ESPN DeportesQué retos enfrentan Giannis y el Heat en la nueva temporadaESPNChampions League talking points: What to make of the Man United messThe Jerusalem Post'Sheep in the Box': A pointless, sweet story of grief, robots - reviewInquirer9 hurt after fire breaks out during Buglasan Festival in Dumaguete한겨레김민석, 유시민에 “금도 지키며 비판했으면 좋겠다”매일경제헤지가 이렇게 중요합니다…석달새 수익률 10% 운명 갈린 해외ETFUOLPichações expõem tensão em colégio cívico-militar do PR após caso de câmera em banheiroZDF heuteEntdecken Sie das ZDF-NachrichtenstudioRapplerDFA to China embassy: Escalatory, undiplomatic posts not helping bilateral ties경향신문이주배경 고교생 4년 새 2배 늘었는데···8개 시·도 한국어학급 ‘0’Daily MailShocking TV show exposes how Brits failed to speak up when shown around a care home... run to NAZI idealsObservador DesportoAs notícias das 2h
The Daily Newsstand · Free, Always
Thursday, October 22, 2026

À falta de votos, a rua

Translate

No preciso dia em que, de acordo com o comunicado do governo francês, a “mobilização da extrema-esquerda e da extrema-esquerda radical”, com o concurso de alguns “delinquentes de oportunidade”, resultava numa das mais violentas jornadas político-sociais da História da França e da Europa contemporâneas, cronicava, oportunamente, um filósofo local num dos nossos jornais de referência:

“Mais do que a liquidação progressiva – já de si criminosa – das liberdades e dos direitos das democracias liberais, é a violência que marca a extrema-direita como anunciadora de futuros fascismos.”

Dir-me-ão que o tempo e o modo da filosofia são outros, mas o que dizer do tempo e do modo do nosso jornalismo, que, nesse mesmo Sábado, 17 de Outubro, traduzia expressamente a comunicação do primeiro-ministro Sébastien Lecornu, “Aujourd’hui, des groupes d’ultra-gauche ont organizé la violence dans plusieurs villes de France”, por “Hoje, grupos de extrema-direita…” ? Valerá a pena apresentar queixa à ERC, tão rápida a aplicar sanções financeiras a quem ousa confundir cruamente “interrupção voluntária da gravidez” ou “saúde reprodutiva” com “aborto” e insiste em publicitá-lo? Talvez não.

O que é facto é que, em França, cerca de meio milhão de manifestantes de Esquerda, dos quais 100.000 em Paris – quem sabe, movidos pelo “fascínio pela violência” da Direita,  evocado pelo luso filósofo, num daqueles comportamentos miméticos à René Girard –, parecem ter resolvido equivocar-se.  Como? Traindo a índole da Esquerda e cumprindo a sonhada e profusamente antecipada “ameaça violenta da Extrema-direita”. Agressões a polícias, queima de edifícios públicos, saque de grandes armazéns e de pequenas e médias lojas, não faltou nada. Que a violência não está na índole nem na tradição da Esquerda, até a Inteligência Artificial portuguesa e os seus programas de tradução automática o sabem; ou não teriam sido induzidos a cometer o acto falhado de traduzir “Extrema-esquerda” por “Extrema-direita”.

De qualquer forma, segundo o ministro do Interior francês, cerca de 2.400 detenções, perto de mil polícias e gendarmes feridos (sete com gravidade), cerca de 1.500 lojas vandalizadas e centenas de milhões de Euros de prejuízo foi, só no Sábado, o saldo das manifestações contra o custo de vida, a educação e a habitação. Tudo isto entre foices e martelos e dizeres anarquistas, com a extrema-esquerda, que ainda não percebeu que a emergência voltou a ser “social”, a insistir no keffiyeh, sempre útil numa guerra santa e nesta em particular, e a pontuar o vermelho mais em voga com as semi-depostas cores do arco-íris. Greta Thunberg também canalizou a sua proverbial indignação para o “protesto estudantil”, que agraciou com a sua miraculosa presença para um toque nostálgico de emergência climática.

“Qu’elle brule en entier!”

