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Tuesday, November 3, 2026

Tentativa de golpe, traições e teste de DNA: a briga pelos bilhões da Unip

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A ligação de Pará com o grupo investigado, descoberta pelo UOL, é o mais novo lance da guerra pela herança do fundador da Unip, uma disputa que envolve brigas familiares, um médico influencer, documentos forjados, uma viúva que nunca foi formalmente casada e um suposto filho afetivo cujo exame de DNA deu negativo.

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Terrenos superfaturados

A viúva de Di Genio, a reitora da Unip Sandra Miessa, diz que o empresário nunca assinou os papéis de compra dos terrenos em Piraju. Segundo ela, seria "absurdo" pensar que o marido investiria onde nem sequer seria possível abrir um campus. Os terrenos ficam em uma área a 300 quilômetros de São Paulo em que são permitidos apenas empreendimentos turísticos ou residenciais.

Um estudo imobiliário contratado pela família Di Genio contesta ainda a avaliação dos terrenos. Ele mostra que há alguns de valor irrisório e outros de, no máximo, R$ 16 milhões.

A Colonizadora Planalto Paulista, que cobra os valores da suposta venda, sustenta ter entrado no caminho do fundador da Unip por intervenção de Luiz Teixeira, 46. Com 47 mil seguidores em redes sociais, o médico influencer diz que era vizinho do então diretor do Grupo Unip-Objetivo, Jorge Brihy. Assim como Di Gênio, Brihy morreu em 2022, aos 81 anos.

Teixeira, um dos alvos de pedido de prisão pelo MP-SP, afirma ter apresentado Brihy ao dono da Colonizadora Planalto Paulista em 2021. Segundo seu relato, Brihy teria sido responsável pelas "tratativas" dos terrenos de Piraju.

Ao tentar transferir os terrenos para Di Genio, o dono da Colonizadora, Anani Candido, alega ter sido informado de que o negócio não poderia ser concluído pois a empresa estava com o CNPJ irregular, conforme relato dele registrado em uma ata de cartório.

O médico Teixeira teria, então, entrado como sócio na Colonizadora em 2023, injetando R$ 20 milhões para regularizar as dívidas do CNPJ e viabilizar o negócio.

Em agosto de 2024, a Colonizadora mandou uma notificação extrajudicial exigindo à família Di Genio o pagamento do suposto acordo. Miessa, a viúva, se surpreendeu e pediu para a administradora compartilhar os documentos originais da negociação, mas não recebeu resposta.

Em janeiro de 2025, uma sentença de um fórum arbitral condenou a família Di Genio ao pagamento da suposta dívida. Miessa foi surpreendida novamente: diz que nem sabia que existia uma arbitragem acontecendo sobre o caso.

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Documentos apresentados pela Colonizadora indicam que as tratativas para a venda dos terrenos teriam começado em 2017 —e não em 2021, como sustenta o médico influencer. O UOL questionou a defesa de Teixeira sobre isso, mas não obteve resposta.

Além disso, de acordo com a análise do Instituto de Criminalística, a qual o UOL teve acesso, foram usadas assinaturas falsas no processo dentro do fórum arbitral. Os acusados, diz a análise, reproduziram rubricas de Di Genio que constam em documentos públicos na Jucesp (Junta Comercial de São Paulo).

A analise indica que o fundador da UNIP, seu cunhado e o diretor Jorge Brihy tiveram as assinaturas forjadas.

A única não contestada foi a assinatura da testemunha do negócio: o ex-policial Rubens Bolorino, amigo do médico influencer Luiz Teixeira.

Afastado da Polícia Civil desde 2004, acusado de improbidade, Bolorino já foi condenado por tráfico internacional. Teixeira também não é neófito em questões com a Justiça. O laudo forjado postado por Pablo Marçal (PRTB) para tentar associar Guilherme Boulos (PSOL) ao uso de drogas nas eleições municipais de 2024 tem a rubrica de uma clínica do médico influencer. A defesa dele nega participação dele no que chama de "controvérsia".

O fórum arbitral onde tramitou o julgamento dos terrenos Piraju também enfrenta outras acusações de golpe.

O UOL procurou Luiz Teixeira, Rubens Bolorino e o dono da Colonizadora, Anani Candido.

A defesa de Teixeira diz que ele não participou das tratativas de Piraju. Em nota, afirma que a decisão judicial que decretou a prisão preventiva do médico será questionada. "A defesa confia que o exame técnico dos documentos originais e o contraditório judicial esclarecerão os fatos", diz.

Bolorino não respondeu. Candido não foi localizado —a reportagem foi até a casa dele, mas não o encontrou. O espaço está aberto a manifestações.

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Elos entre o suposto filho afetivo e os acusados

Estudantes de medicina na década de 1960, Di Genio, Drauzio Varella e outros amigos decidiram abrir um cursinho para o vestibular, o Objetivo. O conglomerado cresceu com a Unip, em 1988, e com a Rádio Mix, em 1989.

O inventário de Di Genio é de ao menos R$ 16 bilhões, mas pode chegar a R$ 100 bilhões, com a atualização do valor de imóveis. Esse patrimônio, segundo a família, atrai "aproveitadores que pretendem, a qualquer custo, obter alguma fatia da herança".

Um dos "aproveitadores" na visão da família seria Bruno Pará.

