de gabinete de Lacerda Sales, para a marcação de uma reunião ocorrida no âmbito da sua deslocação com empresários brasileiros à WebSummit de 2019, o contacto com Carla Silva, secretária do governante, e, finalmente, as mensagens com Lacerda Sales.

Um contexto relevante: a Polícia Judiciária suspeita que Lacerda Sales apagou mensagens relevantes (prova, portanto) do seu telemóvel, precisamente porque Nuno Rebelo de Sousa entregou voluntariamente o conteúdo de uma parte do seu WhatsApp. As mensagens entre o filho de Marcelo Rebelo de Sousa e o secretário de Estado Adjunto e da Saúde não estavam no telemóvel deste último — que foi apreendido pela Judiciária e alvo de peritagem informática.

“Na altura [no primeiro interrogatório] nem me lembrava que tinha essas mensagens. Posterior a esse momento fui procurar, por indicação dos meus advogados, para ver nos meus backups se tinha mensagens trocadas com o secretário de Estado após a reunião que tivemos e só mais à frente é que consegui resgatar essas mensagens. Achámos, perante os factos, que devia ser relevante esclarecer aquela questão da marcação da consulta”, notou.

Depois de ter relembrado que, quando o caso lhe chegou ao conhecimento, começou por contactar amigos médicos para ver se alguém conhecia a médica Teresa Moreno e que não obteve resposta, Nuno Rebelo de Sousa referiu que quando voltou a receber um pedido de ajuda sobre o mesmo caso é que lhe ocorreu contactar a Presidência da República. Esse contacto ficou vertido num primeiro mail para Marcelo Rebelo de Sousa em que pergunta se “o Pai pode ajudar” e que depois é remetido pelo então Chefe de Estado para a sua Casa Civil.

A ausência de indícios e as questões formais. As razões do Ministério Público para recusar investigar Marcelo no caso das gémeas

“Foi aí que me lembrei, porque não conhecia ninguém na Secretaria de Estado ligado à saúde e, provavelmente, devo ter enviado ao Fernando [Frutuoso de Melo, chefe da Casa Civil do Presidente da República] e ao meu pai [Marcelo Rebelo de Sousa], a perguntar: ‘Será que tem alguém aí que nos consiga dar esta informação?’ Qualquer um o faria“, descreveu o economista. Posteriormente, já na esfera do Ministério da Saúde, explicou, de forma algo atabalhoada, que depois de ter dado conta da situação, não mais desempenhou qualquer papel neste caso.

“Eu nunca passei o contacto da mãe, porque nunca o tive, nunca pedi para marcar nada, até porque ela [Carla Silva, secretária de Lacerda Sales] disse que falava diretamente com a mãe das crianças. A partir daí, todo o contacto que houve — seja da Carla Silva ou de alguém da Secretaria de Estado ou dos hospitais — com a mãe foi tudo diretamente. Eu não participei em nada”, frisou.

Recorde-se que a documentação clínica enviada por Nuno Rebelo de Sousa para Belém foi remetida por Fernando Frutuoso de Melo, chefe da Casa Civil do Presidente da República, para o gabinete do primeiro-ministro, tendo como interlocutor o chefe de gabinete de António Costa. O gabinete do chefe do Governo, por seu lado, remeteu a mesma documentação para o Ministério da Saúde.

Nuno Rebelo de Sousa diz que não teve nenhuma “reunião em privado” com Lacerda Sales

Logo no primeiro interrogatório após ser constituído arguido, Nuno Rebelo de Sousa foi inequívoco: apenas esteve uma vez com António Lacerda Sales. O encontro, sustentou o economista, teve lugar nas instalações do Ministério da Saúde, em Lisboa, no dia 7 de novembro de 2019, durante a semana em que se deslocou a Portugal para participar na WebSummit — algo que disse ter feito sempre entre 2017 e 2023, quando costumava acompanhar delegações de “150 a 200” empresários brasileiros.

“Neste ano de 2019 tínhamos uma frente de atuação na área de medicina/saúde e levámos várias pessoas dessa área. Duas dessas pessoas solicitaram uma reunião junto da ministra da Saúde [Marta Temido], enviámos solicitações para estas reuniões e, já durante a semana, no dia 4 ou 5, recebi um WhatsApp do chefe de gabinete a confirmar a reunião às cinco da tarde do dia 7 de novembro. Participei eu, os dois empresários brasileiros, Naiara Porto e Marcelo Paiva (conselheiros da associação nacional de hospitais privados no Brasil), o chefe de gabinete e o próprio secretário de Estado”, contou.

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