Em Limoges, umas centenas de manifestantes largaram fogo ao edifício da Câmara Municipal, um edifício do último quartel do século XIX, registado entre os monumentos nacionais de França. Havia funcionários municipais dentro, que conseguiram escapar pelas traseiras. Quando os bombeiros chegaram, uns 300 ou 400 manifestantes agrediram-nos berrando: “Vous ne passez, on s’en fout qu’elle brûle en entier!” O fogo propagou-se a todo o edifício e cerca das oito da noite de sábado o histórico campanário de 43 metros de altura ruiu, causando emoções contraditórias entre os manifestantes – uns, mais consternados; outros a rir e a aplaudir.

O princípio e os fins

Tudo começou por um carnet de doléances dos alunos liceais que, à partida, tinha alguma razoabilidade: a 18 de Setembro, em Créteil, Val-de-Marne, os alunos bloquearam o liceu, pedindo “igualdade de oportunidades” com os estabelecimentos de ensino equivalentes do XVIème Arrondissement de Paris, o bairro mais chique da capital. Houve conversas mais ou menos civilizadas dos representantes dos alunos com o reitor.

Mas eis que dois deputados de La France Insoumisse, Clemence Guetté e Louis Boyard (o mesmo Boyard que, em 2023, proclamara o “Blocus Challenge” e afirmara “Il faut crier un panique générale”, um belo programa para que “os amanhãs que cantassem”), resolveram aproveitar a boleia dos miúdos.

E os amanhãs cantaram. As imagens de Créteil seguiram pelas redes sociais e Jean-Luc Mélenchon apelou aos pais e aos “militantes insubmissos” para responderem à “selvajaria policial”.

Decisivo para a escalada, foi o “Maire” de Saint-Denis, Bally Bagayoko, francês de raízes malianas e dirigente do La France Insoumise, que, talvez para evitar a “selvajaria policial”, se interpôs entre os estudantes e a Polícia. E o próprio chefe do partido, Mélenchon, desfilou em Paris à frente da Manif.

A ideia era desafiar o pot-pourri das famílias esquerdistas de França a enfrentar o Estado burguês na rua, fazendo uma revisão ideológica e voltando às causas sociais, para competir com a direita lepenista. Tal como Sanders e Mandani ensaiavam nos Estados Unidos, deviam calar-se estrategicamente as novas causas do wokismo e voltar à linha dura marxista-leninista, declaradamente vermelha e violentamente insubmissa.

Assim, contrariamente aos fantasmas agitados, era afinal a Extrema-Esquerda europeia – com a francesa à frente – que, perante os progressos da direita nacionalista e popular nas urnas, preparava uma resposta violenta.

Lembre-se que as sondagens dão Marine Le Pen largamente à frente na primeira volta, com 32 ou 33%, ficando o esquerdista radical Mélennchon, o social-democrata Gluksman e o centro-direitista Édouard Philippe a par, nos 15 ou 16%. A estratégia da Extrema-Esquerda é, assim, radicalizar, trazer o medo da rua, para que o seu candidato passe à final com Le Pen, tentando depois ressuscitar a maioria antifascista que elegeu e reelegeu Macron em 2017 e 2022.

Não deve funcionar, mas se não funcionar, os insubmissos, sempre contando com a ternura da generalidade dos media e com a “união antifascista”, preparam a revolução nas ruas, com incêndios, pilhagens, terror, para “parar a ultradireita”. O 17 de Outubro terá sido como que um ensaio geral.

E por cá?

Por cá traduzimos e traduzimos mal. Neste caso, felizmente, quanto à violência.  Não era o Eça que dizia que Portugal era “um país traduzido do francês, em calão”?  Nos nossos campos de férias, que não estão isentos de risco de escalada, há candidatos a vítimas que esperam ansiosamente que a Polícia entre no jogo para a photo-opportunity, fazendo cordão atrás de enternecedores cartazes com nostálgicas palavras de ordem como: “Contra o Estado, contra o Capital: Guerra Social.”

Todos sabemos que o problema da habitação é real, mas também todos sabemos, ou devíamos saber, no que dão as boas intenções manobradas pelos líderes evocados pelos manifestantes e as sociedades que daí resultaram. Lenine é um dos mais citados nas nossas “acampadas”, onde, à falta dos votos de hoje, se cantam “amanhãs de ontem” – Grândolas, Bella Ciaos, vinte e cincos de Abril sempre e fascismos nunca mais.

View the original on Observador Desporto →

KioskNews shows a cleaned-up reading view extracted from the publisher’s page — the original always lives on their site, not ours.