Fernando Fernandes diz que se tornou atleta por ego: 'Fui rotulado como incapaz e não aceitei'

Fernando Fernandes, de 45 anos, acaba de estrear a série documental Entre o Céu e o Inferno. Avaliando a si mesmo como mais maduro, o apresentador e atleta paralímpico conta em cinco episódios da obra do Globoplay sua história de ex-modelo de uma das principais grifes do mundo a referência no esporte adaptado no Brasil após um acidente de carro, em 2009.
"A gente começa a abrir nossas fragilidades quando se sente seguro de quem é", acredita ele, que também aborda seus sucessos e frustrações profissionais desde o ocorrido. "Tenho plena consciência e aceitação de tudo que aconteceu, e eu me desprendi do meu passado. Lido muito bem com o que eu vivi. Minha vida é muito bem vivida, entre erros e acertos", garante.
O ex-brother do BBB 2 dirigia pela Avenida República do Líbano, na Zona Sul de São Paulo, quando dormiu ao volante sem cinto de segurança. O veículo bateu contra uma árvore e o impacto rompeu duas vértebras de sua coluna. O acidente resultou em uma lesão medular que o deixou paraplégico.
Nos episódios, Fernando visita os lugares que marcaram sua vida — da praia onde foi descoberto pelo icônico fotógrafo Mario Testino ao hospital de reabilitação Sarah Kubitschek, do Lago Paranoá, onde remou pela primeira vez, às dunas do Ceará onde vive hoje — e relembra nos cenário dos acontecimentos cada capítulo de sua história. Para ele, revisitar os locais em um ano de filmagens foi uma experiência "curiosa", e não dolorosa.
"A série me fez revisitar meu passado de uma forma que até então eu não tinha feito. Toquei minha vida, entendi meus erros e acertos lá de trás. Encarei eles de frente, mas nunca trouxe essa lembrança de uma forma tão clara, de ficar esmiuçando. É óbvio que muitas coisas lá atrás eu queria ter feito de forma diferente, mas a gente não tem essa chance. A única chance que a gente tem é de pegar tudo isso e aprender a ser um ser humano melhor, e eu acho que isso eu tenho feito com muita clareza", acredita.
Vaidade como motivação para o alto rendimento
O esporte tem destaque na série, que mostra a São Silvestre disputada seis meses depois do acidente, numa cadeira de rodas emprestada e com as mãos em carne viva; o título mundial de paracanoagem conquistado na Polônia apenas um ano após a lesão; a expedição ao Xingu; a frustração de ficar fora das Paralimpíadas do Rio; e a volta por cima como comunicador e aventureiro, com feitos como o sobrevoo do Cristo Redentor de paramotor e o salto de paraquedas solo — o mesmo que quase o matou 12 anos antes — na abertura do No Limite.
"O esporte sempre fez parte da minha vida, muito mais do que a moda. A moda era meu ganha-pão, onde eu fazia meus trabalhos por não ter conseguido viver do esporte", admite ele, que fez da vaidade uma oportunidade para realizar seus antigos sonhos profissionais. "O que me fez me tornar campeão mundial com apenas um ano e meio de lesão foi ter mexido um pouco com meu ego, de ver que a sociedade me rotulou como incapaz, como inválido, e eu não aceitei aquilo", conta.
Referência de beleza na época do acidente, Fernando diz que sua reconstrução física com limitações foi fácil se comparada à reconstrução da própria identidade. Novamente, a vaidade foi um combustível.
"Meu maior conflito não era me encarar no espelho porque por mais que eu estivesse sentado, no hospital, sempre tive uma confiança muito grande em mim, na vida e no futuro. A maior relação de vaidade está ligada ao que os outros vão pensar de você", acredita.
Dois dias após sair do hospital, Fernando pediu ajuda ao pai para o acompanhar pela vizinhança até uma loja de materiais esportivos para "enfrentar o mundo" e os olhares. "Esse momento foi muito importante pra mim porque sentei na cadeira e as pessoas que me viram sair da minha casa andando, me viram sair sentado e tentando viver uma vida normal. Ali eu vi que estava tudo na minha mão, que tudo dependia da minha relação comigo mesmo, e o que eu sentisse de mim era como eu iria lidar com o mundo, e ali eu me aceitei", relembra.
Contribuição social com sua condição
Aceitar a nova vida foi um empurrão para a mudança de carreira. "O que eu perdi está perdido. Tive que encontrar novas maneiras, novos meios, dentro daquela bagagem de vida e me readaptar para o novo mundo", avalia.
A partir dali, o Brasil o viu em situações perigosas. Segundo ele, a maior motivação de assumir riscos foi usar sua imagem e sua história para contribuir para a mudança do ponto de vista da sociedade sobre limitações de pessoas com deficiência.
"Entendi que a minha transformação estava transformando a vida de uma porrada de gente. Me expus tanto ao risco de morte porque sabia que aquilo tinha um sentido. Seja na canoagem, saltando de paraquedas, voando de paramotor, onde passei lambendo o chão da morte, o propósito que eu tinha sempre me deixou muito forte", justifica.
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