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No grupo de WhatsApp onde, há mais de uma semana, temos gerido o trabalho sobre as acampadas no Porto e em Lisboa, estão 47 pessoas. É ali que chegam informações, imagens, pedidos e indicações entre jornalistas e editores. |
A maioria são repórteres que têm acompanhado os protestos pela Habitação na rua. E bastará uma conta rápida de cabeça para perceber que estarem ali 47 telemóveis ligados na mesma conversa significa que mobilizámos uma parte muito significativa da redação para seguir o que está a acontecer. São pessoas de praticamente todas as equipas, independentemente da área que habitualmente acompanham, do jornal e da rádio, do multimédia e das redes sociais. |
Parte da razão para isso está na incerteza, permanente, sobre o que vai acontecer no minuto a seguir. Não é fácil decidir, de madrugada, se faz sentido continuar no Rossio ou na Praça D. João I, ou se é possível ir a casa descansar um pouco e voltar na manhã seguinte. Por isso, a dada altura, percebemos que a única forma de garantirmos que não perdíamos nenhuma ação importante dos manifestantes ou da polícia era estarmos sempre lá, enquanto o protesto, de alguma forma, estivesse a acontecer. E isso implicou criar uma rotação de repórteres e editores 24 horas por dia. |
O impacto desta decisão teve um peso grande, como é natural, em todas as equipas, e foi particularmente relevante para os nossos fotojornalistas, que tiveram de se desdobrar para acompanhar todos os jornalistas, chegar a todas as horas e articular o trabalho com colaboradores, também no Porto, para mostrar, em imagens, o tema que tem marcado a atualidade. |
Em Lisboa, esse trabalho ficou, sobretudo, entregue ao Diogo Ventura e à Inês Lacerda. No sábado passado, começaram a dividir as 24 horas a meio: um durante o dia, outro durante a noite. Na madrugada de terça-feira, estava combinado que o Diogo ia render a Inês às 6h30 da manhã, como era habitual. Mas, quando acordou, às 5h45, o fotojornalista do Observador tinha 83 mensagens não lidas no tal grupo de WhatsApp, enviadas em apenas 5 minutos — e percebeu rapidamente que tinha de se despachar. |
Era a terceira noite consecutiva com tendas montadas no Porto e em Lisboa. E estava tudo relativamente tranquilo quando, às 5h40, o Guilherme Costa Oliveira enviou uma mensagem a dizer que a polícia estava a chegar à Praça D. João I. Dois minutos depois, o Tiago Caeiro, em Lisboa, escrevia o mesmo sobre o Rossio. E três minutos depois, já a PSP usava um megafone para ordenar a retirada das tendas, antecipando uma intervenção em caso de desobediência. |
O Observador era o único jornal no Rossio e, a partir dali, foi tudo muito rápido. Com o Diogo Ventura ainda a caminho, são da Inês Lacerda as imagens do momento em que a polícia força a retirada das tendas, detém vários manifestantes e empurra o grupo para fora da praça. Quando o Diogo chegou, ainda fotografou os 55 detidos e filmou um dos momentos da noite, em que um dos agentes da PSP se exalta com um manifestante, é puxado pelo colete e repreendido por um superior. |
Suponho que tenha sido tudo um bocadinho surreal para os repórteres que estavam lá. Minutos antes de tudo isto, a Inês e o Tiago Caeiro, por exemplo, estavam abrigados num sítio mais quente, cansados e convencidos de que nada ia acontecer até de manhã. Nestas que têm sido longas horas de espera, têm contado com a simpatia dos funcionários de um restaurante que fica aberto toda a madrugada e que os têm deixado carregar telemóveis e computadores (apesar de, diz a Inês, só terem duas fichas a funcionar e uma delas não ser “muito jeitosa”). Além de, claro, os alimentarem até às 7h da manhã, quando tudo o resto está fechado. |
Durante o dia, quando não estão à procura das histórias por trás do protesto, como a forma como os manifestantes se organizam ou como funcionam as assembleias populares, por exemplo, os jornalistas do Observador têm tido de arranjar tempo para responder a perguntas de turistas, intrigados com o que encontram nas praças das duas maiores cidades do país. “O que é isto? Estão aqui porquê? Desde quando? E até quando vão ficar?” Em Lisboa, numa dessas interações, o Diogo Ventura viu-se obrigado a explicar a um viajante canadiano a diferença entre Portugal e Espanha. “Para uma pessoa que vem de fora, parece a mesma coisa”, dizia. Primeiro, o Diogo riu-se. Depois, naturalmente, enervou-se um bocadinho. Felizmente, o turista lá seguiu a visita. Espero que tenha percebido. |
Um novo Podcast Plus e uma surpresa |
Desde 2023, quando lançámos os nossos podcasts narrativos, há duas certezas no Observador: cada Podcast Plus é lançado com um trailer; e a estreia de cada nova história é na terça-feira seguinte. Esta semana, terá reparado, optámos por uma coisa diferente: “E se fizéssemos uma antestreia?” |
As sombras de Duarte Lima, o novo Podcast Plus do Observador, conta a história de uma herdeira milionária, de um assassinato violento no Brasil e de um suspeito chamado Duarte Lima. Um homem enigmático que nasceu pobre, tornou-se um político poderoso e construiu uma fortuna difícil de explicar. |
O primeiro episódio saiu, em antestreia, esta quinta-feira, e pode ouvi-lo aqui. O segundo é publicado na próxima terça — e, por ser nosso assinante, nessa altura já poderá ouvir toda a série de seguida. Como sempre, temos muitos detalhes dos bastidores para lhe contar. Mas essa é uma história para a próxima newsletter. |
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Opinião
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