Fernando Aramburu: “Passei 26 anos entre terrorismo e morte"

A primeira coisa que escreveu no computador, ao criar um novo documento, foi Maite. Logo a seguir, Página 1. Fernando Aramburu soube desde logo que o nome, diminutivo de Maria Teresa, mas também sinónimo de “amor”, seria a identidade da sua mais recente protagonista e igualmente de todo o novo livro.
Maite (publicado em Portugal pela D. Quixote) faz parte da série Gentes Bascas, obras que se debruçam sobre pessoas banais, cujas vidas são impactadas pelo terrorismo da ETA, organização separatista basca ativa entre 1959 e 2018. Desta vez, a narrativa centra-se em três mulheres (a protagonista, a irmã e a mãe) e desenrola-se entre os dias 10 e 13 de julho de 1997, período em que um jovem vereador do Partido Popular, Miguel Ángel Blanco, foi sequestrado e assassinado.
Há muito que o autor queria escrever sobre este episódio traumático e consegue, mais uma vez — tal como fez em Pátria ou Filhos da Fábula —, tocar num tema sensível com cuidado e respeito, colocando nas mãos de personagens cheias de defeitos, mas profundamente humanas, a condução desta história.
De passagem por Lisboa, Fernando Aramburu falou-nos do novo livro, do processo de deixar a marinar as obras durante um ou dois anos antes da publicação e abordou o motivo pelo qual as suas histórias regressam sempre ao ponto de partida: o País Basco. Foi lá que nasceu em 1959 [em plena ditadura franquista, que dominou Espanha entre 1936 e 1975] e, apesar de ter ido viver para a Alemanha “por amor” em 1985, nunca conseguiu cortar o cordão umbilical — nem quer.
▲ Título: "Maite" | Autor: Fernando Aramburu | Tradução: J. Teixeira de Aguilar | Editora: D. Quixote | Páginas: 272
Maite é o quinto livro da série Gentes Bascas [sobre cidadãos comuns, coincidindo com um acontecimento histórico] e aborda um dos episódios mais atrozes da ETA, o sequestro e assassinato de Miguel Ángel Blanco [jovem vereador do Partido Popular, morto com dois tiros na cabeça em 1997]. Há muito que queria escrever sobre ele?
Há muito tempo. Sabia que, mais cedo ou mais tarde, acabaria por aparecer na série, porque foi muito significativo na altura. As pessoas falam de um antes e um depois deste acontecimento cruel. Teria sido muito estranho se, no caso de ter continuado a série, ele não aparecesse em algum momento.
Maite foi a primeira personagem a surgir-lhe na cabeça? Nem sempre é o protagonista o ponto de partida.
Neste caso, sim, porque já tinha escrito vários romances em que trabalhava na estrutura, em algumas experiências linguísticas, e este caminho pareceu-me familiar. Desta vez, queria concentrar os meus esforços na criação da personagem feminina mais complexa possível. Assim, já tinha o nome desde o início e o desejo de centrar toda a história nela, em Maite. Como personagem, mas também como perspetiva, porque tudo é contado através dela, do ponto de vista dela.
Quando tem como personagem principal uma mulher é mais difícil escrever?
Não, porque esse ponto de vista não existe, é uma ilusão narrativa. O leitor precisa de acreditar nisso, mas não trabalho com pessoas, trabalho com palavras.
Mas questiona-se se uma mulher falaria ou pensaria de certa forma. Recorre à sua mulher ou a alguém para tirar dúvidas?
Tenho sempre dúvidas — também as tenho quando escrevo do ponto de vista de um homem. Por vezes não tenho a certeza se o que vou escrever está bem concebido, nessas alturas pergunto à minha mulher, que me oferece a experiência pessoal e a sensibilidade dela.
Li que a personagem foi inspirada numa atriz italiana, mas exatamente o quê? As feições, a voz, os maneirismos?
É um ritual pessoal. O romance surgiu enquanto via filmes italianos do século XX, principalmente [Federico] Fellini e [Michelangelo] Antonioni, filmes como A Doce Vida (1960), A Noite (1961) ou O Eclipse (1962), que são filmes sem enredo. São filmes sobre a convivência, juntam homens e mulheres no mesmo lugar e essa é a história: o que fazem, sobre o que conversam, o que é contado. Era essencialmente isso que queria transmitir no meu romance. Tratava-se de juntar três mulheres sem a presença dos homens e era só isso, pareceu-me suficiente. E depois, enquanto trabalhava, dei à Maite o rosto da Monica Vitti — mas essa é uma ideia minha, se não o disser, ninguém repara, não passa para o texto.
Ter uma imagem nítida da cara da personagem ajuda-o?
Sim, ajuda a evitar que a personagem se desvaneça, que me escape por entre os dedos. Porém, os leitores imaginam as suas personagens, nas suas mentes. É por isso que o rosto da mulher não aparece na capa do livro em Espanha e em Portugal — para evitar predeterminar a aparência da personagem na mente do leitor.
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