‘Ali não era o meu caminho’: a advogada que deixou a KPMG e fez carreira com o que não se vê
A roupa, o cosmético, o alimento, o carro. Também a tecnologia que permite uma entrevista por vídeo. Para Karina Haidar Müller, todos esses itens carregam algo que não aparece à primeira vista. "A propriedade intelectual está presente em tudo o que a gente faz no dia a dia", diz.
Karina chegou a essa percepção depois de deixar o direito tributário, área em que começou a carreira e na qual passou pela KPMG. Hoje, com quase 30 anos dedicados à propriedade intelectual, ela é sócia-fundadora do escritório Müller Mazzonetto e conselheira da dataREVENUES. Também está na reta final do ABP-W (Advanced Boardroom Program for Women), programa da Saint Paul que prepara mulheres para conselhos de administração.
Da KPMG ao estágio que mudou o rumo
Karina começou como estagiária em um escritório butique de direito tributário e depois foi para a KPMG. "Quase me joguei da janela", diz. "Direito tributário é muito importante na vida de uma pessoa, porque ele segue a gente até o final, mas eu sabia que ali não era o meu caminho", completa.
Ela decidiu continuar no direito e conseguiu um estágio em propriedade intelectual. "Me apaixonei e acabei seguindo nessa carreira", diz. Logo depois da formatura, fez mestrado em direitos de propriedade intelectual na Espanha.
A escolha do país teve uma razão prática: Karina estudou em um colégio espanhol no Brasil e já dominava o idioma.
De volta ao Brasil, trabalhou por uma década no escritório Gusmão & Labrunie. Em 2011, fundou o Müller Mazzonetto com a sócia Nathalia Mazzonetto, escritório que acaba de completar 15 anos. Além disso, também presidiu a LES Brasil entre 2020 e 2021 e integra o conselho da entidade desde 2022
Hoje, Karina atua com estratégia de ativos intangíveis, licenciamento e comercialização de tecnologia. Ela tem interesse especial em tecnologias verdes, sustentabilidade e economia circular.
Do escritório ao conselho
Por muito tempo, Karina pensou em fazer uma formação para conselhos. Ficou dividida entre o IBGC e a Saint Paul, mas três fatores pesaram a favor da Saint Paul: a liderança de Christiane Aché, diretora do ABP-W, o módulo internacional e o desenho do programa.
A decisão veio depois de uma formação em ESG de quatro meses que ela cursou na própria escola no ano passado. Segundo Karina, o curso abriu um olhar de stakeholder sobre temas que ainda são tratados de forma árida nas discussões de conselho. "Depois que eu fiz a formação, eu me animei a participar do processo de seleção", diz.

Karina Haidar Müller, sócia-fundadora do Müller Mazzonetto e conselheira da dataREVENUES
Ainda estava terminando o curso de ESG quando fez a entrevista com Christiane. Foi aprovada para a turma C19, que começou há cerca de um ano. "Para mim tem sido uma experiência humana, sobretudo", diz.
Ética, economia e um olhar mais amplo
O programa tem módulos de gestão integrada de riscos, transformação digital e organizações orientadas por dados e inteligência artificial. Karina diz que nenhum deles mudou especificamente sua forma de ver os intangíveis, mas algumas aulas mudaram a forma como ela olha para as coisas.
A primeira foi a de ética, com Claudia Pitta. "É uma aula que eu acho que tem que ser a base de tudo", diz. A segunda foi a de economia. "A economia, bem ou mal, fala de valor", afirma. Para ela, entender melhor os índices econômicos e como a engrenagem funciona no fim das contas abriu sua perspectiva.
Karina também destaca as palestras que encerram cada dia de aula, em especial a de Denise Rios, que ela chama de "a grande musa da sustentabilidade". Segundo ela, a palestra trouxe um olhar mais holístico sobre o mundo.
O valor que não está no currículo
Perguntada sobre o que mudou mais rápido desde o início do programa, Karina não fala das empresas nem do currículo das alunas. "O que aconteceu mais rápido foi uma conexão brutal entre todas", diz.
Ela atribui essa conexão à forma como Christiane conduz o início do curso. As alunas são levadas a mostrar as próprias fragilidades a um grupo de quase 40 mulheres já na primeira aula. "Se você conseguir se abrir, você tem um olhar mais humano, uma para a outra, e eu vejo isso no meu dia a dia com essas mulheres", comenta.
Karina diz que o diploma do ABP-W pesa mais hoje do que pesava para as primeiras turmas. Ela usa um termo do próprio ofício para explicar:
"Você tem um intangível maior quando fala do ABP-W"Karina Haidar Müller, sócia-fundadora do Müller Mazzonetto e conselheira da dataREVENUES
Para ela, dez anos de consistência transformam a formação em uma chancela. Uma chancela ligada a uma pessoa que, nas palavras dela, "saiu botando facão para abrir caminhos" para mulheres no mundo dos conselhos.
Karina construiu a carreira em torno do que não se vê. O que ela leva da formação também não aparece em nenhum certificado. "Essa transformação da conexão que a gente faz aqui, a gente leva para onde a gente for”, finaliza.
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