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Sunday, October 18, 2026

Luto: E Se Isto Nunca Mais Passar?

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Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Perdi uma parte de mim. É mesmo verdade, porque aquela pessoa não está ali só na tua casa, aquela pessoa está na tua vida, a tua vida é o teu cérebro, o teu cérebro tem aquela pessoa lá gravada. Há estudos que mostram que, por exemplo, após o falecimento de um cônjuge, nos meses seguintes, o risco de AVC ou de enfarte em quem ficou é mais elevado.

Eu deixei de conseguir dizer aquela coisa às pessoas de: "Tudo passa".

Já porque é mentira.

Porque a minha convicção é que não vai passar.

Estava muito bem, estava em piloto automático. Quando lhe cair a ficha, deixa de estar bem. E é importante que se perceba que é suposto ficar mal e que é suposto sofrer bastante. Porque muitas vezes o que acontece como estratégia de luto é: "Então pronto, eu agora vou me agarrar ao trabalho e nem penso naquela pessoa que morreu". Mas isso vai cair em cima um tempo mais tarde. Há certos lutos quase que a sociedade impede as pessoas de fazer.

Eu não quero ultrapassar, eu não quero deixar de sentir esta dor, quase como se a dor fosse a prova provada do amor.

Certo, que é o medo que as pessoas têm. Será que eu me vou esquecer da cara dele? Será que eu me vou esquecer do quanto gostava dele? Isso não existe, porque está lá a memória.

Por isso é que se diz que o pior luto é perder um filho.

Claro.

Costuma-se dizer que só há uma coisa certa na vida, que é que vamos todos morrer. E ainda assim, quando essa coisa certa acontece, nós não sabemos lidar com isso. Por que perder alguém é uma das experiências mais difíceis para qualquer ser humano?

Sim, é verdade que perder alguém é das experiências mais difíceis que se pode ter, mas depende muito das características de quem perde, das características de quem é perdido e das características da relação entre essas duas pessoas. Porque, na verdade, o luto está intimamente relacionado com o grau de vinculação que se tem com a pessoa que se perdeu. Isto para explicar um bocadinho, no fundo, as bases de porque o luto é um processo tão doloroso. O luto considera-se um processo psicológico e fisiológico, biológico, de adaptação a uma perda. Já agora, a perda não tem que ser necessariamente de uma pessoa, pode ser de uma circunstância, pode ser uma perda muito significativa para a minha vida, uma fase da vida que eu perdi, um emprego, alguma coisa. Depois podemos falar um pouquinho melhor sobre isso. Mas claro que o luto de uma pessoa querida é o luto mais intenso que se tem. E isso acontece porque a vinculação que se tem à pessoa faz com que a sua perda seja altamente indesejável e altamente dolorosa. Ela é dolorosa por vários motivos. Primeiro, porque a vinculação implica uma ligação biológica muito forte que também remonta ao tempo da evolução da espécie humana, que, como sabes, é uma coisa que eu gosto muito de falar, porque nós, como espécie, somos uma espécie que precisamos muito uns dos outros para sobreviver. Eu até te vou dar um exemplo: uma tartaruga quando nasce no oceano, nunca mais vê os pais. Um cavalo que nasce, poucas horas depois está a galopar. Um bebê quando nasce é completamente indefeso e depende muito da mãe. Isto para te explicar que a espécie humana é uma espécie em que a vinculação, como processo biológico e psicológico, é particularmente importante para a sobrevivência. E portanto, o nosso cérebro humano está muito programado para que nós nos vinculemos a outras pessoas. Outras pessoas que nos ajudem a sobreviver, vamos dizer assim, quando somos pequeninos, mas depois isto torna-se transversal às nossas relações em geral.

Então se esse vínculo for muito forte, por isso é que depende do tipo de relação, o luto pode ser mais difícil.

Sim, ou seja, o luto, aliás, na verdade, quando alguém morre que não te é relacionado de todo, em princípio, tu não vais ter um processo de luto em relação àquela pessoa, porque tu não tinhas vínculo de todo. Quanto mais forte é o vínculo, maior a probabilidade de acontecer um processo de luto detetável, percetível. E tem a ver precisamente com isto, com o fato de que quando tu estás vinculado a alguém do ponto de vista emocional, e um filho para uma mãe ou um pai para um filho é muito intenso, mas a vinculação pode ser obviamente para um marido, para uma mulher, para um grande amigo. São tudo relações de confiança, que são relações próximas e que têm a mesma característica comum, que é: dão segurança, é um lugar seguro, um lugar emocional, uma pessoa segura a quem eu posso recorrer para me ajudar a regular as emoções, para me ajudar a acalmar a minha ansiedade, para me ajudar a resolver problemas. Quanto mais prolongada é esta relação, mais íntimo é o grau de vinculação, mais isto faz parte da tua identidade, ou seja, é como se, e não é como se, é mesmo verdade. As relações muito íntimas, muito próximas, de grande vinculação, fazem parte da tua identidade, porque o teu cérebro vai se adaptando ao longo de anos a agir, atuar, planear o teu próprio comportamento, também em função da resposta que vais ter ou daquilo que precisas de fazer em relação à tua regulação.

Quem eu sou também depende dessas pessoas?

Sem dúvida. Aliás, todos nós dependemos das nossas relações de vinculação para sermos quem somos. Claro que, por exemplo, a vinculação materna, paterna, do cuidador principal na infância, molda radicalmente aquilo que tu és e a forma como te relacionas com os outros. Até sabes, certamente, e fala-se muito sobre isso, sobre os tipos de vinculação. Há uma vinculação que é uma vinculação segura, em que uma criança sabe que vai ter ali um porto seguro e, portanto, pode explorar o mundo, pode brincar e as coisas vão se resolver depois quando houver perigos, pode voltar. E vinculações, por exemplo, inseguras ou ansiosas, em que a pessoa não se sente tão segura, sente que o mundo é ameaçador e não tem propriamente respostas para essa ameaça. Porque repara, quando a pessoa é muito pequenina, toda a regulação emocional é feita através das figuras de vinculação. E a ideia é tu ires crescendo, ires te independentizando, mas tens sempre aquela figura dentro de ti. E depois, ao longo da vida, vais criando novos vínculos. Por isso é que depois as pessoas afastam-se um pouco dos pais e juntam-se aos namorados e às namoradas, aos amigos. Portanto, as figuras de vinculação vão se transmutando ao longo da vida, mas são sempre necessárias para tu te regular emocionalmente. São portos de abrigo, são figuras de segurança que fazem parte do teu dia a dia. E o que acontece quando tu perdes essa pessoa? O teu cérebro, que estava plenamente programado ao longo de anos a contar com aquela pessoa quando tu estavas ansiosa, quando tu estavas nervosa, deixa de o ter. E mais que isso, quando tu tens uma pessoa que faz parte da tua vida, o teu cérebro vai se reprogramando em função daquela pessoa. Por exemplo, um marido. O marido chega à casa todos os dias àquela hora, ou tu sabes que vai pôr a chave à porta a qualquer momento e tu prevês que ele vai chegar. Ou acontece uma coisa boa no teu dia e tu mandas uma mensagem porque sabes que vais ter um reforço: "Ok, que espetáculo, ainda bem que isso te aconteceu". O cérebro é programado para estimular isto, para manter esta vinculação cada vez mais forte, até porque ela é boa para a tua sobrevivência e para a tua regulação emocional. Quando tu perdes, o teu cérebro vai continuar a prever que a pessoa vai pôr a chave à porta. Vai continuar a prever que quando tu estás feliz, queres mandar uma mensagem. Portanto, automaticamente, o teu cérebro continua à procura da pessoa ou está à espera que a pessoa venha, ou que chegue, ou que ligue, ou que aquele momento da semana em que se encontravam aconteça. E quando isso não acontece, no cérebro há obviamente um desfasamento entre a previsão que o cérebro fez, isto é um fenómeno dopaminérgico, a previsão que o cérebro fez e a experiência sensorial em que a pessoa não veio. E essa queda está relacionada com a dopamina, não só dá uma emoção negativa, um sentimento de vazio, um sentimento de isto não aconteceu, mas ao mesmo tempo também sinaliza ao cérebro que é preciso começar a modificar a relação com aquela pessoa, porque a pessoa fisicamente já não existe, embora dentro de nós ela continue a existir.

