"Morreram todos os polícias do meu comando"
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Agora tens mais um convidado, um xerife, Judite.
Precisamente, o xerife Armando Fontoura, que está aqui connosco neste café e que tem uma história de vida absolutamente incrível. Cinquenta e sete anos na polícia, durante 34 anos foi xerife e veio para cá em 1955, com 12 anos. E por isso, já me avisou que o português não está totalmente fluente.
Vamos dar uma ajuda.
Vamos dar uma ajuda, obviamente. Armando Fontoura, esteve no dia 11 de setembro, estava aqui deste lado. Entretanto, chegou mais um português aqui ao café. Estava aqui deste lado quando se apercebeu do que aconteceu. Estava mesmo a chegar ao seu gabinete.
Sim, estava a chegar ao gabinete e estava a sair do carro e o agente que guiava meu carro disse: "Boss, está no rádio que um avião encontrou-se com o World Trade Center." O primeiro pensamento que eu tive foi: deve ser um avião daqueles pequeninos, só com um piloto. Deve ser assim, não pode ser um avião grande. Cheguei ao terceiro andar do nosso gabinete, podemos ver o World Trade Center de lá. Olhei e vi fumo. Ai, Jesus. Ai, Jesus Senhor. O que está a passar-se aqui?
Percebeu logo que não se tratava de um acidente?
Nós somos first responders, os primeiros respondentes. O povo tem esperança que nós vamos lá e estamos preparados pro que se passa. Só não estávamos em Nova Iorque, mas estamos aqui e também o povo aqui ficava todo com medo. Estava tudo em choque. Temos que arranjar um plano para assumir o que se passa aqui com essas pessoas, o que se passa aqui conosco. Temos que mostrar que nós estamos preparados para tudo o que pode acontecer, nós estamos preparados para aquilo. Arranjei um plano com o meu quadro, os juízes todos, fiz um junto com eles, com o county executor, e arranjamos um plano para tomar. Quando o outro avião veio confirmou que estamos em ataque. Isto é um ataque, não é mais nada. Só preparámos e todo o resto do dia ficamos a reparar. Sabe, gente que vinha de lá, que trabalhava naquela área, cheio de cinza e fumo, e muitos viviam em New Jersey, vieram indo para Hoboken, Jersey City ou Newark, a estação dos comboios, que é aqui dois quarteirões de onde nós estamos.
Sim, aqui muito perto, Penn Station.
Pusemos lá uma decontamination tent, para gente que queria limpar, lavar um bocadinho.
Quando chegavam então passavam por essa tenda para tirar a cinza?
Uma unidade de descontaminação. E em choque. E também tínhamos lá carros e comboios para oferecer, os que quiserem, levá-los à casa. Em South Orange. South Orange é uma cidade aqui mais alta, também tem um comboio, os comboios param lá, também temos a mesma coisa.
E, portanto, iam buscar as pessoas que conseguiam chegar aqui e levavam-nas a casa.
Exatamente. E depois também fomos lá, onde temos o nosso memorial aqui, o Essex County Memorial, que temos lá hoje. Tudo estava lá. É uma área que é muito alta e talvez tenha a melhor visão do downtown Manhattan, do lado nenhum. Eu e o county executor fomos lá e estava lá duas, três mil pessoas. Deixaram os carros aqui, estavam lá tudo. Chegamos lá e eu disse: "Oh, my God. Oh, my God." Mas estava tudo muito silencioso. Ninguém dizia nada, ninguém falava, ninguém olhava. Choravam alguns, mas estava aquilo tudo em choque.
O que é que viam daqui? Viam chamas? Viam fumo?
Vimos tudo. Viam arder, a gente cair de cima para baixo.
Cair dos prédios.
Exatamente. E depois também, quando isso aconteceu, o diretor de polícia em Nova Iorque, Bernie Kerik, era um amigo meu, mas as towers de telefone estavam quase todas mortas, mas alguns trabalhavam. Ele disse: "Olha, não precisamos aqui. Nova Iorque temos 40 mil polícias, isso é uma área pequena. Não precisamos aqui de polícias, o que precisamos talvez é dos cães, canine, os cães cadáver dogs e também os cães de bombas, porque havia lá uma bomba, não sabíamos. Mandamos isso e vinham polícias, vinham bombeiros de Califórnia, vinha de Texas, vinha de Maryland, all over the world, Virginia, para aqui. Mas o carriage não pode entrar, a cidade fica...
