A 'operação de guerra' do Nordeste para reduzir abstenção na eleição

A abstenção, que havia sido de 18,39% no primeiro turno, caiu para 16,49%. Sete dos nove estados tiveram queda —o índice cresceu apenas no Maranhão e manteve-se estável no Piauí.
Com isso, pela primeira vez desde a redemocratização, o Nordeste foi a região com a menor abstenção em um segundo turno presidencial.

O maior comparecimento às urnas impulsionou ainda mais a votação de Lula na região, que ampliou sua vantagem em relação a Flávio e ficou com quase 11 milhões de votos a mais.

Como os Estados se organizaram
Levantamento do UOL mostra que os sete estados nordestinos que ampliaram o comparecimento nas urnas ampliaram o período de validade da medida ou o tamanho da frota de ônibus intermunicipais gratuitas para o segundo turno.
Uma resolução do TSE de fevereiro de 2026 obriga os Estados a oferecer transporte coletivo municipal e intermunicipal gratuito.
No caso do intermunicipal, no entanto, dificuldades de marcar passagem antecipada ou do tamanho de frota podiam impedir que alguns eleitores votassem.

1- Bahia
O estado governado pelo petista Jerônimo Rodrigues teve a maior redução da abstenção no país: 3,25 ponto percentual, o que significa que 368 mil pessoas a mais foram votar no segundo turno.
No primeiro turno, o governo ofereceu passagens intermunicipais no domingo. Foram 21 mil pessoas que usaram o transporte gratuito.
A estratégia mudou no segundo turno com a operação "Vai e Vota". A gratuidade começou a valer às 18h da sexta-feira anterior à votação.
Com isso, foram emitidas 120 mil passagens, sem contar o transporte por ferry-boat, lanchinhas e transporte metropolitano, cujos números não foram contabilizados.
A demanda foi tão grande que as empresas contrataram 50 ônibus a mais.

2 - Pernambuco
Após pressão de políticos e movimentos sociais por ter descumprido a resolução do TSE no primeiro turno, a governadora Raquel Lyra (PSD) publicou um decreto oferecendo gratuidade no transporte intermunicipal pela primeira vez no estado. As viagens de ônibus urbanos na Região Metropolitana do Recife já eram gratuitas.
Foram 7.541 passagens. O fluxo de passageiros no domingo, em comparação com o primeiro turno, teve crescimento médio de 60% nas linhas curtas e de 14% nas linhas longas.
3 - Ceará
O governo de Elmano de Freitas (PT) ampliou o período de gratuidade e deu a opção de reservar on-line.
"O eleitor precisava ir até a um guichê da empresa de ônibus para emitir o bilhete. Para o segundo turno, a gente chamou as empresas uma semana antes, e todas disponibilizaram um número de WhatsApp", diz o diretor-executivo da Arce (Agência Reguladora do Estado do Ceará), Marcos Carioca.
Com as medidas e a maior divulgação, o número de gratuidades concedidas saltou de 568, no primeiro turno, para 27,5 mil. O total considera apenas ônibus intermunicipais em viagens fora das regiões metropolitanas.

4 - Rio Grande do Norte
O estado governado pela petista Fátima Bezerra teve o DER (Departamento Estadual de Estradas de Rodagem) atuando junto ao sistema de transporte rodoviário de passageiros.
O número de bilhetes emitidos saltou de 5.660 no primeiro turno para 20 mil no segundo. Para comportar o fluxo, a frota foi ampliada em 40%.
5- Sergipe
O DER do Estado diz ter garantido o deslocamento gratuito de 30 mil eleitores no segundo turno. "Foram utilizados 62 veículos da frota extra, somando 622 unidades em circulação para atender a alta demanda de usuários", informou em nota.
5 - Paraíba
Também houve aumento no número de passagens emitidas, de 37.288 no primeiro turno para 43.441 no segundo. Por conta da alta procura, eleitores fizeram longas filas e tiveram de esperar horas para viajar.
6 - Alagoas
A Arsal (Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado) também ampliou o período de gratuidade no transporte intermunicipal, que começou a valer na sexta-feira, e não mais apenas no dia da votação.
Os números de passagens emitidas não foram informados, mas a procura foi muito maior do que o esperado. No domingo, foi necessário alterar rotas e colocar mais veículos nas rodovias.
Piauí e Maranhão foram procurados, mas não informaram os dados.

A mobilização
A derrota de Lula no primeiro turno caiu como uma bomba para a militância petista, que se viu diante de um desafio inédito: virar uma eleição presidencial.
Flávio havia somado novos apoios de partidos, como PP, União Brasil e Republicanos, além de candidatos derrotados, como Romeu Zema (Novo), Ronaldo Caiado (União Brasil) e Augusto Cury (Avante).
A virada parecia impossível, a não ser por um caminho: levar mais gente para votar em Lula no segundo turno. Houve, então, uma mobilização sem precedentes na região para convencer as pessoas a comparecer às urnas.
O tema foi tratado como uma operação de guerra, como muitos a descreveram. A mobilização ocorreu de várias formas, por diferentes frentes, e seguiu até o domingo.

Em Salvador, cidade que historicamente registra a maior diferença numérica de votos a favor do PT, grupos se mobilizaram.
"Usamos carros de som no subúrbio de Salvador após analisar os bairros com maior abstenção e rodamos nessa última semana em 14 bairros, manhã e tarde", conta a bióloga Julia Molina, 35.
"Gravamos uma mensagem falando da importância de não entregar o futuro na mão de outra pessoa para decidir. Usamos no fundo base de música que fosse o ritmo da galera no fundo, em geral bases para pagodão".

Pessoas também se mobilizaram individualmente para votar. A mentora e palestrante Bel Alvi, 46, que mora em Maceió, mas não votava havia 14 anos, decidiu viajar para Natal, a 542 km de distância.
"Eu vi uma ameaça real à democracia e resolvi fazer minha parte: percorri 542 km de Maceió à Natal e votei", diz acrescentando que levou também a mãe de 74 para votar, alugando uma cadeira de rodas.
Em Pernambuco, o grupo Feministas com Lula também se engajou na mobilização, envolvendo mais de 600 mulheres e pessoas não binárias. O coletivo realizou ações nos territórios e promoveu comunicação direta e nas redes sociais.
"Decidimos fazer um grupo de mobilização que iria atrás dos votos brancos, nulos e das abstenções", conta Lara Buitron, comunicadora popular e militante do Fórum de Mulheres de Pernambuco.
"Fizemos material e fomos às ruas e ocupamos as redes para fazer um diálogo centrado no que mudaria na vida das mulheres."

Reportagem
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