As lealdades da seita

Desde que começou o descalabro chamado Luís Neves foi sempre muito conveniente para o Governo deixar crescer o argumento que o PS invocava para não só não o criticar, mas para o defender e até elogiar. Segundo as luminárias do PS, Luís Neves era um dos últimos bravos e todas as críticas não passavam de uma cabala da “extrema-direita”. Evidentemente que almas tão puras educadas no mais heróico anti-fascismo não se dispunham a fazer “fretes” à “extrema-direita” e, em conformidade, lá se dedicavam a pôr Neves nos píncaros.
Vamos, por hoje, ignorar a falência moral do nosso tempo que, entre outros feitos, legitima negligenciar injustiças, esquecer corrupções, omitir incompetências e inverter crimes para não fazer “fretes” à “extrema-direita”. No deserto espiritual da Europa tardo-moderna é impossível não andar à deriva. Seja como for, toda a gente percebeu o que estava por detrás desse elogio – e nada tinha a ver com a “extrema-direita”. Luís Neves era um dos “deles”, como se tinha percebido hà muito, e como Neves não deixava de deixar claro nas suas opiniões fundamentais sobre a situação política (desde logo sobre o tema da imigração), sem esquecer a relação privilegiada que tinha com António Costa e o seu círculo. Era uma manifestação de sectarismo igual a tantas outras que mancham implacável e constantemente a vida política nacional.
Acontece que o País nos últimos dias ficou a conhecer o nome Ricardo Carrilho. Normalmente, não estamos familiarizados com os titulares da estrutura do Ministério da Administração Interna, tal como não estamos com os homólogos aproximados noutros ministérios. A fama de Ricardo Carrilho deve-se à exoneração determinada por Luís Neves e a subsequente exposição de acusações da maior gravidade feitas pelo primeiro contra o segundo. Ao ponto a que chegámos hoje, e depois de tantas mentiras, algumas delas proferidas em infames conferências de imprensa, a defesa do Ministro já não pode depender da sua palavra. Ambos dizem que o outro mente. Mas depois de tudo o que se passou cabe ao Ministro desmentir com provas documentais. Menos do que isso terá a mesma validade do chorrilho de indignidades que ouvimos da sua boca nesses momentos de “explicações ao País” que tivemos de sofrer nos últimos meses.
Contudo, algo mais aconteceu nestes dias. A muralha defensiva que o PS colocara à volta de Luís Neves, e a artilharia pesada com que atacou toda e qualquer crítica, desmoronou. O consenso surpreendente do início do Verão foi substituído pela crítica directa, de um lado, e a hesitação silenciosa, do outro – daquele lado que tanto se expusera na defesa de peito feito. E, se sabíamos antes de onde vinha a motivação para a defesa acéfala, também sabemos o que foram as trompetes de Jericó que arruinaram essa muralha. É que Ricardo Carrilho também pertence à órbita do PS. Também ele foi um protegido de António Costa (enquanto MAI). Ora, essas coisas no PS contam e não se esquecem.
Durante 20 anos, o SIRESP foi um escândalo contínuo de disfuncionalidade, desperdício de dinheiros públicos e aproveitamento indevido de muitos que por lá passaram ou simplesmente de lá se serviram. As denúncias estão todas aí para quem quiser saber. Está na hora de essa história nos ser contada como deve ser e do início ao fim. O mesmo vale para as acusações de Carrilho: todas têm de ser seriamente investigadas, como, aliás, as que já tinham sido feitas por António Pombeiro. O que restará disto não será abonatório do Governo onde Neves se incrustou. Mas também não recomendará o PS, cujo critério nunca foi o do interesse nacional, mas a protecção das lealdades à seita. O problema não seria dramático se fosse excepcional. Infelizmente, não é. Em inúmeros e repetidos casos, vemos o mesmo procedimento e a mesma campanha pública de confirmação. Agora que o descalabro Neves atinge a família socialista, os princípios e os critérios são todos revistos, sem prudência nem pudor. Aqueles que nos torturaram com a sua generosidade antifascista no caso Luís Neves que dirão agora? Em coerência teriam de dizer que Ricardo Carrilho faz “fretes” à “extrema-direita”. Mas, não. Vamos vê-los a desdizerem-se, a desconversar e a assobiar para o lado. Até ao próximo escândalo.
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