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Wednesday, November 4, 2026

Paulo Sande: "Trump já se anunciou como Mr. Veto"

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Paulo Santos, bem-vindo também a esta emissão, é especialista em assuntos europeus. Boa noite e obrigado por ter aguardado também para lhe fazer a primeira pergunta nesta emissão. Paulo Santos, de facto, esta é uma eleição que nós já abordamos aqui vários aspectos. Eu gostaria de perceber consigo, alguém que tem este olhar sempre também para o impacto direto para a Europa, a que é que vai estar atento e se acha que, de facto, este é o verdadeiro estado da nação ou estado da liderança de Trump. É exatamente isso que está a votos esta noite, esse possível referendo à presidência Trump?

Boa noite, antes de mais, e obrigado pelo convite. Nós sabemos que em geral, e já foi dito muitas vezes hoje, que nas intercalares normalmente o partido do presidente, seja qual for, acaba por perder lugares e perder bastantes lugares. Isso aconteceu em oito das últimas 10 intercalares. Houve uma exceção em Bush em 2002, também por causa do 11 de setembro, mas isso acontece normalmente. Portanto, desde logo há esse aspecto que é importante. Em segundo lugar, de facto, também é verdade que estas intercalares estão a despertar mais interesse em todo o lado, incluindo nos Estados Unidos, onde assistimos ao chamado early voting, o voto antes.

Voto recorde acima de 50 milhões. Voto recorde.

Um número extraordinário, que significa sobretudo a grande maioria é de democratas, é de eleitores democratas registados como democratas, e portanto isso significa que há uma grande motivação dos democratas para votar, o que obviamente é uma boa notícia para Donald Trump e para o Partido Republicano. Dito isto, é também quase irónico que uma das frases de Trump nos últimos dias, do presidente norte-americano, tenha sido: "Quando votarem, pensem que estão a votar em mim". Portanto, amanhã ou quando os resultados forem conhecidos, vamos saber o que é que as pessoas ao votarem pensaram quando pensaram que estavam a votar em Donald Trump. Dito isto, o que é que interessa digamos assim nesta eleição? É preciso dizer que provavelmente, dependendo obviamente do que acontecer, isso também já foi muito dito, se os democratas vencerem a Câmara dos Representantes é uma coisa, se vencerem a Câmara dos Representantes e o Senado é outra diferente. Em qualquer dos casos, o presidente vai continuar, ele próprio já se anunciou como Mr. Veto, portanto, se perder as eleições, como ele se calhar já assimilou também ou já intuiu também, ele terá outro tipo de presidência. Continuará a fazer muitas das coisas que já fez. E isso é a má notícia se quisermos pensar nessa relação, nomeadamente com a Europa. Não acredito, nem faz sentido nenhum, que ele mude de direção, mude de sentido. Agora esta presidência passa a ser daquilo que se pode chamar de lame duck.

Mas não acha que o Partido Republicano pode pressionar Donald Trump, já com vista às próximas eleições, a adaptar um pouco a política por ter receio de talvez um deslize nas presidenciais de 28?

Não, claro que sim. Uma das coisas que é certa é que amanhã acaba esta eleição, provavelmente também não acabará, como disse e bem, e logo a seguir começa a próxima. Nos Estados Unidos as eleições são permanentes e no dia a seguir à eleição anterior já há candidatos a preparar-se, a tentar arranjar dinheiro, financiamentos, tudo isto que é fundamental nas eleições norte-americanas. Agora, de facto, vai haver uma grande pressão sobre Trump, isso é absolutamente evidente, mas não acredito que seja tanto na dimensão externa. Há obviamente a questão do Irão, a questão das guerras, que é importante, mas não acredito, por exemplo, que seja na relação com a Europa. Na relação com a Europa, apesar de tudo, já há várias presidências, já há alguns anos, que os Estados Unidos se orientaram noutras direções em diferentes aspetos. O facto de este presidente o ter feito de forma tão rude, tão direta, tão, se quisermos até, violenta pelo menos na sua retórica, acaba por não permitir, apesar de tudo dizer que é uma novidade. Não é uma novidade. A verdade é que já há muito tempo que isso acontece e de facto os Estados Unidos sentiram essa orientação. Naturalmente para a Europa, estes resultados vão ser seguidos atentamente e aquilo que se espera é que haja essa moderação. Não sei se vai acontecer, mas a partir daqui, como eu dizia há pouco, essa ideia do lame duck, portanto um presidente que acaba por ter muito pouca margem de manobra, será sobretudo verdade se os democratas conquistarem as duas casas e portanto conquistarem o Senado e a Câmara dos Representantes e portanto conquistarem todo o Congresso. Apesar de tudo a política externa é menos relevante para esse efeito. Provavelmente haverá mais impacto internamente, nomeadamente a nível de investigações que podem ser iniciadas, por exemplo, na Câmara dos Representantes, desde que os democratas vençam a Câmara dos Representantes, como parece que vai acontecer. E aí sim, vai começar a haver problemas para Trump e ele passará provavelmente esses dois anos, ele e a sua família e enfim, toda a sua entourage, se quisermos, a defender-se dessas investigações e a defender-se dessas acusações, que vão necessariamente surgir, provavelmente logo no primeiro dia. Será uma das primeiras coisas que os democratas farão, tendo ganho ou ganhando a Câmara dos Representantes.

Paulo Santos, a que é que vai estar atento esta noite ou já durante esta semana nesses posicionamentos que podem surgir depois desta eleição?

Muito obrigado. Eu peço desculpa de ter de sair, mas esta é de facto uma eleição muito frenética. Há aqui várias incógnitas que eu acho que são muito importantes. Uma delas é saber, apesar de tudo, apesar dessas manifestações aparentes de Donald Trump que poderá aceitar o resultado, há aqui muitas incógnitas. A começar no Alasca e outras onde provavelmente em relação àquilo que é de facto... Eu diria quase que estando por adquirido o facto de que os democratas deverão ganhar a Câmara dos Representantes, e portanto seria uma grande surpresa se isso não acontecesse, a questão do Senado é um bocadinho diferente. Se eles também conseguirem ganhar os quatro lugares que precisam sem perder aqueles que têm que manter, será naturalmente aí sim uma grande vitória. E aí é possível que recrudesça novamente, sobretudo que venha da parte do presidente, uma manifestação não só de desagrado, como até que haja, por exemplo, o caso do Alasca para mim é um caso bastante paradigmático. Há ali questões relacionadas com aquele candidato que seria igual ao candidato republicano e portanto que de alguma forma iria confundir os eleitores. Um tribunal já disse que isso não era relevante, mas nós sabemos que essas coisas podem vir a demorar muito tempo. Pode haver contestação até noutros estados, não sabemos o que vai acontecer.

E pode de facto demorar.

Pode demorar e esse vai ser o ponto, na minha opinião, a que devemos estar atentos nos próximos dias. Vamos ver o que vai acontecer

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