Estavas a falar de perder um filho, perder o marido, perder o pai, perder a mãe. Há lutos que são mais difíceis do que outros?

Sim, sem dúvida. Há lutos muito mais difíceis do que outros. Todos os lutos, como eu disse, são potencialmente difíceis. E repara que o tipo de relação que está estabelecida entre as duas pessoas é fundamental para determinar se o luto é fácil ou difícil. Eu não gosto muito de usar essa expressão fácil ou difícil, mas é mais prolongado, menos prolongado, mais fácil de gerir ou não. E o tipo de vinculação é um dos fatores. Há vários fatores, mas o tipo de vinculação é um deles. Uma vinculação muito forte é, obviamente, um fator determinante para um luto um pouco mais difícil de fazer.

Por isso é que se diz que o pior luto é perder um filho.

Claro. E perder um filho é relevante, porque é engraçado o exemplo que tu estás a dar.

Não é só uma questão de vinculação.

É uma questão de vinculação. Só que por esse princípio, tu dizias assim: "Está bem, mas o filho está vinculado com a mãe, a mãe está vinculada com o filho. Se a mãe morre, o filho também sofre tanto." Mas não é verdade. Porque a relação de vinculação é bidirecional, mas não é simétrica. Ou seja, um pai está programado para proteger o filho, porque o filho é quem é indefeso quando nasce. Portanto, uma relação de um pai ou de uma mãe com o filho é de proteção. É quase de: a vida dele vale o mesmo que a minha ou mais até. Muitas vezes eu punha-me à frente de um carro para proteger o meu filho. Eu morria para que o meu filho ficasse salvo. Isto é uma coisa que os cérebros dos pais têm e que os cérebros dos filhos não têm, porque os cérebros dos filhos são muito vinculados, porque obtêm a regulação, mas não têm este grau de proteção. Não estão programados para proteger.

Estão na outra posição.

Isso. E por isso, na perda, é muito mais relevante e muito mais doloroso a perda de um filho. Ainda bem que deste esse exemplo, porque há outros, como eu te disse, há muitos fatores que contribuem para um luto ser mais fácil ou difícil. Outro dos fatores é ser ou não algo expectável.

Natural. A ordem natural das coisas.

Uma perda que seja numa ordem considerada natural, ou seja, uma pessoa já idosa ou que já estava doente, em que houve um tempo de preparação e tu percebeste: esta pessoa não está bem, vai morrer eventualmente, já viveu muita coisa na vida, felizmente teve uma vida cheia, vai morrer, mas foi feliz, deixou toda a gente bem orientada, etc. Portanto, tu consegues ir fazendo um luto antecipatório, uma preparação para o luto. Quando tens uma criança ou um jovem que morre, além de ser inesperado, habitualmente, é vivido como injusto, porque quando tu tens um pai que morre, há muita gente da tua idade que está a ter um pai que morre, porque é uma coisa mais ou menos normal. Um filho que morre é uma coisa completamente anormal. E, portanto, não há uma experiência coletiva. É uma coisa única, é uma coisa sentida como injusta, como contranatura. E depois, como eu te disse, do ponto de vista daquilo que o cérebro previu para aquela relação, é muito mais avassalador, porque quando morre uma pessoa de 80 anos, o que tu previas para aquela relação era limitado. É uma pessoa que vai durar mais 10 anos, mais 20 anos, na melhor das hipóteses, mas a nossa relação já foi bem estabelecida, vemos o que tínhamos que viver. Uma criança ainda vai para a faculdade, ainda vai ter um trabalho, vai casar, vai ter filhos. E o cérebro de um pai está a prever tudo isto.

Constantemente.

Constantemente, como tu sabes. Portanto, quando um filho morre, além da vinculação ser extrema e muito profunda e logo o luto ser muito difícil e doloroso, é inesperado, porque é uma idade em que não é suposto as pessoas morrerem, e corresponde à perda de uma série de coisas que foram previstas para o futuro e que são perdidas. E, portanto, o luto é naturalmente muito mais difícil de fazer.

E quando é um luto por suicídio, independentemente da idade. Enfim, a idade há de piorar por causa destas questões. Mas quando é um luto por decisão de alguém, mais consciente, menos consciente, mais estruturada, menos estruturada, isso é um potencial agravante do luto que eu vou fazer em relação a essa pessoa.

Sim, muito. Para já, porque o suicídio, por um lado, do ponto de vista da sua previsibilidade, é igualmente estranho. Ou seja, assim como uma criança morrer, um suicídio, em princípio, é algo que não se estava a prever, não era suposto a pessoa morrer naquela altura. E depois, tem outras agravantes. Um, como tu disseste, o facto de ser causado pelo próprio, porque não se está à espera, do ponto de vista biológico, que o ser humano queira fazer mal a si próprio. E nós sabemos, claro, que o suicídio é, na maioria enormíssima dos casos, resultado de doença mental. E, portanto, na verdade, aquela pessoa não está bem. Ainda que depois sejam feitas pela sociedade imensas atribuições, muitas vezes injustas, do tipo: "Suicidou-se com três filhos, que cobarde". Ou: "Como é que ele foi fazer aquilo à mulher? Coitada, agora ficou desamparada." Como se a pessoa estivesse bem e decidisse: "Eu vou aqui destruir a vida a quatro pessoas". Não é isto que a pessoa faz quando se mata. Mas isto é importante por quê? Toca aqui em outros conceitos, desculpa fugir um bocadinho à tua pergunta, que é o conceito de luto desautorizado. Porque há certos lutos quase que a sociedade impede as pessoas de fazer, do tipo: "Mas ele matou-se e deixou-te assim desamparada e tu ainda sofres por ele?" Dá a ideia que a pessoa não está autorizada a ter as emoções que era suposto ter. Mas voltando ao tema do suicídio. Suicídio é imprevisível, mais uma vez, não é suposto a pessoa morrer. É causado pelo próprio, o que causa imensa estranheza ao nosso cérebro humano, que está preparado para nos protegermos e proteger a nossa vida e dos nossos. E, por outro lado, tem outro fator que é muitas vezes gerador de culpa. A culpa é uma emoção, na verdade, muito comum, na morte em geral, no luto em geral.

