Pele de tilápia, diabetes e IA: os finalistas do Nordeste no Prêmio Na Prática
Leonardo Martins, 20 anos, de Sergipe, Lucas Guimarães, 25, potiguar que estuda no Ceará, e Rômulo Duarte, 21, da Paraíba, disputam nesta terça-feira, 20 de outubro, o título da Região Nordeste no Prêmio Na Prática 2026.
Os três estão entre os 15 finalistas escolhidos entre mais de 9 mil inscritos, e quem vencer ganha uma imersão de uma semana na China.
Todos desenvolveram suas pesquisas em universidades federais: UFS, UFC e UFPB. Um transformou o próprio diabetes em startup, outro investigou em nível molecular o curativo de pele de tilápia e o terceiro corrigiu uma falha de IAs usadas em exames de imagem.
Como funciona o Prêmio Na Prática
Criado em 2025 pelo Na Prática, plataforma de carreira da Fundação Estudar, o Prêmio Na Prática Protagonismo Universitário reconhece estudantes que se destacam dentro e fora da sala de aula à frente de projetos com impacto econômico, social ou tecnológico. A segunda edição recebeu mais de 9 mil inscrições de todo o país.
A seleção é feita por região, de acordo com o estado onde o candidato estuda. Cerca de 1,6 mil inscritos passaram pela triagem inicial e 500 seguiram para entrevistas e testes de raciocínio lógico. Uma banca regional com 50 candidatos definiu os 15 finalistas, três por região. Treze deles estudaram em escola pública ou em escola particular com bolsa.
Nesta semana, os finalistas participam de uma imersão em São Paulo, com curso de liderança, visitas a empresas parceiras e apresentação a uma banca de especialistas e executivos. Cada região terá um vencedor, e um dos cinco recebe também o título nacional. Os premiados viajam por uma semana à China, com custos pagos, para conhecer o ecossistema de inovação do país. Os vencedores da primeira edição passaram por Pequim e Xangai, com visitas a empresas como a Alibaba e a centros de saúde e robótica.
O prêmio tem apoio do BTG Pactual e da Suzano. A EXAME é parceira de mídia da premiação.
Uma hora de antecedência contra a hipoglicemia
Leonardo foi diagnosticado com diabetes tipo 1 aos 4 anos e escolheu Medicina por causa disso. Hoje estuda na Universidade Federal de Sergipe e fundou a Hypo Predict, startup que usa inteligência artificial para prever hipoglicemias com até uma hora de antecedência. As ferramentas atuais costumam avisar com cerca de 15 minutos.
O algoritmo foi treinado com 350 mil dados de pacientes reais, em parceria com o hospital universitário da UFS, e os alertas chegam por WhatsApp. Já foram mais de 500 avisos enviados. A startup captou R$ 300 mil em editais de inovação e foi habilitada no Laboratório InovaSUS, do Ministério da Saúde.
“Ver uma ideia que nasceu de um problema que enfrento desde criança alcançar esse nível de reconhecimento é algo muito importante para mim”, diz Leonardo.

Dados parados havia cinco anos e um curativo de tilápia
Lucas cresceu em Venha-Ver, no Rio Grande do Norte, cidade com menos de 5 mil habitantes. Ainda no ensino técnico do IFRN, construiu em dupla uma pulseira que vibra no ritmo da música e permite que pessoas com deficiência auditiva toquem instrumentos de percussão.
Hoje estuda Medicina na Universidade Federal do Ceará, onde o Projeto Tilápia já tratou mais de 500 vítimas de queimaduras com curativos feitos com pele do peixe. No grupo de proteômica, área que estuda as proteínas produzidas por uma célula ou organismo, Lucas recebeu dados de um estudo com camundongos tratados com o curativo. Eles estavam sem análise havia mais de cinco anos.
Ele estudou bioinformática, criou um método do zero e mapeou mais de mil proteínas. Identificou as que estão ligadas aos bons resultados do curativo: fechamento mais rápido da ferida, menos dor e melhor cicatrização. Entre elas está a Anexina A1, associada ao controle da dor e da inflamação.
Lucas também escreveu manuais para ensinar a análise a outros pesquisadores. O trabalho ajudou a aprovar uma nova bolsa de pesquisa em proteômica aplicada à oncologia e a ampliar o grupo em mais de 15 pessoas.
“As universidades públicas têm ótimos pesquisadores que só precisam de mais oportunidades”, diz Lucas.

Quando o implante engana a IA
Rômulo estuda Ciência da Computação na Universidade Federal da Paraíba e chegou às instituições por onde passou com bolsas de estudo. Sua principal pesquisa é com a Universidade da Pensilvânia e é aplicada na Penn Medicine, rede de saúde que atende 5 milhões de pacientes por ano.
Ele trabalha com modelos de IA que delimitam o tecido mamário em exames de ressonância magnética, etapa usada para detectar sinais de câncer. Mesmo entre os mais avançados, esses modelos tinham desempenho bem pior em mulheres com implante mamário, cerca de 35 milhões no mundo, porque a prótese distorce a imagem. Rômulo ajudou a montar a base de exames com a marcação correta e a ajustar os modelos. A melhora nesse grupo passou de 15%.
Antes, foi desenvolvedor líder do Cacto, plataforma usada por auditores fiscais da Secretaria da Fazenda da Paraíba. Ficou responsável pela arquitetura e pela reestruturação do código, que reduziu em 88% o tempo de preparo de cada versão do sistema.
“Foi ali que aprendi a construir tecnologia que gera impacto público de verdade”, diz Rômulo.
Nos três casos, a pesquisa começou por uma pergunta que ninguém tinha respondido até o fim.
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