Cores e samba. O polarizado carnaval eleitoral de São Paulo

Flávio reuniu apoiantes, muitos vestidos de verde e amarelo, na Avenida Paulista e foi aplaudido ao prometer libertar o pai. Sambistas fizeram evento a favor de Lula — e contaram com Erika Hilton.
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É a avenida mais conhecida de São Paulo. Este domingo, deambulando pela Avenida Paulista, Roberto Pena segurava um retrato de Jair Bolsonaro, o antigo Presidente do Brasil. “Flávio vai recuperar o legado do pai. Com certeza. Com Bolsonaro estávamos melhor. Lula roubou o Brasil, ele e a quadrilha de satanás dele”, diz ao Observador. Convicto e sem dúvidas sobre o seu sentido de voto nas eleições, Roberto é um dos milhares de apoiantes que se juntaram para dar força à candidatura de Flávio Bolsonaro pelo Partido Liberal (PL).
As cores dominantes na Avenida Paulista eram o verde e o amarelo, cores da bandeira brasileira. Num domingo soalheiro quente com algumas nuvens, muitos apoiantes da família Bolsonaro estavam vestidos com a camisola da Seleção do Brasil, algo que se tornou um símbolo visual do bolsonarismo. No entanto, o candidato presidencial não estava com as cores da canarinha. Em vez disso, Flávio Bolsonaro estava com uma camisola verde com a inscrição bloco 22. Esta iniciativa tem, aliás, percorrido o Brasil todo, lembrando os famosos bloquinhos do Carnaval brasileiro.
▲ Milhares de pessoas encheram a Avenida Paulista
Anadolu via Getty Images
A cerca de cinco quilómetros dali, na tarde deste domingo, milhares de pessoas estiveram reunidas na iniciativa organizada pela Frente Progressista do Samba. Também se viam algumas camisolas amarelas e da seleção, mas a cor dominante era o vermelho, sempre associado ao Presidente brasileiro, Lula da Silva. Os sambistas paulistas fizeram uma iniciativa de apoio ao candidato do Partido dos Trabalhadores (PT), em que esteve presente a deputada — e a nova coqueluche da esquerda brasileira — Erika Hilton.
“Vim aqui porque o samba é de esquerda. Sempre foi. É um movimento da rua, das mulheres negras e de inclusão. Não queremos Bolsonaro na presidência outra vez”, assinala, ao Observador, Samara Romão, uma estudante de 23 anos que marcou presença no evento e que participa anualmente no Carnaval de São Paulo. Ainda que a cidade não tenha a fama do Rio de Janeiro, tem organizado desfiles cada vez mais ambiciosos, havendo uma forte ligação a bairros operários e à comunidade negra.
▲ Evento no Largo da Banana organizado pela Frente Progressista do Samba
José Carlos Duarte
Nos dois eventos, os cânticos contra os adversários foram uma constante. “Lula ladrão, o seu lugar é na prisão” e “Bolsonaro vai tomar no c*” foram várias vezes entoados nos dois eventos. Num Brasil polarizado e profundamente dividido, os apoiantes dos dois candidatos apostam sobretudo nas críticas ao rival, num clima de antagonismo crescente. De um lado, critica-se o historial do atual Presidente e dos processos de que corrupção em que esteve envolvido. Do outro, acusa-se Flávio Bolsonaro de ser um fantoche do pai e lembra-se a má gestão durante a pandemia de Covid-19.
Flávio assume que quer receber a faixa do pai. Apoiantes aplaudem: “Foi Alexandre de Moraes quem prendeu Bolsonaro”
No bloco 22, Flávio Bolsonaro faz um discurso relativamente curto. Ao lado do deputado Nikolas Ferreira — que organizou esta iniciativa e que, aos 30 anos, se tornou uma das vozes mais influentes da direita radical brasileira — o candidato explica que quer “poupar a voz”. Dentro de algumas horas, também em São Paulo na sede do canal de televisão Band, irá enfrentar o rival. “Não vou perder a oportunidade de esfregar os crimes contra a nossa nação ao vivo”, promete, recebendo um forte aplauso.