Não só por suicídio.

Não só por suicídio, porque o nosso cérebro tem outra característica importante. Aliás, o que eu estive aqui a explicar sobre prever o futuro, antecipar, ele vai entrar, ele não vai entrar. Isto é o nosso cérebro, no fundo, a fazer mapas geográficos, mapas temporais do que vai acontecer, que nos dão segurança. Portanto, o nosso cérebro é um control freak, sempre, por natureza. Mesmo para as pessoas que acham que não são control freaks, mas o cérebro naturalmente está a fazer cenários temporais e espaciais de futuro para nos prepararmos para a ação. O suicídio rompe completamente com estes cenários, por razões óbvias. Porque sai completamente fora daquilo que estava previsto. Aliás, desculpa, o suicídio faz isto muito, mas todas as mortes fazem isto. E os lutos são precisamente também muito geradores de culpa, porque as pessoas pensam, é o cérebro a tentar voltar a ganhar controle. "Não, mas o que eu fiz de errado para isso ter acontecido?"

Como é que isto pode ter acontecido?

"Por que a pessoa morreu e eu não me apercebi de nada? O que é que eu podia ter feito mais? Eu não levei meu pai ao médico mais cedo. Por quê?" No suicídio, então, isto amplifica-se imenso. "Como é que eu não percebi? E realmente ele falou de qualquer coisa. Ele disse que a vida não fazia sentido, mas como é que eu não o levei ao psiquiatra? O que é que se passa?" E esta tendência que o cérebro tem para controlar tudo, faz com que as pessoas muitas vezes gerem culpa, mesmo quando não têm culpa nenhuma.

E a culpa dificulta o processo, porque costuma-se dizer que o luto tem várias fases, tem a fase da revolta, a fase da raiva, a fase da tristeza e a fase da culpa.

Certo.

É só mais uma fase ou é uma fase muito determinante para percebermos se a pessoa vai conseguir gerir o luto bem?

Certo. Eu fico satisfeito que tenhas falado das fases, só para te dizer que essas fases já não se utilizam muito na conceptualização do luto.

Não? Sou muito antiga. Desculpa.

Não é por isso, não és nada antiga. É para isso que serve este podcast, é para desmistificar as coisas que se passam no nosso comportamento. E durante muitas décadas, por quê? Porque inicialmente o luto sempre foi um tema um bocadinho tabu. Porque tratar da morte é uma coisa que custa.

Ninguém sabe falar de morte.

Ninguém quer. E portanto, psicologicamente, essa conceptualização por fases foi muito útil para se começar, do ponto de vista científico, a tratar do luto. Mas hoje em dia sabe-se que as fases, na verdade, não são muito interessantes.

Estancas.

Estancas, no sentido em que, na verdade, o luto é um processo até que acontece mais por ondas do que por fases. E por isso é que quem nos possa estar a ouvir, que já tenha passado por uma perda, muitas vezes há uma fase muito má, depois a pessoa parece que aliviou bastante, mas depois está a sofrer imenso outra vez, quando pensa que já fez o luto. Mas na verdade, o luto é um processo por ondas que vai acontecendo ao longo do tempo. Mas nesse processo, a culpa é uma emoção que surge. Ou seja, não é tanto uma fase, é uma emoção que pode surgir ao longo destes períodos de agravamento. Por quê? Porque o cérebro quer controlar tudo. Mas é importante dizer isto: é que no suicídio e em todas as mortes, mas no suicídio isso é ainda mais agravado, as pessoas ficam com uma culpa relacionada com aquilo que eu podia ter feito. Mas é importante também explicar aqui, para quem nos está a ouvir, que é um viés que está bem identificado do ponto de vista científico, que é: depois de morrer, tudo parece óbvio. Ou seja, era óbvio que ele estava deprimido. Era óbvio, ele disse-me aquilo, ela disse-me aquilo. Como é que eu não vi que ela estava a ficar amarela? Como é que eu não vi, não sei o quê. Mas isto é um viés retrospectivo. Portanto, é bom que as pessoas percebam que quando a pessoa morreu e de repente se sentem culpadas porque lhes falhou um monte de informação, numa circunstância normal, não é suposto aquela informação ter grande saliência no nosso dia a dia. Ela só se torna tão saliente porque entretanto a pessoa morreu. E portanto, olhando para trás, tudo parece óbvio, mas naquele momento não era óbvio. Mas isto gera culpa.

E também há uma culpa diferente, que é a culpa de quando nos sentimos melhor e sentimo-nos culpados porque nos sentimos melhor e parece que afinal a pessoa não era importante e eu agora vou-me rir. Eu não me posso rir, o que é que as pessoas vão pensar se me virem a rir quando eu perdi A, B ou C há tão pouco tempo?

Isso, e rir é uma coisa ligeira, mas o que dirás de voltar a namorar ou voltar a casar. Quando morreu um companheiro ou quando morreu um filho, como é que ela consegue voltar a namorar depois de perder um filho? Claro, é muito relevante o que tu estás a dizer, porque a culpa aqui surge de outra forma.

Reparaste que eu disse ela? É que se fosse ele, se calhar a sociedade não era tão...

É verdade, mas "shame" para a sociedade, porque para mim é exatamente igual, atenção.

Não, mas é verdade. Eu acho que nesses casos, para uma mulher ou para uma mãe, há uma expectativa de um luto muito mais intenso do que para um pai ou para um homem. O que é altamente injusto para o pai e para o homem.

Pois é, é injusto e neste momento, felizmente, desatualizado. Mas também tenho que dizer que embora não seja a minha realidade, nem a tua, eu que trabalho na clínica diariamente, vejo que a sociedade ainda é muito desigual do ponto de vista da relação homem-mulher com diferentes funções sociais. E, portanto, apesar de não ser a nossa realidade, isso é a realidade para a maior parte das pessoas. De qualquer forma, e claro, isto é engraçado tu falares isso, porque saindo só aqui um bocadinho da pergunta, o ambiente cultural é muito relevante para os processos de luto também, porque a forma como a sociedade vê aquilo que tu perdeste ou aquilo que devia ser a tua reação à perda, vai condicionar o teu luto. É a tal história do luto desautorizado ou autorizado. Por que ela está a sofrer tanto por um tipo que lhe fazia tanto mal?

