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Saturday, November 7, 2026

Grandes sentimentos com a anti-sentimentalista Elvira Vigna

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Na primeira pessoa, no primeiro de janeiro, na primeira página, lê-se Elvira Vigna (1947-2017) como algo novo. A autora tacteia, o leitor também – onde irão parar?

Na verdade, Vigna não é inédita em Portugal. Em 2013, a Quetzal publicou Nada a Dizer – primeira parte da chamada “Trilogia da Traição”, que continua com este Por Escrito e encerra com o título Como se estivéssemos em palimpsesto de putas, último romance da escritora carioca –, mas lê-la é ter essa sensação de uma voz nova, inesperada, mordaz, corrosiva e que diz exatamente aquilo que pensa.

Porque Elvira Vigna escreve sobre sentimentos, mas não é sentimentalista. Escolhe dramas, mas não é uma pessoa dramática. Hesita, mas não edita – ou parece não editar essas hesitações. Neste romance distinguido com o Prémio Oceanos, a sua narradora anota tudo, de forma obsessiva, e o discurso segue um pensamento cheio de parêntesis e de vírgulas, detalhes, onomatopeias e coloquialidade: “rá rá” (os risos), “ahns ahns” (na cama), “toc toc” (as botas que magoam os pés ao bateram no chão), “staralai” (as vozes incompreensíveis no aeroporto):

Então tinha, sei que tinha porque sempre tem, um alto-falante berrando staralai, tem as mulheres que correm de salto alto, eternas, indo e vindo de lugar nenhum, carregando malas de rodinhas, enormes malas de rodinhas porque elas compraram tudo, elas. Tem o cheiro de pão de queijo em todos esses aeroportos, os brasileiros, quero dizer. Tem as mesmas caras de sempre, meio cafajestes, que brotam adubadas pelos restos de pão de queijo, guardanapos usados, copos com resto de coisas pretas que caem no chão, amassados. E tem as vozes que não param nos alto-falantes. Não só o staralai incompreensível, mas uma enorme quantidade de números, de dezesseis a trinta na fila da direita. E nomes de cidades que parecem um pouco os nomes dos tipos de café, os nomes tão bonitos, Catuaí, Acaiá, Icatu, Imperatriz, Navegantes, todos esses nomes me chamando, eu sempre com muita vontade de me levantar e ir em todas as piraporas do bom jesus de mato dentro que me chamam, sereias que são, pelo alto-falante. Marabá. Como deve ser bom em Marabá.” (Por Escrito, Elvira Vigna, p.99)

Essa narradora é Valderez, uma mulher habituada a viajar e a passar tempo em aeroportos, quartos de hotéis e halls cheios de desconhecidos – sempre zonas de passagem e de anonimato –, por necessidade profissional mas sobretudo porque tenta encontrar-se (e também fugir) a si mesma. Nestas viagens ao mesmo tempo geográficas e íntimas, são revisitadas cenas do passado e são apresentadas as restantes personagens do livro: Paulo, para quem Valderez escreve e com quem tem uma relação amorosa; Pedro, o irmão de quem um dia foi próxima; Molly, originalmente Maria Olegária, a mãe abusada na fazenda Pedra do Conde, nos anos 50; Dona Isaura, uma mulher grande e gorda, de pernas grossas inchadas, com quem Molly – ainda Maria Olegária – vai viver depois de engravidar do patrão, aos 15 anos, e ter Valderez; ou ainda Aleksandra, a bailarina russa apaixonada por Pedro (que é gay); e Zizi, a ex-mulher traída de Paulo, que traz o tema do sentimento de culpa.

Título: “Por Escrito” | Autora: Elvira Vigna | Editora: Companhia das Letras | Páginas: 320

Com um humor que chega a ser cáustico, a narradora transforma os momentos mais trágicos do seu passado em cenas de filmes ou novelas, mas ao mesmo tempo que parece não esconder nada, segura o leitor na tensão permanente de não saber tudo. Às tantas, escreve: “[Pedro] Diz que devo enquadrar o passado em moldurinhas. Pôr os pedaços mais impactantes dentro de moldurinhas no meio da sala e lá deixar até que, de tanto vê-los, eu não mais os veja” (p.69) e no fundo é esse esforço que atravessa todo o livro: escrever para não esquecer e ao mesmo tempo para esquecer, para perder importância.

Há mais ironias, que a própria escritora sublinha, o olho em cima de tudo, a língua afiada. Sobre o facto de viajar sempre apenas com mala de mão, escreve: “Pelo menos em relação à bagagem, essa, a concreta, faço questão de leveza.” (p.133) Sobre as suas viagens intermináveis, o permanente movimento de alguém que afinal está preso, nota: “Na minha vida parecia ir só para trás e para dentro, por mais que tentasse ir para fora, para longe e para a frente.” (p.156) “Me afundo com grande facilidade em mim mesma.” (p.101)

Profissionalmente, Valderez escreve sobre as origens do café e entrevista os fazendeiros nas grandes quintas produtoras, mas quanto mais perto delas, mais percebe que está tudo misturado. Sente o mesmo em relação a si própria, em mais uma grande imagem do livro: “Não tem um começo. Não tive.” (p.82)

Por Escrito é um romance labiríntico sobre uma solidão irreparável mas consegue não ser um livro trágico. É muito mais inteligente do que isso. Trágica é a vida, não Vigna.

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