"O Veredito Social": política contra o Facebook e pouco mais

Entre A Rede Social, realizado por David Fincher com argumento de Aaron Sorkin, em 2010, e a continuação, O Veredito Social, agora escrita e filmada apenas por Sorkin (que há alguns anos tinha dito que nunca continuaria A Rede Social se Fincher não fosse o realizador), o mundo, e o mundo digital, mudaram dramatica e vertiginosamente. A Rede Social é um filme que lida com a atribuição da “paternidade” do Facebook. O Veredito Social é um filme muito mais político, em que Sorkin pretende denunciar o lado negro do Facebook e a sua nocividade (e, por extensão, de todas as redes sociais) para as pessoas, a sociedade e a política.
[Veja o “trailer” de “O Veredito Social”:]
Aaron Sorkin dramatiza o caso de uma ex-funcionária do Facebook que passou de fervososa devota da rede a sua inimiga figadal, a engenheira Frances Haugen. Em 2021, naquilo a que ficou conhecido como “The Facebook leak”, Haugen passou dezenas de milhares de documentos internos da empresa a Jeff Horwitz, um jornalista do The Wall Street Journal. Estes revelavam como o Facebook estava mais interessado nos lucros do que em monitorizar e contrariar os efeitos deletérios dos seus mecanismos de funcionamento interno, nomeadamente dos algoritmos, e a sua utilização por grupos e movimentos sociais e políticos radicais, ou por organizações criminosas.
[Veja uma entrevista com Aaron Sorkin:]
Haugen tinha feito parte de um programa chamado Integridade Cívica, teoricamente destinado a detectar e combater a desinformação, entre outros problemas. Mas perdeu as ilusões e decidiu colaborar com Jeff Horwitz na série de artigos intitulados The Facebook Files quando percebeu, e como declarou mais tarde no seu depoimento a uma comissão do Congresso dos EUA, que havia no Facebook “conflitos de interesse entre o que era bom para o público e o que era bom para o Facebook. E o Facebook, repetidamente, escolheu optimizar os seus interesses, como fazer mais dinheiro”.
Horwitz (Jeremy Allen White) é um jornalista da área da política e não da tecnologia, pelo que passa o tempo a pedir a Haugen (a excelente Mikey Madison, de Anora), que lhe explique o jargão matemático e técnico que ela debita quando está a mostrar a mecânica interior do Facebook. O jornalista é (também), no filme, o representante do espectador leigo, que precisa que este lhe explique, e troque por miúdos, a complexidade e a gravidade daquilo que está em causa no enredo. O que Aaron Sorkin não consegue fazer completamente. O Veredito Social é, por vezes, confuso, opaco e abstruso, e tem papas na língua, contrariando o consabido talento do realizador e argumentista para os diálogos tão metralhados como sintéticos e explicativos.
[Veja uma entrevista com Mikey Madison e Jeremy Allen White:]
Conseguimos perceber que Sorkin nos quer dizer que o Facebook é deletério e hipócrita, desleixado e irresponsável, calculista e ganancioso (Jeremy Strong sucede a Jesse Eisenberg no papel de Mark Zuckerberg, e a personagem não ganha com isso – Strong parece que engoliu um pau e a sua interpretação é robótica) e que, no seu pior, funciona como um super-catalisador digital das tensões, divisões e frustrações que lhe são exteriores, e de muitos dos seus utilizadores (embora a fita se esqueça dos milhões e milhões de pessoas que o frequentam com conta, peso e medida, critério e de forma positiva). Só que nem sempre consegue explicar como e porquê com a necessária clareza.
O Veredito Social pertence a uma tradição do cinema “liberal” de Hollywood centrada na investigação jornalística de denúncia socio-política com utilidade cívica, que teve como cultivadores nomes ilustres como Sydney Pollack (Ausência de Malícia) ou Alan J. Pakula (Os Homens do Presidente). E que mais recentemente produziu títulos como O Caso Spotlight, de Tom McCarthy, ou The Post, de Steven Spielberg. Mesmo que só pela rama, Aaron Sorkin não deixa de tocar em temas actuais como a crise dos media tradicionais, em especial dos jornais em papel, a informação apenas e crescentemente colhida online pelo público, e a importância vital do jornalismo de investigação feito com fontes sólidas, tempo, meios, paciência e rigor.
[Veja uma sequência de “O Veredito Social”:]
O rigor que Aaron Sorkin retrata e mostra como modelo na personagem de Jeff Horwitz não é, no entanto, plenamente aplicado por ele em O Veredito Social. O filme tem um claro viés ideológico, denotando a ligação do autor aos setores progressistas mais ativistas de Hollywood. Sempre que Sorkin refere a utilização do Facebook por forças e movimentos radicais, restringe-os aos de extrema-direita, omitindo os de extrema-esquerda, tal como deixa em branco o seu uso pelo terrorismo islâmico e pelos regimes totalitários, e a subserviência de Zuckerberg e outros magnatas das tecnológicas às administrações Democratas (e agora vergadas com o mesmo oportunismo ante Trump). E para ele, a culpa do ataque ao Capitólio em 2021 deve-se unica e exclusivamente à negligência do Facebook.
A este reducionismo que, aliás, já era detetável noutro dos trabalhos de registo mais político de Aaron Sorkin, a série Os Homens do Presidente (1999-2006), junta-se um tom insistentemente demonstrativo, que atinge o auge num final “edificante” e “inspirador” em Washington, muito simplista e reconfortante, que prejudica as intenções e enfraquece a mensagem de O Veredito Social. Até o cinema “liberal” ambientado no meio jornalístico já não é o que era no tempo de Sydney Pollack e Alan J. Pakula — e o cupado não é o Facebook.
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