Na Avenida Paulista, Flávio Bolsonaro é recebido quase como o vencedor da segunda volta das eleições presidenciais brasileiras, marcadas para o próximo domingo, dia 25 de outubro. Há uma elevada dose de confiança. Ao Observador, Viviane Lemante, de 49 anos, que veio de Itapecerica da Serra (nos subúrbios de São Paulo), frisa que está mais gente do que “imaginava” e que isso reflete a vontade de mudança dos brasileiros. “Já estive na Paulista em outras manifestações pró-Bolsonaro, mas está mesmo muita gente. Acho que a gente está farta do PT e do sistema montado pelo Lula. Vamos ganhar.”
▲ Apoiantes de Flávio Bolsonaro na Avenida Paulista
NurPhoto via Getty Images
Em cima do autocarro negro em que discursou, Flávio Bolsonaro já prevê que, no domingo, o Brasil vai virar uma “página triste”: “São só mais sete dias para a gente livrar o Brasil do PT”. O candidato do Partido Liberal já tem, aliás, um plano. Em janeiro de 2027, prevê que seja o pai a passar-lhe a faixa de Presidente da República, sendo que Jair Bolsonaro cumpre atualmente uma pena de 27 anos e três meses de prisão pela invasão da Praça dos Três Poderes há três anos e meio.
É a promessa central de Flávio Bolsonaro nesta campanha: conceder um indulto presidencial ao pai. Roberto Pena defende ao Observador que o antigo Presidente “sempre foi inocente”: “O mito [designação que os bolsonaristas usam para designar Jair Bolsonaro] nunca fez nada de mal. Foi perseguido politicamente”. Na Avenida Paulista, aliás, há bancas que vendem t-shirts com as inscrições: “Patriota não é vendido! Amnistia já”.
Além de roupa, vários vendedores ambulantes vendem muitos outros produtos: bandeiras brasileiras, camisolas da seleção, retratos de Jair Bolsonaro, comida (com churrasquinhos de carne grelhada), água de coco, pipocas e refrigerantes. Perto do Museu de Arte de São Paulo, há também três atrações. A principal? Um boneco insuflável de Lula da Silva vestido de presidiário. Uma mulher comenta que está bem colocado e atira para o ar: “Naquele prédio ao lado, há muitos petistas safados.” Um jovem passou por ela e corrigiu-a: “Petista safado é um pleonasmo. Petista já significa ser safado.”
▲ Boneco insuflável de Lula da Silva foi um ponto de paragem na Paulista
Anadolu via Getty Images
Para muitos dos apoiantes da família Bolsonaro, o Presidente brasileiro é visto como um “criminoso”. Aécio Novaes, que veio com a filha de três anos para a Paulista desde Guarulhos, indica ao Observador que se deslocou para demonstrar a sua revolta contra Lula da Silva: um “ladrão” e “corrupto” que “roubou o Brasil”. “Devemos eleger Flávio como Presidente no próximo domingo. Estou aqui porque acredito no potencial do Brasil”, frisou.
Durante a campanha para a segunda volta, Flávio Bolsonaro tem intensificado as críticas a Lula da Silva. Os ataques são uma constante na estratégia do candidato, que ficou bem patente no debate deste domingo na emissora Band. “Além da mentira, a corrupção é marca dos seus mandatos”, atirou o filho de Jair Bolsonaro a Lula da Silva, acusando-o de roubar “cinco milhões de reformados”. “O Brasil vai reformar-te”, preconizou, acrescentando: “Não vai ter mais roubalheira de velhinho.”
Além de Lula da Silva, existe outro vilão assumido na campanha do candidato do Partido Liberal: Alexandre de Moraes. O magistrado do Supremo Tribunal Federal (STF), o juiz relator do processo que resultou na condenação de Jair Bolsonaro a 27 anos e três meses de prisão, é encarado como um “satanás”. “Xó Satanás”, via-se, este domingo, num cartaz do juiz na Avenida Paulista.