Ou então já chega, não é? Já passou um mês, já passou meio ano.

Já passou seis meses e ainda continuamos nisto. Portanto, é muito relevante, a cultura tem aí um impacto importante.

Olhando para isso, eu sinto que há uma altura em que todos os lutos são desautorizados, pela duração. Eu acho que é muito comum, eu senti isso nos meus lutos, a dada altura, não de todas as pessoas, como é evidente, mas ter um bocadinho a sensação de as pessoas já pensarem: "Vá lá".

Já chega.

Já passou tanto tempo.

Percebo.

E o problema é que depois, de repente, vem uma dessas ondas e nós até achamos que já passou, mas não passou.

Certo.

E, portanto, eu acho que há um momento em que todos os lutos são desautorizados.

Então, se calhar, posso introduzir uma coisa que eu acho que tu me ias perguntar mais à frente, que é a questão do luto prolongado, porque acho que faz sentido falar disso agora, que é O luto é... Ainda não disse bem o que era o luto, mas já foi explicado. Quer dizer, fomos explicando. Mas o luto é um processo psicológico e biológico, como expliquei, de reação do nosso cérebro e da nossa mente a uma perda muito significativa. Essa perda muito significativa é frequentemente uma pessoa, mas como eu disse, pode não ser. Pode ser uma situação ou, por exemplo, até um animal. Claro, são lutos diferentes, mas também há muito luto desautorizado nos animais. Por amor de Deus, é um cão, por que estás a sofrer assim? Porque provavelmente o cão estava mais envolvido na identidade daquela pessoa do que qualquer outro ser humano, porque todos os dias o esperava à porta, porque todos os dias lhe dava uma festinha ou acordava-o aos pés da cama, etc. Portanto, estás a ver o identitário que um animal pode ser. Mas o luto é um processo normal, é expectável que assim seja. O luto é envolvido de sintomas, de sentimentos e emoções muito negativas, naturalmente. Tristeza, saudade intensa, culpa, que já foi aqui explorada nas suas diferentes formas, e também flutuação ao longo do tempo. E o que se espera é que, e isto também é importante dizer, antigamente, classicamente, conceptualizava-se a ideia de fazer o luto como: "Pronto, agora já está. Já está o luto feito, portanto, já houve um desligamento completo daquela pessoa. Nem é bom estar a ver fotografias, nem estar a olhar para coisas, porque o luto está feito". Era desprender-se da pessoa que morreu. Isto está completamente errado. Como é óbvio, aliás, o senso comum diz-nos que isto está errado. Como é que nós perdemos uma mãe ou um pai? Claro, perdemos uma mãe ou um pai, uma pessoa tão importante na nossa vida, e desapareceu? Não, claro que não desapareceu. Para já, esta pessoa, como eu te expliquei, vive dentro de nós, da nossa memória. Aliás, agora fiz-me lembrar o "Rei Leão". Porque quem se lembra do "Rei Leão"? Essa cena é muito bonita, diga-se de passagem, com o Rafiki, que é o babuíno.

Nós temos esta coisa de falar de filmes de animação.

Será que é por termos filhos pequenos? Provavelmente, sim. Mas quem não se lembra dessa cena do Rafiki a explicar ao Simba que o pai vive dentro dele e que isso é que é importante? Ou seja, o luto não é eliminar a pessoa que morreu da nossa memória, antes pelo contrário, é ressignificar aquela presença. Ou seja, tudo aquilo que aquela pessoa nos ensinou, aquilo que representa na nossa vida, tem que ganhar um novo significado.

Mas tem um prazo? Mesmo que não seja igual para toda a gente, tem ali uma baliza temporal?

A ciência e a medicina gostam muito de estabelecer prazos, que é para poder ter critérios.

As pessoas também.

E as pessoas em geral, sim. Deixa-me dizer que isto é muito flexível. Mas sim, podemos dizer do ponto de vista das classificações, que há prazos, no sentido em que o luto é um processo que pode demorar de formas muito variáveis, atenção, mas estima-se que um luto após os 12 meses, um luto prolongado, com as características que eu já te vou explicar, após os 12 meses, possa já ser um luto prolongado, patológico, que tenha que ter uma intervenção já terapêutica, que é sobretudo psicoterapêutica, embora a medicação também possa ajudar nesses casos. Agora, o mais importante nem é tanto a duração, embora os tais 12 meses sejam assim um número de referência. O que é importante é se durante esses 12 meses, a pessoa foi reconstruindo a relação que tinha com aquela pessoa, que entretanto partiu, ou se mantém aquela perda como o centro da sua existência. Está sempre a olhar para as fotografias, não faz mais nada a não ser pensar na pessoa. Deixou de viver a sua vida do ponto de vista laboral, as suas outras relações, não consegue ter outras relações profundas, porque está tão focada na perda que teve que não consegue. Portanto, tem a ver mais com o grau de disfuncionalidade que lhe causa o processo de luto, do que propriamente a duração. Portanto, isto quer dizer que se olharmos um luto que está a durar há cerca de 12 meses e a pessoa está ainda centrada, quase exclusivamente naquele processo de luto e na pessoa que perdeu, e naquilo que não vai voltar a ter, e na revolta, e na dor, aí provavelmente temos um luto patológico, um luto prolongado.

E nesse caso é preciso procurar ajuda.

Aí é preciso procurar ajuda. Sendo que, obviamente, a ajuda psicológica pode ser procurada antes. Até porque há pessoas que sentem que não estão a conseguir lidar com a perda. E portanto, aí mesmo que o luto ainda não seja patológico, que não seja muito duradouro, a ajuda psicológica, sobretudo de psicólogos que sejam especializados no tema do luto, pode ser bastante útil para ajudar a fazer o debriefing daquela situação, no fundo, a reconstruir aquela relação com a pessoa. Porque repara que eu digo sempre isto: não é esquecer, não é eliminar, não é concluir o processo, é reconstruir a relação. Porque a pessoa não existe mais fisicamente, mas a relação continua a existir, porque aquilo foi tão importante no teu cérebro, foi tão importante na tua vida, que aquela pessoa tem que continuar a existir de alguma maneira.

Mas já agora, a propósito disso, é importante não ter pressa de fazer isso? Porque eu sinto que às vezes uma das coisas que eu ouço de pessoas e que eu acho que também experienciei, mas que eu ouço de pessoas que perdem alguém é: "Mas eu não quero esquecer". Nem é esquecer, é: "Eu não quero ultrapassar. Eu não quero deixar de sentir esta dor". Quase como se a dor fosse a prova provada do amor e da importância da pessoa. E, portanto, pode ser preciso algum tempo para primeiro se aceitar que é preciso reconstruir a relação?

