André Abujamra revela processo de criação da trilha de ‘Furnas Fundas’: ‘Viajei muito’

A trilha sonora de Furnas Fundas, filme que já está em cartaz nos cinemas brasileiros, nasceu de uma palavra que poderia definir boa parte da experiência de assistir ao filme: maluquice. Para André Abujamra, responsável pela música do longa, o que mais chamou sua atenção no trabalho dirigido por Beto Marquez foi justamente a “diversidade” da obra — termo que ele próprio usa para falar da mistura de ideias, tons e possibilidades presentes na produção.
“Eu recebi Furnas Fundas e o que mais me chamou a atenção do filme foi a maluquice e a diversidade”, conta Abujamra. E, diante disso, decidiu seguir pelo mesmo caminho na composição. A diferença é que encontrou algo que considera cada vez mais raro no cinema: “O Roberto, o diretor, me deu toda a liberdade do mundo, o que geralmente é muito raro na criação de uma música para cinema”, afirma.
Uma trilha que nasceu da liberdade
O processo de Abujamra para compor trilhas não segue uma fórmula fixa. Segundo o músico, ele já trabalhou em mais de 90 longas e cada filme exige uma abordagem diferente. Em Furnas Fundas, ele recebeu o filme quando este já estava relativamente pronto e aproveitou a proximidade com o diretor para desenvolver o trabalho aos poucos. “Todo filme é um espírito diferente. Nesse filme eu tive sorte de poder fazer o que eu quisesse”, explica.
Na época, Abujamra morava no Rio de Janeiro, enquanto Beto ia para a cidade nos fins de semana. Os dois passavam esse período trabalhando na trilha, em um processo que o compositor descreve com uma palavra simples: diversão.
A primeira ideia musical veio de um lugar inesperado. Abujamra estava ouvindo uma banda árabe e decidiu que não queria fazer uma trilha que soasse necessariamente brasileira, apesar de o filme ser brasileiro. A partir daí, começou a brincar com a sonoridade.
“Eu queria fazer uma música meio maluca. Aí eu coloquei as coisas ao contrário”, lembra. A ideia acabou se expandindo para uma trilha que é uma grande mistura. “Eu viajei muito nesse filme. Esse filme tem muita coisa”, resume.
Para Abujamra, essa disposição para se jogar no desconhecido é justamente uma das coisas que fazem um projeto despertar seu interesse. “O que me inspira muito é sempre eu quebrar minhas próprias pernas. Sempre inventar umas loucuras minhas”, diz.
“É como se fosse um moleque de oito anos jogando bola na rua, assim. Com a bochecha vermelha, se sujando. Eu adoro me sujar numa trilha.”
Beto queria que Abujamra “enlouquecesse”
A liberdade encontrada pelo compositor não aconteceu por acaso. Ela partiu também de uma escolha deliberada de Beto, que já conhecia o trabalho de Abujamra. “Ele é fã da minha banda Karnak”, conta o músico. “E ele chegou para mim e falou assim: ‘André, eu quero que você enlouqueça, eu quero que você faça o que você quiser’.”
Para Abujamra, esse tipo de abertura é um presente durante a criação de um filme. Ele destaca que Beto, apesar de jovem, demonstrou uma postura bastante flexível ao longo do processo. “Isso, para a gente que faz cinema, é um presente. Por isso que o filme está tão orgânico, tão bem feito e bem malucão.”
A parceria também aparece na própria estrutura musical de Furnas Fundas. A ideia de criar identidades sonoras diferentes para os grupos de personagens partiu principalmente do diretor. A referência imaginada por Beto era o compositor russo Sergei Prokofiev, conhecido, entre outras coisas, pelo uso de diferentes temas associados a personagens e grupos.
“Cada núcleo tem uma espécie de música”, explica Abujamra. Assim, os latifundiários ganharam uma sonoridade mais próxima do terror, enquanto os vampiros receberam uma abordagem mais “Bauhaus”, nas palavras do músico.
“Minha referência é a minha cabeça”
Se existe algo que Abujamra parece rejeitar no processo de criação é a ideia de receber referências muito fechadas antes de compor. Para ele, a música precisa encontrar seu próprio caminho a partir do filme, e não simplesmente reproduzir uma linguagem já existente.
“Eu faço tudo meio junto. Eu sou ator, então eu vou compondo tudo na hora. Eu vou viajando na maionese, tudo na hora mesmo”, explica.
Por isso, quando perguntado sobre referências musicais ou cinematográficas utilizadas em Furnas Fundas, ele é direto: não houve nenhuma específica. “A coisa que eu mais odeio em cinema, em longa-metragem, é quando a pessoa chega com referência para mim”, afirma.
“Você vai fazer um comercial de 30 segundos? Beleza, pega uma referência. Agora, você vai fazer uma longa-metragem de quase duas horas, duas horas e meia? Deixa o cara que vai fazer a música inventar maluquice.”
No caso de Furnas Fundas, a principal referência foi o próprio imaginário. “A referência é a minha cabeça, as minhas loucuras mesmo”, resume.
Essa postura também explica por que Abujamra diz ter identificado a personalidade da trilha praticamente desde o início. “Desde o primeiro dia. Desde a primeira cena”, afirma.
O compositor recorre então a uma comparação com o escultor Auguste Rodin para explicar seu processo. Segundo a história que relembra, Rodin dizia que a escultura já estava dentro da pedra e que seu trabalho era apenas retirar o excesso. “A música já estava dentro do filme. Só foi dar uma limpadinha que eu descobri”, diz Abujamra.