Enérgico e aos gritos, no bloco 22, Flávio Bolsonaro acusa diretamente Alexandre de Moraes de “perseguir adversários políticos”, o que cria uma “insegurança jurídica no país”. Entre os apoiantes na Avenida Paulista, essa opinião é transversal. “Alexandre de Moraes é um adversário do povo brasileiro e aliado do Lula”, critica Aécio Novaes. “É um homem que não tem vergonha nenhuma na cara e que quis prender Bolsonaro porque não gosta dele”, subscreve Viviane Lemante.
▲ Cartaz contra Lula da Silva e Alexandre de Moraes
NurPhoto via Getty Images
Para os apoiantes, não há dúvidas de que a prisão de Jair Bolsonaro foi um processo motivado por questões políticas. Ao Observador, Edvaldo Gomes concorda com essa ideia: “Foi uma perseguição política, não tenho qualquer dúvida”. O homem de 55 anos veio com um grupo de amigos e a mulher, Teresa, do estado da Bahia no nordeste — uma região que é um dos bastiões da esquerda brasileira.
“Somos do Nordeste, sabemos que lá o Lula ganha. Viemos de Camaçari. Somos apoiantes do Bolsonaro, achamos que deve ganhar. Estou seguro de que vai certamente ganhar. Quisemos vir para demonstrar o nosso apoio”, reforça Edvaldo Gomes, admitindo que na região onde vive “apoiar o Bolsonaro não é bem visto”. “Queríamos também demonstrar que há bolsonaristas baianos”, destaca.
Juntando pessoas de todo o Brasil, com este ato partidário, o movimento liderado por Jair Bolsonaro procurou fazer uma demonstração de força, respondendo ao grande evento de Lula da Silva na semana anterior também na Avenida Paulista. Segundo estimativas da imprensa brasileira, a manifestação reuniu cerca de 72 mil pessoas, chegando a 80 mil no seu pico. Um dos momentos que mais entusiasmaram os manifestantes ocorreu no alto de um dos edifícios: ao ser percebido pela multidão, um dos snipers da polícia fez um gesto explícito de apoio a Flávio Bolsonaro.
▲ Bandeira no Brasil na Avenida Paulista
AFP via Getty Images
Sambistas quiseram tomar posição. “Os sambistas são de esquerda”
Barra Funda. É neste bairro no oeste de São Paulo — conhecido pela sua vibrante vida cultural e noturna — que estão concentradas as principais escolas de samba na cidade. Foi lá que, este domingo à tarde, mais concretamente no Largo da Banana, a Frente Progressista do Samba organizou o evento de apoio ao Presidente brasileiro, que começou numa rua ladeada de bares e foi acompanhado pelo Observador. Não há dúvidas de que se trata de uma iniciativa a favor de Lula da Silva: há várias pessoas que usam camisolas vermelhas do PT e até algumas com a cara do chefe de Estado.
Uma delas é Alyson Velho, de 25 anos, vestido com uma camisola com o rosto do atual Presidente. “Sou fã do Lula. Acho que foi o melhor Presidente de sempre do Brasil. Sou aqui da Barra Funda e quis vir demonstrar o meu apoio, mesmo não sambando”, afirma ao Observador. “É importante mobilizarmo-nos e mostrar que esta corrida não está perdida”, salienta.
No Largo da Banana, há música em todo o lado. E também várias bandeiras: uma de cor vermelha e outras com inscrições da campanha do Lula da Silva. O vermelho é a cor preponderante dos presentes no evento, mas também há quem tenha escolhido a camisola da seleção brasileira. Nas redes sociais, o atual Presidente tem aconselhado os seus apoiantes a usarem as cores da canarinha — e a não deixarem que Flávio Bolsonaro a use como símbolo.
▲ Sambistas com bandeiras vermelhas e de Lula no Largo da Banana
José Carlos Duarte
“O verde e amarelo é nosso, não deles”, assegura ao Observador Rafaela Marcondes, que vestia uma camisola da seleção brasileira. “Para mim, os bolsonaristas querem mostrar-se como defensores da pátria ao usar essa camisola, mas depois querem vender o país e destrui-lo”, acusa a mulher de 43 anos, que mora na Barra Funda e que já participou em carnavais no passado.