Sem dúvida.

Porque acho que é dificílimo começar logo esse processo de: "Ok, a pessoa não está aqui, vou..."

Não, é dificílimo e não é voluntário. E por isso é que se estabelece a tal baliza de 12 meses. Doze meses é muito tempo, 12 meses é um ano. Portanto, é admissível que, tudo é admissível, mas é admissível, digamos, do ponto de vista das classificações, que até os 12 meses o processo de luto seja bastante intenso. É normal sentir emoções muito fortes, é normal sofrer muito com o luto. Aliás, fala-se muito da dor que isto me causa. A dor não é só uma dor mental, isto pode até causar dor física.

Também pode ter consequências físicas, que às vezes eu associasse mais a emoções e características.

Sim, é engraçado que digas isso. Isto foge um bocadinho à minha linha de raciocínio, mas é importante o que estás a dizer, porque os sintomas do luto podem ser muito intensos. Como eu expliquei também, normalmente acontecem por ondas. Só para responder à tua pergunta, a pessoa diz assim: "Não, eu não quero esquecer, eu não quero parar de sofrer desta maneira". Muito frequentemente, há aí uma componente cultural que está a envolver o processo de luto, quase que não autorizando que a pessoa se sinta melhor, como se eu sentir melhor é sinal de que eu afinal não gostava assim tanto desta pessoa, ou estou a esquecê-la e como eu não quero isso Então não me deixes.

Eu sou do norte, como sabes, sou de Matosinhos. E eu sempre me habituei a identificar as varinas que tinham perdido os maridos, na maior parte delas na pesca, que tinham perdido no mar, pelo traje. Porque esta coisa das mulheres mais velhas vestirem preto para o resto da vida, depois da perda de um marido ou da perda de um filho, é um bocadinho essa coisa de eu nunca mais vou deixar de identificar em mim que eu perdi alguém e que nunca mais vou voltar a ter cor.

Mas se tu reparares bem, isso é bastante saudável a forma como é feito, porque depois as varinas não eram nada tristes. Pois não?

Não.

Ora bem, percebes o que eu quero dizer? Ou seja, isso é uma forma ritualística. Isso também é uma coisa importante que tu acabaste de tocar, que é: há rituais que nos ajudam a fazer o luto. O luto vestido, ou seja, o estar vestido de preto, é um ritual, é dizer assim: "Há aqui um período".

Todo aquele processo do velório, o funeral, tudo isso também ajuda?

Tudo isso pode ajudar ou não.

Como processo é terrível para quem perdeu.

Mas os rituais normalmente são importantes. Aliás, por isso é que às vezes pergunta-se assim: "Devo levar a criança ao funeral? Devo levar a criança ao velório?" E a minha opinião é que sim. Não se deve inibir as crianças. Claro, se estamos a falar de crianças pequeníssimas que não percebem nada do que se está a passar, não faz sentido. Mas se a criança pergunta, a criança quer saber o que é que aconteceu ao pai, o que é que aconteceu à mãe, deve fazer parte dos rituais, ainda que com uma exposição controlada. Não vamos pôr a criança a olhar para dentro do caixão fixamente. Mas saber que está ali a mãe, que está ali o pai, que não vai voltar fisicamente, mas que está entre nós do ponto de vista emocional, do ponto de vista afetivo, ou se formos religiosos, está noutro plano, existe num plano além-vida. Tudo isso são formas ritualizadas de ajudar ao processo de luto. Como o nosso cérebro quer controlar tudo e quer encaixar tudo em caixinhas, é uma ajuda para o nosso cérebro pensar: "Ok, está aqui uma nova categoria. Esta pessoa fisicamente não está, mas está além vida, ou a minha relação com ela é que perdura no meu coração". Portanto, os rituais são importantes e o ritual de vestir-se de preto para o resto da vida, claro que é um ritual culturalmente aceito como: cá está a marca, esta pessoa não esqueceu o morto. Mas depois chega a sua vida. E esta dualidade entre sofrer, mas seguir a sua vida, é que é um processo de luto saudável, porque não existe um limite a partir do qual tu digas: "Acabou o luto, agora é vida". Não, isto não existe. O que existe é para sempre. E quanto mais intensa for a vinculação, quanto mais importante for a relação, mais para sempre será esta ideia de eu sofro, dói-me pensar nesta pessoa, mas também me traz memórias positivas e eu vou reconstruindo a minha vida à volta da perda.

E nessa reconstrução que as pessoas têm de fazer da relação com as pessoas. Estavas a falar sobre isso e também estavas a dizer que se as pessoas continuam todos os dias a ver as fotografias ou continuam todos os dias a ter a pessoa no centro da sua vida, não é uma coisa boa. Mas eu estava a pensar num objeto. Desta vez trouxe um objeto. Isto eu não sei se tu sabes o que é, mas isto em Matosinhos, de onde eu sou, chamam-se beijinhos. Os beijinhos são estes búzios pequeninos. São uma espécie de búzios.

Certo.

Há uma praia em Leça da Palmeira, terra mais bonita de Portugal, segundo os "Expensive Soul", que se chama Praia dos Beijinhos porque tem isto nas rochas. E há muitos anos, o meu pai, num período importante na vida da minha irmã, foi apanhar beijinhos e ofereceu-lhe uma caixinha cheia destes pequeninos búzios. E quando o meu pai morreu, a minha irmã distribuiu alguns beijinhos por mim, pela minha mãe, para nos lembrar dele. Os objetos para mim nunca tiveram muita importância. Eu nunca me relacionei de forma muito intensa com nada, em termos de objetos. Importavam-me mais as pessoas. Mas desde que o meu pai morreu, estas são das coisas mais preciosas que eu tenho na vida. Este movimento que nós fazemos de começar a colocar em coisas as memórias e a presença. Eu quando olho para eles, depende dos dias em que estou e da onda, estar ou não estar, mas lembra-me intensamente o meu pai e faz-me sentir intensamente perto do meu pai. Isto faz sentido?

Faz muito sentido. Para já, obrigado por teres partilhado esta história, que é muito bonita.

E os beijinhos também.

E os beijinhos também são muito bonitos. Para quem nos vê no YouTube, pode ver aqui os pequenos búzios. É muito bonita a história que tu contaste e é extremamente representativa de uma coisa que de fato acontece, que é, como eu te disse, e vai mesmo em linha com o que eu estava a dizer, que é: as relações quando são muito próximas, quando a vinculação é muito intensa e é uma pessoa muito importante para a tua vida e até para a tua identidade, que é o caso de um pai, quando a coisa corre bem. A perda física da pessoa não representa a perda da pessoa, porque a pessoa continua a existir, continua a existir na memória, etc. Ter um objeto ou fotografias, um álbum de fotografias, uma peça de roupa, o que seja, que faça uma ponte entre o que tu tens dentro de ti e o mundo físico, é muito importante e pode ajudar muito no processo de luto. Porque repara, é o tal que eu te dizia há bocado, quando tu tens a perda, aquilo que tu tens dentro de ti não corresponde à sensorialidade. Tu tens uma informação que é: eu prevejo que o meu pai entra, eu prevejo que o meu pai me liga, eu prevejo que posso falar ao meu pai quando estou ansiosa, mas depois ele não está lá. Isto é uma dissonância cognitiva entre o que a minha emoção me diz e o meu cérebro me diz e a vida real.

