Há obras que só ficam completas na imaginação de quem as vê

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Continuamos a percorrer os corredores da primeira exposição do ciclo Peter Mikher, no Museu Quinta da Cruz, em Viseu. Estão expostas obras de diferentes artistas contemporâneos, reunidos aqui numa mostra que cruza as temáticas do espaço e do lugar. Depois de conhecermos a primeira sala, avançamos agora para a segunda, novamente acompanhados pelo curador da exposição, Miguel Rouge, a quem agradeço novamente. Miguel, que artistas temos aqui representados nesta sala? Estão aqui expostas duas obras.
Sim, temos duas obras, dois artistas diferentes. Primeiro, Mirosław Bałka, com "O Bom Livro Vazio", uma peça do final da década de 80, e temos uma obra de Francisco Tropa, que se chama "O Barco", de 2007. É um artista português que no ano passado teve também uma retrospectiva na Fundação de Serralves. São dois artistas também com grande representatividade na coleção. Por exemplo, o Mirosław Bałka faz parte de um conjunto de núcleos de escultores polacos, que Pedro Alves Ribeiro conhece também um pouco pela sua história pessoal. Ou seja, o Pedro trabalhou no Porto, em Lisboa, depois foi para Madrid e esteve alguns anos na Polónia, e é aí que ele conhece e se apaixona completamente por um conjunto de escultores polacos, e o Mirosław Bałka é um deles.
Disseste o título desta peça, que é "O Bom Livro Vazio". Descreve-nos um pouco, para quem nos ouve, a peça.
Sim, isto são duas chapas de ferro soldadas em dois postes de construção. Mirosław Bałka tem muito isto de utilizar o ferro, utilizar materiais associados à construção, exatamente, industriais. O nome já nos indica alguma coisa: é uma espécie de livro aberto, e ele está um pouco inclinado para baixo, e parece que se constrói um percurso até um recipiente que está vazio. O facto de o artista utilizar o ferro que está oxidado leva-nos para essa questão do tempo. E aqui há uma particularidade muito interessante nesta obra, que é a criação de um percurso, mas o recipiente está vazio. Permite ao espectador observar, pensar e explorar um pouquinho qual é esse corpo ausente, esse líquido ausente que está aqui.
Se há pouco, na primeira sala, falávamos também daqueles artistas e da relação entre as obras que ali encontrávamos, o que é que destacas nesta relação, nesta obra do barco e do livro do artista polaco?
Sim, por outro lado, com esta obra do Francisco Tropa, os dois artistas, trabalhando de forma diferente, aproximam-se neste aspeto de convidar o espectador, através de seu imaginário, a completar a obra. Nesta obra, que se chama "O Barco", temos uma plataforma de madeira que se assemelha a um barco e, neste caso, é ocupada com pó, com terra, e protegida por uma campânula de acrílico. De uma forma um pouquinho diferente, Mirosław Bałka dá-nos esse recipiente, mas que está com um líquido ausente, um corpo ausente. Aqui, o Francisco Tropa ocupa, exatamente, preenche o espaço. A ideia é a mesma, mas trabalham os dois de forma um pouquinho diferente. Enquanto, por exemplo, na obra de Mirosław Bałka, nós temos a questão do tempo com o ferro oxidado, se calhar, metaforicamente, aqui, no barco, temos a questão do pó, a questão da passagem do tempo pelo facto de ser um barco, o barco que anda, que navega, e o pó, que nos pode remeter até para as questões da vida e da morte.
E vamos também nós andando e navegando aqui pelos corredores e entramos, neste momento, numa sala de maior dimensão, onde se têm vários quadros postos de ambos os lados e também uma peça ao centro. Esta talvez seja a sala que tem o maior número de peças, irás confirmar-me. Fala um pouquinho desta sala e que dificuldade é que achaste fazer a curadoria aqui numa sala com mais peças.
Sim, esta sala tem uma particularidade grande, que é ter esta estrutura em cima que mete o pé-direito um pouquinho mais baixo, depois tem uma estrutura paralelepípedica que ocupa bastante e restringe um pouquinho o espaço. Sendo escultura, partindo da exposição, partindo do núcleo de escultura, tivemos que adaptar um pouquinho e pensar as obras através da particularidade do espaço. Aqui temos 16 desenhos de um artista espanhol, que faleceu em 1993, aos 38 anos, de HIV, e ele tem uma obra profundamente autobiográfica. Foi das primeiras personalidades públicas a assumir que era portador da doença, inclusive morreu dessa doença, e tem um artigo muito conhecido no "El País", que lançou a admitir a sua homossexualidade, a admitir a sua doença. Por isso, é uma obra profundamente marcada pela dor, profundamente marcada pela fragilidade e profundamente autobiográfica. Isto é uma série de desenhos que se chama "Pinóquio". Nós conseguimos ver uma espécie de nariz pontiagudo, mas se olharmos com atenção, também são máscaras, ou seja, claramente uma referência à questão de ser homossexual numa sociedade heteronormativa. A questão do nariz pontiagudo pode ser interessante no fato de que ao mesmo tempo que nos protege, que nos esconde, também está pronto para atacar. É essa a questão. E estes 16 desenhos dialogam com duas esculturas de Rui Chafes Rui Chaves é um artista bastante bem representado na coleção. Temos seis obras do artista aqui nesta exposição e aqui temos duas obras de ferro pintadas a negro. Ele utiliza esta espécie de jogo entre o côncavo e o convexo, da mesma maneira que nós nos desenhos conseguimos ver uma espécie de estrutura que sobressai, estas esculturas também têm.
Desculpe interromper. Há aqui novamente essa lógica associada entre os quadros e a escultura e aqui também entre o espaço e estas peças, porque na medida em que quando entramos na sala, as peças que descrevemos estão ao fundo, são as peças de maior dimensão, e também diria que são as que automaticamente uma pessoa ao entrar nesta sala olha e é convidada, eventualmente, primeiro a prestar atenção a estas esculturas. E tudo isso é pensado, essa lógica de percurso?
Sim, exatamente. Por exemplo, na minha posição, eu consigo ver as esculturas do Rui Chaves, consigo ver os desenhos do Pep Espalho, mas consigo também ver o barco do Francisco Tropa, inclusive as pinturas da primeira sala que nós vimos. Por isso esse jogo interligado existe dentro de cada sala e depois entre salas. Quando tinha dito que os diálogos cruzam-se, por exemplo, nós podemos pegar na questão do barco, na questão da morte, da passagem do tempo, aos desenhos do Pep Espalho, por ter falecido, por ter feito estas obras num momento grande de fragilidade. Podemos relacionar, por exemplo, o Rui Chaves, esta estrutura que se assemelha quase a couraças, a uma prótese ou a uma máscara, às próprias máscaras do Pep Espalho. Temos também aqui duas esculturas, objetos esculturas da Ana Jota, uma artista com extrema importância na coleção, uma das mais representadas. E estes são dois objetos, vemos uma espécie de livro e uma bengala, e são como que deixados por alguém que não sabia que não ia voltar. Por isso, mais uma vez, esse pendor da morte, de não sabermos o amanhã e da passagem de tempo.
Vários sentimentos aqui nestas obras, explicações do olhar atento de Miguel Rouge, recordo que é o curador desta exposição e tem nos acompanhado nesta visita. Já estivemos em duas salas distintas, percebemos que há diferentes formas de pensar a relação entre a obra e o lugar onde ela é apresentada e estamos curiosos por saber mais e por isso vamos continuar esta visita à coleção Peter Micker, já no próximo episódio de "A Nossa Cultura", aqui na Rádio Observador Viseu.
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