Num cântico bem animado e acompanhado pelo som de tambores, “olé olé olé olá Lula Lula” foi o mais ouvido este domingo, embalando a multidão até um autocarro negro aberto, com uma bandeira com o símbolo da Frente Progressista do Samba, onde discursam várias figuras do samba de São Paulo. Todos estão alinhados numa mensagem: no dia 25, é preciso votar no atual Presidente.
Fábio Araújo, um dos organizadores do Carnaval de São Paulo, enfatiza a importância do evento. “Nós estamos aqui enquanto artistas de arte popular fazendo e resistindo como país que sempre olhou a arte como esmola”, frisa desde o autocarro negro, declarando depois: “Nós somos o terror dos bolsonaristas. Julgam-se espertos, mas têm horror ao pensamento e à reflexão”. “Não vamos permitir que um filho da p*** fascista chegue ao poder.”
▲ Autocarro negro em que discursaram membros do samba de São Paulo
José Carlos Duarte
A mensagem dos intervenientes é clara: o samba “é de esquerda” e nunca pode apoiar um candidato como Flávio Bolsonaro. Maria Helena, apresentada como uma das protagonistas do Carnaval de São Paulo, não tem dúvidas de que o “Carnaval é Lula”. “Foi ele quem avançou com os direitos sociais, educacionais e da saúde”, sublinha, terminando o discurso a cantar um dos hits brasileiros no estilo do samba: Juízo Final. “O sol há de brilhar mais uma vez/A luz há de chegar aos corações/O mal será queimado/A semente, o amor será eterno novamente.”
De todos os presentes, Flávio Bolsonaro é alvo de duras críticas: é chamado de “criminoso”, “fascista”, “assassino” (pelas mortes durante a pandemia de Covid-19), “miliciano” e “vaquinha de Vorcaro”, numa alusão ao empresário Daniel Vorcaro, um banqueiro detido que está num centro de escândalo financeiro. A campanha e os apoiantes de Lula da Silva adotaram uma estratégia de criticar duramente o candidato do PL, denunciando os perigos que significa o filho de Jair Bolsonaro no poder. “Vai cortar o salário mínimo, nas pensões e na cultura”, denunciou Fábio Araújo.
No debate da Band, neste domingo à noite, Lula da Silva replicou várias destas acusações. Acusou Flávio Bolsonaro de ser “mais mentiroso do que o pai”. “Miliciano” foi outro dos ataques, assim como fez questão de denunciar as ligações do rival a Daniel Vorcaro — o candidato do PL é suspeito de ter pedido financiamento ao empresário caído em desgraça para fazer um documentário sobre o pai.
No Largo da Banana, quando já se faz sentir o lusco-fusco, após vários discursos, ouve-se o aplauso mais forte. Erika Hilton, a deputada que é uma estrela em ascensão na esquerda brasileira, marca presença no evento. A mensagem não destoa dos seus antecessores nas críticas contra Flávio Bolsonaro: “O Brasil não retrocederá na sua democracia. Não vamos aceitar mais fascista miliciano.”
▲ Deputada Erika Hilton foi um das presentes no evento
José Carlos Duarte
Além das críticas, a deputada transgénero do PSOL apela aos presentes que convençam quem não foi votar no dia 4 de outubro para o fazer desta vez. E revela outra das estratégias da campanha de Lula da Silva, que está em desvantagem nesta segunda volta por ter perdido a primeira: convencer abstencionistas a votar no atual Presidente. “Sigam na luta. Sigam e ajudem aquela mãe solo e enferma que não conseguiu votar a ir. Temos de ter noção do tamanho da responsabilidade.”
“Está na hora da virada”, termina Erika Hilton, que recebe outro forte aplauso — e até gritos de “Presidente”. No Largo da Banana, já de noite, o autocarro negro começa a deslocar-se rumo à Rua do Samba, onde se concentram várias escolas de dança. É ali que o evento termina. O palco está montado e haverá um concerto de samba com vários artistas — numa réplica do Carnaval em outubro.
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