Por isso é que às vezes até parece que nos esquecemos.

Sim, e há mesmo vezes em que a pessoa pega mesmo no telemóvel para mandar mensagem, depois pensa: "Ah, não, ele já morreu". Portanto, isso é muito doloroso. E ter objetos, que muitas vezes chamam-se de objetos de vinculação. No fundo, o que as pessoas fazem é, inconscientemente e progressivamente, fazer transitar alguma desta fisicalidade da relação para um objeto representativo da pessoa. Pode ser até um objeto religioso, um terço, uma urna, o que seja, onde nós tentamos estabelecer uma certa concordância, o contrário de dissonância é concordância, entre aquilo que nós sentimos e a importância que tem dentro de nós para algo físico que também existe e que não seja apenas uma coisa dentro de nós. Também ajuda naquela ideia de que Eu vou me esquecer da pessoa. Eu já não me vou lembrar dela. E isso pode ajudar a mitigar esse estresse.

Mas isso também significa que as pessoas têm o hábito de falar, às vezes até audivelmente com som, com pessoas que já cá não estão. Não significa necessariamente que as pessoas não estejam bem ou que estejam malucas, como se costuma dizer.

Não, como é que não?

Pode ser só uma forma de estar a pensar consigo próprio e pensar no que aquela pessoa me diria se estivesse aqui.

Claro. E há pessoas que têm mais facilidade em mentalizar do que outras. Mentalizar é um termo da psicologia que tem a ver com a capacidade de pôr dentro da nossa cabeça, em pensamentos formulados, uma ideia, uma emoção, etc. Mentalizar uma emoção. Eu estou triste e penso: "Por que eu estou triste? Estou triste porque aconteceu isso e tal". No luto, isto é muito relevante. E depois há pessoas que precisam de bengalas, de muletas pra fazer essa mentalização. Às vezes falar alto, falar sozinho, falar com a pessoa que morreu, como se ela estivesse ali. Há pessoas que me dizem isto na consulta e obviamente que a pessoa sabe perfeitamente o que se está a passar. "Doutor, eu falo sozinho, eu sei perfeitamente que ele já morreu, mas dá-me um certo conforto poder falar como falaria com ele e sei, como o conhecia muito bem, o que ele provavelmente me iria responder". No fundo, ajuda. É como se continuasse este diálogo. Claro que isto, na verdade, é um diálogo interno, mas o fato de eu pôr em voz alta facilita mais vezes, no fundo, a corporalizá-lo.

E o que determina mais a forma como eu vou lidar com determinado luto? As minhas circunstâncias, as circunstâncias da pessoa que morreu ou as ferramentas que eu tenho ou que não tenho para lidar com esse luto? Porque eu não vou lidar com os meus lutos ao longo da minha vida da mesma maneira, certo?

Certo.

Eu vou ganhando ferramentas, eles vão ficando mais fáceis.

Não sei se é assim, não.

Ou pode ser pior?

Na verdade, a resposta é: depende. Que é aquela resposta sempre útil. Mas quando tu fizeste a pergunta, que quase parecia uma pergunta de escolha múltipla, a resposta certa era todas as anteriores. Que é: depende da relação, e já falamos bastante sobre isso, sobre como é o vínculo que tu tens com aquela pessoa, mas também depende das tuas características individuais, do tipo: és uma pessoa que consegue manter uma rotina ativa, tens outros pontos na tua vida que te estimulem, que te motivem, gostas do teu trabalho, continuas a trabalhar, tens outras relações significativas na vida ou não. Mas também depende das características tuas na relação com a pessoa. Por exemplo, é importante ter um vínculo, e ter um vínculo seguro, mas outra coisa é ser dependente daquela pessoa. Eu estou emocionalmente dependente de alguém. Aquela pessoa é precisa pra eu tomar todas as decisões da minha vida. Eu não sei tomar decisões sem lhe perguntar o que ela acha. Isso pode agravar o luto, porque já não podemos fazer isso. E depende também das tuas circunstâncias de vida, presentes e passadas, porque depois todos os fatores de estresse psicológico que estejam a decorrer vão contribuir, negativa ou positivamente, pra aquilo que se está a passar do ponto de vista mental e pra capacidade que o teu cérebro tem de se adaptar. Porque repara, agora voltando um pouco à neurobiologia, que hoje estamos a falar pouco de neurobiologia, e tu sabes que eu gosto de falar de neurobiologia.

Eu sei, então não sei.

As ligações entre neurônios ficam fortalecidas quando são muito repetidas. É isso que acontece numa relação. A relação é duradoura. Aquilo está sempre a repetir aqueles neurônios, aquilo fica muito forte. Portanto, aquilo é muito forte no teu cérebro quando a pessoa morre. E o que acontece ao longo do processo de luto é que aquelas ligações não desaparecem, por isso é que a tua memória da pessoa não vai desaparecer nunca, que é um medo que as pessoas têm. "Será que eu me vou esquecer da cara dele? Será que eu me vou esquecer do quanto gostava dele?" Isso não existe, porque está lá a memória. Só que outras ligações vão se construindo à medida que tu não ouves a chave entrar na fechadura da porta, à medida que tu realmente percebes que não vale a pena mandar mensagem porque ninguém te vai responder. E outras ligações se vão fortalecendo e isso vai construindo outro tecido cerebral, vamos dizer assim, ou vai se fortalecendo o tecido cerebral. E, portanto, tendo isto em conta, obviamente que como estamos a falar de processos biológicos do cérebro, o que se está entretanto a passar no teu ambiente vai influenciar. Ou seja, se for um ambiente muito estressante, em que tu estás completamente desregulado em termos de sono, de horários, não dormes, etc, vai dificultar que o cérebro faça esse trabalho.

Portanto, também não é uma grande ideia eu atirar-me ao trabalho assim, é uma perda, pra nem pensar nisso.

Não, as coisas têm que ser feitas com algum equilíbrio. E além disso, já agora, é muito importante que as pessoas percebam que têm que autorizar-se a sofrer. Porque muitas vezes o que acontece como estratégia de luto é: "Então pronto, eu agora vou me agarrar ao trabalho e nem penso naquela pessoa que morreu". Mas isso vai cair em cima um tempo mais tarde.

Vai ficar à espera.