Não se conseguia passar.
Tem que deixar pra li. Só fizemos com o State Police aqui também no estádio, MetLife Stadium, fizemos lá um triagem. Aqui estamos a 11 km de Nova Iorque, mas tenho que parar aqui. I'm sorry.
Como é que viveram as horas seguintes? A incerteza disto tudo. O que pensaram que ia acontecer depois disto?
Todo o mundo queria ir ajudar, mas não se podia ajudar nada. Depois os nossos cães foram para lá e cá estavam umas quantas pessoas. Cheguei a casa, talvez lá pelas três ou quatro horas da manhã, cheguei a casa e a minha esposa disse: "Olhe, uma das pessoas que morreu foi o rapaz que vivia na casa pegada à nossa, o Jean Salomon. A mãe dele, temos que a chamar, temos que a fazer vir lá visitar. Olhe, ele morreu." Era casado há dois anos. Eu fui ao casamento dele. E depois a mãe, realmente, iam encontrar-se, chamaram, mas nunca se encontraram. Encontraram-lhe uma chain que ele trazia, mas depois ainda tinha que viver com isso. Falei com ela, dei-lhe um abraço, o que has fazer, mais nada.
Conheceu muitas famílias portuguesas que perderam, pelo menos há nove vítimas, não é? Nove vítimas portuguesas, mais talvez, porque depois durante os anos há muitas pessoas que tiveram problemas de saúde exatamente por terem sido os primeiros socorristas no ground zero naquele dia. Naquele dia e nos dias seguintes, nos dias em que estiveram a ajudar em operações de resgate. A comunidade portuguesa sofreu muito também com o 11 de setembro.
Pois, os portugueses sofreram como sofreu o mundo inteiro. O que me lembro dos dias depois, disso mais, é que a América estava unida. Não havia portugueses, não havia espanhóis, não havia chineses, não havia judeus, era só americanos. Tudo um abraço muito grande. Hoje, infelizmente, é o contrário. A coisa melhor que aconteceu foi isso. A coisa boa foi isso, estarmos unidos como nunca estivemos na minha vida, nem antes, nem nunca vai acontecer outra vez. E continuamos, os que perdemos. No Port Authority Police Officers, foram 37 que morreram.
37 colegas seus.
Polícias como eu. Cinco, seis trabalhavam quando eu estava no Newark Police Department, como capitão. Tinha lá seis rapazes, homens que trabalhavam para mim. Eu fui o supervisor deles. Eles morreram, todos os seis. O diretor de polícia do Port Authority era novo, era do State Police, era muito meu amigo. Estava no 110º floor a almoçar e morreu também. Gente que conhecíamos, mas foi muito sofrido naqueles dias depois.
Hoje vai estar aqui no memorial em New York, aquele memorial que vai ser feito pelo vereador Michael Silva, ou já fez a sua cerimónia hoje?
O Michael Silva esteve comigo hoje lá no nosso, no 9/11, com o governador e com ele. Gente da nossa área que perdemos aqui o jardim, os meninos dos luso-americanos. Gente conhecida, todos conhecidos, é como família. A nossa comunidade tem muita amizade com todos. Somos família, não há estrangeiros aqui.
Nota-se. Eu tenho visto isso aqui com a comunidade que vem aqui chegando ao café e que se encontra aqui e vê-se essa união entre os portugueses e os luso-americanos. É importante celebrar todos os anos o 11 de setembro?
É muito importante. Temos, pois, falamos lá que estão crianças que não sabem.
Não sabem o que foi.
O que aconteceu. Nas escolas temos que lembrar e nunca vamos esquecer isto. Se esquecermos, pode acontecer outra vez.
Tem medo que aconteça outra vez?
That's right.
Tem medo que aconteça outra vez?
Não. Tenho.
Tem?
Tenho. Sempre tenho medo disso, mas olha lá que também tenho no coração que penso que nós estamos mais preparados para isso e que não vai acontecer outra vez. Não há mais surpresas. Aquilo trocou tudo.
Acha que estão mais preparados agora por causa das medidas de segurança?
Exatamente. E temos que estar. Isso nunca podemos cerrar os olhos e vamos dormir. Não, senhor. Estamos preparados e estamos sempre vigilantes pelo que se passa.
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