Militares preveem ação contra facções com Flávio e temem base dos EUA

O eventual emprego de militares na segurança pública para combater o crime organizado tem sido debatido entre generais do Exército há cerca de dois anos. O comandante Tomás Paiva é um dos entusiastas da cooperação para a segurança —sem necessariamente colocar tropas na rua, mas com auxílio de inteligência e equipamento militar.
A previsão tem como base discursos de Flávio Bolsonaro e de seus aliados e seu plano de governo, que coloca segurança pública e combate a organizações criminosas como um de seus focos numa eventual vitória na corrida presidencial.
O UOL conversou com cinco oficiais-generais. Eles destacam que o avanço do narcotráfico no país tem ganhado atenção do Centro de Inteligência do Exército porque afeta a soberania nacional e mobiliza esforços nas fronteiras do Brasil.
Uma parte desses militares destaca que não cabe às Forças Armadas o protagonismo no combate aos grupos criminosos. Eles defendem, porém, que o emprego militar num contexto de cooperação institucional pode ser bem-sucedido.
Fronteira
O Centro de Inteligência do Exército tem feito apresentações no Quartel-General de Brasília para subsidiar o Alto Comando do Exército. Segundo os levantamentos, o Brasil exporta quase 300 toneladas de cocaína por ano. A droga é produzida pela Bolívia, Colômbia e Peru e passa pela fronteira do Brasil até ser enviada a outros continentes.
A Força vê necessidade de aumentar a vigilância das fronteiras para combater o tráfico. Enxerga, porém, dificuldade de atuar sozinha na região porosa de mais de 16 mil km de distância. Quer auxílio de outras forças de segurança.
O plano de governo de Flávio Bolsonaro trata do assunto de forma genérica. Diz que vai criar o "Sistema Nacional de Fronteira", equipando as Forças Armadas com "armas de guerra, inteligência e tecnologia" para criar um "paredão na fronteira".
"Fuzis e drogas que abastecem 100% das facções serão interceptados por terra, pelos portos e pelo espaço aéreo. Vamos desorganizar o crime organizado e asfixiar o crime física e financeiramente", completa.
Os oficiais-generais consultados também destacam que a experiência da intervenção federal no Rio de Janeiro, no governo Michel Temer, serviu de exemplo da ineficácia de uma ação estatal pontual, sem continuidade.
A cúpula do Exército entende que a ação no Rio teve sucesso, com redução da circulação de drogas e mapeamento dos canais logísticos das facções. Com o fim da intervenção, na visão desses militares, a criminalidade foi retomada no estado.
Estados Unidos
Os oficiais-generais ouvidos pelo UOL dizem que a diplomacia militar entre Brasil e Estados Unidos não sofreu abalos com as crises entre os governos de Lula e Donald Trump. Eles também afirmam não ter sofrido pressões dos americanos pelos canais entre as duas Forças Armadas para uma intervenção contra o Brasil.
Em sentido oposto, o Exército manteve as previsões dos exercícios militares conjuntos entre Brasil e EUA.
A cúpula da Força vê na classificação de PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas pelo governo americano um plano para possibilitar o emprego das Forças dos EUA no território brasileiro, numa cooperação militar.
Há dois cenários possíveis, de acordo com esses militares, analisando a ação militar do governo Trump na América do Sul e considerando uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro na disputa presidencial.
Em um deles, o Brasil pode autorizar uma ação coordenada na faixa de fronteira com os americanos. Nesse cenário, o Exército brasileiro comandaria as ações e contaria com o apoio das forças americanas, como costuma ocorrer nos exercícios militares combinados entre os dois países. A cúpula militar brasileira, por maioria, não vê problema nesse tipo de cooperação.
Em outro cenário, considerado preocupante, os militares americanos podem considerar a instalação de uma base militar dos EUA no Brasil, como tem sido avaliado na Colômbia. Oficiais-generais veem nessa possibilidade um risco à soberania nacional.
Reportagem
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