E sobre aquilo que tu disseste, sobre experiências passadas de lutos, vai depender muito, porque os lutos são todos diferentes. Como eu acabei de dizer, depende de tudo. Depende da relação, da pessoa que morreu, de quem eras tu quando a pessoa morreu. Porque tu és pessoas diferentes dependendo da circunstância que acontece. E porque podem ter acontecido outras coisas. Entre dois lutos, tu podes ter tido um evento traumático muito significativo, de outro estilo, que modificou o teu cérebro e fez com que tu sofras um luto muito mais difícil a seguir. Ou podes estar em depressão, por outro motivo qualquer, e essa depressão vai agravar o processo de luto. Portanto, na verdade, tudo isto influencia a forma como o luto acontece e se ele é mais fácil de fazer ou mais difícil.

Eu acho que às vezes há uma confusão entre a dor da perda de alguém e a saudade intensa e o luto. Porque a sensação que eu tenho é que as pessoas acham que se daqui a 10 anos continuam a sofrer, de alguma forma, desejavelmente de forma menos intensa, pela perda de alguém, que ainda estão a fazer o luto. E eu deixei de conseguir dizer aquela coisa às pessoas de: tudo passa.

Já porque é mentira.

O tempo cura tudo. E fiquei um bocadinho pessimista a esse nível. Então opto por não dizer nada. Só às pessoas mais próximas é que eu digo: "Olha, não vai passar". Porque a minha convicção é que não vai passar.

Certo.

Mas não é o luto.

Percebo perfeitamente o que tu estás a dizer. A verdade é que não vai passar, nesta medida em que a perda de uma pessoa muito significativa não significa O desaparecimento daquela pessoa na tua cabeça e no teu coração. O que vai ficar é: vai haver uma mudança daquela situação. Portanto, um processo de luto é precisamente a forma como tu, psicologicamente e biologicamente, te adaptas àquilo. Mas repara que isto pode ser tão intenso. Há bocado perguntavas sobre consequências físicas e ocorreu-me dizer isto e depois esqueci-me. Há estudos que mostram que, por exemplo, após o falecimento de um cônjuge, nos meses seguintes, o risco de AVC ou de enfarte em quem ficou é mais elevado. Porque de facto, aquilo é um evento de tal forma estressante pra pessoa, perder uma parte de si. Isto é uma frase que se utiliza muito: "Perdi uma parte de mim". É mesmo verdade, porque aquela pessoa não está ali só na tua casa, aquela pessoa está na tua vida, a tua vida é o teu cérebro, o teu cérebro tem aquela pessoa lá gravada. Portanto, a pessoa desaparecer significa que há uma parte que está no teu cérebro que já não faz sentido. Onde é que está a pessoa?

E ficamos pessoas diferentes.

Completamente, sim. O que não quer dizer que fiques uma pessoa pior ou uma pessoa menos funcional, ou uma pessoa mais triste. Não, mas fica certamente uma pessoa diferente, porque quando tu tens uma relação que é muito importante pra ti e que é identitária, a modificação drástica dessa relação pela perda física da pessoa modifica o teu funcionamento.

Olha, eu fui olhar para os comentários num labirinto, aquela série de entrevistas que temos com figuras públicas sobre a maneira como lidam ou lidaram com problemas de saúde mental. E fui ver de novo da Maria Botelho Moniz, a apresentadora de televisão, que falou sobre o luto, a perda do noivo e depois a perda do pai. E havia lá um comentário num desses vídeos que era da Clara Sousa Vicente, que deixou um comentário pra dizer: "É exatamente assim. Passaram 32 anos, a dor ficou." Ela disse eu também com a mesma idade, portanto eu suponho que tenha perdido também o companheiro, o namorado, o marido, na mesma altura. "Passaram 32 anos, a dor ficou, no vazio semeei flores e também escolhi ser feliz, para precisamente não se tornar um peso pra os outros e pra nós, mas principalmente pra filhota que existe." Quando nós temos de ultrapassar uma perda destas, severa, termos outros objetivos ou sermos precisos por outras coisas, por exemplo, pra cuidar de um filho que fica. É uma âncora que nos puxa e que nos leva pra cima, ou pode ser uma pressão difícil de ultrapassar?

É uma pergunta muito inteligente, porque pode ser as duas coisas. E é muito importante que as pessoas consigam fazer isso de forma equilibrada. E é por isso que nesses lutos mais difíceis, pode ser útil ter apoio psicológico de pessoas especializadas em luto. Porque de facto, é importante que a vida continue, vamos dizer assim. Mas tu usaste uma expressão engraçada: quando nós temos mesmo que ultrapassar. Mas quem é que diz que nós temos mesmo que ultrapassar? Agora vou fazer de Sara. Não, isso não vai passar, portanto tu não vais ultrapassar. Ou seja, nós não temos que ultrapassar. Agora, há um processo que tem que ser feito, que vai acontecer necessariamente e naturalmente. Se for desejavelmente, será naturalmente. Mas às vezes não é tão natural assim, porque fatores de risco fazem com que o luto se torne prolongado ou patológico. Mas o exemplo que tu deste, da ouvinte, é realmente um exemplo de um luto bem integrado, porque hoje em dia não se utiliza tanto aquela questão das fases do luto, nem do luto patológico versus o luto saudável. O luto é um processo progressivo, que é duradouro, dura bastante tempo, muitas vezes flutua por ondas e depois ou está bem integrado ou não está. Quando se diz bem integrado, até mostra bem a ideia de que não é propriamente uma coisa que acaba ali, não há uma data final. Está integrado, ou seja, tu vives a tua vida com aquele luto, com aquele processo que continua a decorrer. E às vezes é um processo que se calhar nunca acaba, vai se modificando ao longo do tempo, mas o que é saudável é tu conseguires integrá-lo com o resto da tua vida. Claro que, neste caso havia uma filha, tu teres outras relações de vinculação primordiais e de grande importância, acaba por ser protetor na maior parte das vezes, porque tu tens outras relações de grande importância que também são muito identitárias pra ti. E neste caso, o papel de mãe é um dos papéis mais importantes que uma identidade pode desenvolver. E, portanto, é natural que isso tenha ajudado. E como a senhora diz, até de forma metafórica, plantou flores no sofrimento, que é interessante porque é metafórico, mas é uma metáfora muito bem conseguida. Porque no fundo é: naquela dor, ter dor é aceitável, a pessoa sabe que vai doer.

E é desejável, porque temos de sofrer.

Isso mesmo. Mas paralelamente e ao mesmo tempo, ir plantando flores, ou seja, deixando que a vida continue e que as coisas boas também apareçam.

Então olha, proponho que vamos à nossa checklist, vamos ser práticos agora. Quais são as melhores estratégias ou as melhores ferramentas que eu posso ter pra lidar com a perda de alguém? Ou que passos é que eu devo dar pra enfrentar uma perda que eu já sei que vai ser difícil?