O administrador de empresas em Bonfim Paulista (SP) diz que é filho de Di Genio e de uma funcionária do Colégio Objetivo na década de 1980. A ação que discute a paternidade começou depois da morte do bilionário, em 2022.

Um exame de DNA feito em 2025 (após a exumação do corpo de Di Genio) deu negativo e, desde então, Pará busca reconhecimento como filho afetivo do empresário —tese de que, a partir da convivência, o vínculo seria equivalente ao de filho biológico.

Pará diz que Di Genio custeou seus estudos e que depositava cerca de R$ 23 mil mensalmente. Para ele, seria uma evidência do vínculo. "Meu marido fazia isso com os filhos dos motoristas, dos amigos, com os sobrinhos, com todo mundo", contestou a viúva Sandra Miessa em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo.

O UOL tentou contato com Pará, mas não obteve retorno.

A partir da análise de documentos de cartório, o UOL constatou que há elos entre Pará e o negócio dos terrenos de Piraju.

Dois advogados ligados ao caso constam como beneficiários do filho adotivo caso ele consiga ser incluído na herança.

O primeiro é Marcelo Barone, advogado de Di Genio responsável pela análise jurídica do negócio de Piraju. Apesar de estar formalmente do lado do empresário na contenda, foi ele quem teria feito o parecer que justificou a entrada de Teixeira na Colonizadora, na versão dos acusados de golpe.

O segundo é o ex-desembargador Ivan Sartori, que atuou como advogado da Colonizadora contra Di Genio até maio deste ano. No mês seguinte, ele foi incluído como beneficiário de Pará.

Ou seja, o advogado contratado pelos acusados de golpe pode receber mais de R$ 70 milhões do filho que tenta ser incluído na herança.

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Sartori afirma que advogou contra Di Genio "para honrar os compromissos profissionais" de seu filho, morto num acidente. Antes da morte, o filho como advogado trabalhava pela empresa.

"Nunca patrocinei os interesses do Di Genio e de seus herdeiros. Sempre estive do outro lado. Era também advogado de Bruno [Pará], que, depois, passou por sucessivos advogados", afirmou, via assessoria de imprensa. Ele diz que atualmente não defende mais os interesses de Teixeira.

Sartori relatou à reportagem que chegou ao caso de Pará por intermédio de Barone —então advogado do próprio Di Genio— e do empresário Fernando Fantauzzi, outro que também aparece como possível beneficiário da herança.

Ao UOL, Fantauzzi afirma que sempre foi próximo da família Di Genio. Diz que ajudou Pará após a morte do bilionário. "Dei conselhos, indiquei bons advogados", diz.

"Não há nada irregular [nas cessões], mas as pessoas gostam de fazer novela", diz o empresário, que atualmente mora em Dubai.

Fantauzzi também conhece Teixeira. Questionado pela reportagem, diz que esteve em dois eventos com o médico.

De acordo com os documentos de cartório, os beneficiários se responsabilizam "em dar continuidade ao inventário às suas custas", o que quer dizer que eles estão ajudando financeiramente Pará, com a expectativa de receber uma parte do dinheiro da herança.

Embora diga na disputa pelo inventário que está enfrentando dificuldades financeiras, Pará está sendo representado por escritórios de elite como os de Arnoldo Wald e de Viviane Barci, mulher do ministro do STF Alexandre de Moraes.

Procurado, o escritório Barci de Moraes afirmou que não comentaria o caso. O escritório Wald, Antunes, Vita e Blattner afirmou que o cliente "somente tem se manifestado sobre o caso no âmbito judicial".

O UOL procurou Barone, mas não obteve retorno.

5.jul.2017 - Di Genio e Sandra Miessa no Palácio dos Bandeirantes
5.jul.2017 - Di Genio e Sandra Miessa no Palácio dos Bandeirantes Imagem: Ze Carlos Barretta/Folhapress

Cunhado de bilionário virou inimigo da família

Di Genio e Miessa nunca se casaram no papel. Segundo relatou à Folha, ela "queria mostrar que não era interesseira, que estava com ele por ser ele, uma pessoa fascinante, inteligente, engraçada, um ídolo".

Os dois se conheceram no início dos anos 80. Ele, na casa dos 40 anos. Ela, aos 21, trabalhando nos cursinhos do Objetivo. Tiveram três filhos: dois gêmeos em 2005, e o caçula em 2007.

Entrou também na disputa do inventário o sobrinho Fernando Di Genio (filho de Ana Ida, irmã de Di Genio, e de Oswaldo Barbosa), que dirigia o Grupo Mix e foi afastado da administração por Miessa.

Ex-braço direito do bilionário, o cunhado Oswaldo Barbosa levou uma denúncia ao MP, afirmando que Miessa maltratava o marido. Segundo o relato, Di Genio teria sido isolado por ela e viveria em condições inadequadas. O caso não foi adiante.

Desde então, Barbosa vem sendo tratado como um traidor, "inimigo capital" do inventário, expressão escolhida pelos advogados de Miessa. Nos autos, foi quem defendeu Pará, dizendo que o conhece desde que nasceu e que o viu "sempre na qualidade de filho do Di Genio".

Não há previsão de conclusão do inventário. A família Di Genio segue na defensiva contra o que considera uma série de golpes.

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