“Minha assinatura é a mistureba que eu faço“
A maneira intuitiva de trabalhar também aparece na escolha dos instrumentos. Quando perguntado com quantos instrumentos costuma trabalhar, não existe, para Abujamra, uma quantidade ideal. Pode ser um único instrumento ou uma combinação de centenas.
“Essa resposta é de dois a 300”, brinca. “Às vezes, um instrumento só para uma cena gigante pode funcionar. E às vezes, vários instrumentos para uma cena delicada também funcionam.”
“Eu misturei tudo com tudo”, afirma. É justamente nessa combinação aparentemente improvável que Abujamra identifica sua assinatura musical. “Todos os sons! A minha assinatura é essa mistureba toda que eu faço”, diz.
“Aliás, uma das coisas que eu mais gosto é quando alguém chega e fala: ‘Nossa, aí parece um Abujamra’. Isso é o maior presente que eu tenho.”
Terror, humor e uma “bateria bêbada”
Embora Furnas Fundas seja um filme de gênero, misturando terror, humor, política e fantasia, Abujamra não acredita que o gênero, por si só, determine uma maneira específica de compor. “Para mim, de novo, cada filme é um filme, cada filme é um espírito”, afirma.
Entre as experiências mais inusitadas está uma solicitação feita pelo diretor que Abujamra nunca havia recebido em outro trabalho. “Ele pediu pra fazer uma bateria bêbada. Isso nunca ninguém me pediu pra fazer. E eu consegui, viu?”, conta, rindo.
Também houve espaço para manipular a própria voz de Beto, colocada ao contrário em determinado momento da trilha.
Outra experiência particularmente arriscada aconteceu na cena envolvendo Abaddon, personagem descrito pelo compositor como “o diabão”. Abujamra conta que utilizou uma voz invertida misturada à própria performance vocal. “Eu acho aquela cena maravilhosa. Eu não vou dar spoiler, mas naquela cena eu fiz uma maluquice bem louca”, afirma.
Compor o filme inteiro, e não apenas uma cena
Abujamra também conta que não trabalha com a ideia de resolver cada sequência isoladamente. “Num filme não adianta você fazer a trilha bonita num lugar sem pensar em outros lugares”, explica. “Você só vai saber se a música funciona quando você assiste o filme inteiro.”
Por isso, ele costuma trabalhar em várias cenas simultaneamente, construindo diferentes partes da trilha e observando como elas conversam entre si. O mesmo vale para a quantidade de versões. “Eu prefiro fazer uma trilha como se fosse um personagem mesmo”, explica. “Não tem muita repetição.”
O processo exige, naturalmente, muitas horas diante das imagens. “Quem mais assiste o filme num longa-metragem é o editor e o músico. Muito mais que o diretor ou o produtor”, afirma. Isso acontece porque é preciso rever as cenas diversas vezes para encontrar o andamento, o encaixe e o momento certo de cada música.
Sobre a forma com que compõe a trilha, Abujamra explica: sozinho. “Quando eu acabo, dependendo do orçamento, dependendo de tudo, eu sempre chamo músicos muito bons pra tocar o que eu escrevi”, explica.
Para ele, essa etapa é importante justamente porque a execução transforma aquilo que foi imaginado durante a composição em uma performance musical concreta. “Isso tá ficando uma coisa um pouco rara, mas sempre que eu posso eu faço isso.”
Abujamra e a inteligência artificial
Com uma carreira marcada por misturas e experimentações, Abujamra também foi questionado sobre o avanço da inteligência artificial na música. Antes de responder, porém, faz uma ressalva sobre o próprio rótulo de experimentalista.
“Eu nunca me achei muito experimentalista. Eu sempre me achei bem pop, muito romântico, mas eu aceito que eu seja experimental porque eu faço umas coisas estranhas”, brinca.
Sobre a inteligência artificial, sua posição é de curiosidade, mas sem abandonar a preferência pelos métodos tradicionais. “Eu não tenho medo da inteligência artificial em nada”, afirma. Para ele, a tecnologia pode ser uma ferramenta para quem quiser utilizá-la.
“Ela ajuda todo mundo que quer ser ajudado”, diz. “Eu prefiro as coisas sem ser inteligência artificial, mas ela pode ajudar a gente em algumas coisas.”
Abujamra compara a transformação provocada pela tecnologia às mudanças que já aconteceram na história da música. “Os dinossauros morreram, e o mundo continua, o LP acabou e agora tá voltando”, comenta.
A única preocupação, em tom de brincadeira, seria garantir que “os robôs não matem a gente”. “Do resto, eu aproveito,” completa.
A cena favorita: quando tudo se mistura
Se a proposta de Furnas Fundas era permitir que Abujamra colocasse diferentes ideias musicais dentro do mesmo universo, sua sequência favorita parece ser justamente aquela em que essa lógica chega ao limite.
Questionado sobre que tipo de cena gosta particularmente de musicar e qual havia sido sua favorita no filme, o compositor escolheu uma briga que acontece antes de uma sequência no coreto. “Eu misturei todas as trilhas que eu fiz no filme inteiro”, conta. “Aí foi uma delícia.”
A escolha resume bem a maneira como Abujamra encara a criação da trilha de Furnas Fundas: não como uma coleção de músicas isoladas, mas como um organismo em que diferentes sons, personagens e ideias podem se encontrar.
LEIA TAMBÉM: Karnak: por dentro de um dos melhores álbuns de rock latino da história
KioskNews shows a cleaned-up reading view extracted from the publisher’s page — the original always lives on their site, not ours.