Sim. A primeira dica seria aceitar que vai ser doloroso. Portanto, o primeiro passo será aceitar que vai ser um processo doloroso, aceitar que vai doer.

Pode não ser logo?

Sim, claro. Pode não ser logo. Sabes por quê? Pois há aí uma coisa que é, como falamos há pouco dos rituais, dos funerais, dos velórios, etc. Sobretudo, quem trata dos assuntos está em piloto automático, em alerta, do tipo: "Eu tenho que resolver, tenho o funeral pra organizar, tenho que pagar, tenho que fazer não sei o quê." E depois quando finalmente toda a gente se vai embora e a pessoa está sozinha em casa, parece que cai a ficha. As pessoas sentem muitas vezes isto.

Nós vemos muito isto. "Mas a senhora estava..."

Estava muito bem.

"A viúva estava bem, estava bem no velório." Claro que estava.

Estava em piloto automático. Quando lhe cair a ficha, deixa de estar bem. E é importante que se perceba que vai deixar de estar bem. E que é suposto ficar mal, e que é suposto sofrer bastante, e é suposto ter tristeza, saudade intensa, o que seja. Mas também é importante que nem todas as pessoas sofrem o luto da mesma maneira. E, portanto, é aceitar a forma como se vive o luto, porque há pessoas que não sentem a tristeza que estavam à espera. Por exemplo, acontece quando é um pai que esteve doente e que estava a sofrer e partiu, e a pessoa até sente um alívio, em vez de sentir dor, e depois pensa: "Mas que monstro sou eu, que estou aliviado porque o meu pai morreu?" Isto pra dizer que aceitar que vai doer, mas aceitar também as emoções todas que vão surgir naquele processo de luto. Esse seria o primeiro passo. O segundo passo seria não se isolar. Não se isolar é muito importante, porque as pessoas têm muita tendência para: "Deixem-me estar, eu quero viver este processo de luto sozinho". Só que viver o processo de luto sozinho, no fundo, é estimular esta ideia de que se está sozinho efetivamente. E como a perda já é para o nosso cérebro um alerta que é: atenção, uma pessoa importante que te ajudava e que te suportava nos momentos maus, desapareceu. Se a pessoa se isola completamente, o cérebro diz: "Ok, realmente é verdade, estou completamente desamparado, não tenho ajuda nenhuma de ninguém". Portanto, é importante que a pessoa não se isole e, sobretudo, que aceite a ajuda. Já agora, uma dica também aqui, não para a pessoa que perde, mas para quem está à volta de quem perde, é bom mostrar disponibilidade.

Mas não impor.

Não impor, precisamente, ou seja, respeitar o ritmo de quem perdeu alguém, mas mostrar disponibilidade. "Eu estou aqui", mandar uma mensagem de vez em quando, ligar de vez em quando, porque há um bocado aquela ideia: "Deixa a pessoa viver o luto dela. Se a pessoa estiver mal, ela chama-te". Não é verdade. A pessoa às vezes está tão desenergizada com a perda que sofreu, que não quer incomodar ninguém, quer estar ali e, portanto, é bom mostrar disponibilidade, fazer contactos, mesmo que a pessoa depois não queira, mas estar disponível para ajudar. Outra coisa importante sobre esta disponibilidade para ajudar, está relacionada com o facto de as pessoas muitas vezes acharem melhor não falar do assunto. "Ela já sofreu tanto, não lhe fales do marido. Ela já sofreu tanto, não lhe fales do filho". E às vezes as pessoas não se sentem autorizadas a falar da pessoa que perderam, do tipo: "Já toda a gente está farta de me ouvir falar do meu marido". E não é bom que isto aconteça. As pessoas têm que se sentir à vontade para falar, porque falar, mais uma vez, é ajudar-nos a processar o acontecimento e a ressignificá-lo. Dizer assim: "Ok, há aqui pessoas que também o conheceram, também gostavam dele, também achavam que ele era uma pessoa incrível". Portanto, muito importante fazer isso. Depois, manter as ligações saudáveis com pessoas à sua volta, porque às vezes as pessoas o que fazem é: "Eu perdi a minha mulher, eu não mereço já estar com ninguém. Ela já não está aqui para viver este momento connosco, portanto eu vou cortar as outras relações, não tenho disponibilidade mental para outras relações". Não digo relações amorosas, relações pessoais em geral. E é importante, como aliás no exemplo que tu deste, que a pessoa tenha outras relações significativas para que a nossa mente e o nosso cérebro percebam que não estamos sozinhos. Depois, uma coisa que parece-me bastante óbvia, mas que muitas vezes as pessoas esquecem e ignoram, que é cuidar da parte física, da saúde física e isto também através da rotina. Portanto, manter uma rotina diária, manter uma hora de acordar. Ainda falámos no episódio passado do sono, mas manter uma hora de acordar, uma hora de deitar relativamente regulares, manter as refeições em horas relativamente regulares, manter uma rotina de higiene, mesmo que a pessoa não trabalhe ou que esteja de baixa, manter uma rotina, porque isso ajuda o nosso corpo e o nosso cérebro a perceber que estamos vivos e que vamos continuar. E ajuda-nos também a ter a possibilidade e a disponibilidade de ressignificar as questões psicológicas. E depois, dar tempo. Dar tempo é importante, tu falavas disso, não ter um prazo, pensar assim: "Já devias estar boa, já devias estar bom". Dar tempo a que isso aconteça. E se tudo isto não for suficiente e se tudo isto não permitir voltar a uma vida normal e o luto for o centro da nossa existência ao fim de muitos meses, então aí sim, procurar ajuda, porque ela também é muitas vezes necessária.

Muito bem, ficámos com a nossa checklist. Vamos ter também uma sondagem para este episódio. Temos sempre, não é? A minha sugestão seria que nos comentários, os nossos ouvintes e espectadores nos deixassem o que acham que nós devemos e não devemos dizer a alguém que esteja em luto. Porque nós falámos muito ao de leve sobre isso, como é difícil falar sobre a morte e às vezes nós também não sabemos muito bem o que dizer às pessoas, mas há pessoas que dizem coisas horríveis e completamente ao lado.

A achar que estão a dizer coisas ótimas.

Certo. O que as pessoas deviam dizer, se calhar?

E o que não devem dizer.

Da própria experiência de coisas que já ouviram nos seus processos de luto. E chegamos ao fim.

Chegamos, mas não sem antes pedir também às pessoas que além de irem comentar este episódio, façam as suas sugestões sobre temas que gostassem de ver tratados no Manual de Instruções para Humanos, ou seja, daqueles humanos com quem as pessoas lidam muito, quem é que precisava mesmo do manual de instruções e sobre o quê?

É isso. Se puderem deixar essas sugestões, nós também prometemos ouvir e trazer esses temas em próximos episódios. E já agora também, se puderem carregar no botão seguir, em qualquer plataforma onde vejam este podcast, nós também ficamos muito agradecidos.

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