Em xeque, Trump optou por agir como cabo eleitoral em vez de sair de cena

Tradicionalmente, as eleições de meio de mandato têm uma característica plebiscitária sobre o presidente de turno, mas em 2026 essa tendência se acentuou. Atualmente, o presidente amarga as taxas mais baixas de popularidade em seus dois mandatos (em torno de 30%, a depender da pesquisa). Os números se explicam pelos seguidos estelionatos eleitorais que Trump cometeu, em menor ou maior grau, nesta segunda administração.
Ao retornar à Casa Branca há quase dois anos, Trump havia prometido baixar a inflação, se manter longe de conflitos armados em cantos do mundo que os americanos mal sabem apontar no mapa, deportar preferencialmente imigrantes irregulares com histórico criminal e abrir totalmente os processos referentes ao investidor multimilionário pedófilo Jeffrey Epstein. Cada uma dessas promessas continha valores inegociáveis para a base trumpista e Maga: o retorno ao consumo para a classe média, a segurança em espaços públicos, o uso de recursos públicos para melhorar a vida dos americanos e o elogio à moralidade e a punição às elites.
Mas no poder, as decisões de Trump contrariaram sistematicamente suas promessas. Trump se recusou várias vezes a abrir os arquivos de Epstein, seu amigo pessoal, e colocou os órgãos do governo a serviço de barrar a publicidade das informações.
Na sequência, lançou ofensivas militares diversas, a mais grave delas, em março, contra o Irã. A guerra, que ele prometera encerrar em semanas, já dura mais de 6 meses. E levou os preços dos combustíveis - e, por consequência de alimentos e outros produtos básicos - a patamares muito altos. Com isso, os juros nos EUA se mantêm altos e impedem a classe média de voltar a financiar bens como casas e carros. Enquanto o americano médio tem dificuldades de fechar as contas mensais, o próprio Trump fechou o primeiro ano do segundo mandato com uma acúmulo de renda de mais de US$2 bilhões - e elevou a preocupação dos americanos com a corrupção para patamares mais altos em duas décadas.
Aliado a isso, Trump, que tinha recebido o apoio relevante de boa parte da comunidade hispânica/latina, viu essa base ruir com as ações violentas e indiscriminadas da gestão contra imigrantes. A deportação de milhares de pessoas sem registros criminais e que viviam há décadas no país, além de crianças, gerou cenas dramáticas e corroeu a rotina de comunidades em áreas centrais para a disputa de meio de mandato, como o Texas, em que os republicanos podem perder pela primeira vez em mais de três décadas.
Diante disso, quase metade dos eleitores vê seu voto nas midterms como uma escolha contra Trump, segundo o Pew Research. Seria, portanto, de esperar que Trump se recolhesse. Mas fiel a seu estilo, ele optou pelo contrário: "votem como se eu estivesse pessoalmente na cédula", disse o presidente em dezenas de comícios. E intensificou suas atividades de campanha. Para bem ou para mal, o resultado da eleição terá as digitais de Trump.
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