Retirado de turnê de Ed Sheeran, Macklemore se pronuncia: ‘Se [redirecionei] a conversa para a Palestina, foi o maior sucesso que já fiz’

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O rapper foi afastado da Loop Tour, de Sheeran, após participar de dois shows nos EUA e declarar abertamente seu apoio à Palestina no palco
Gabriela Nangino (@gabinangino)
Após participar de dois shows da Loop Tour no estádio MetLife, em 4 e 5 de setembro, Macklemore foi afastado do restante da turnê de Ed Sheeran, por declarar seu apoio à Palestina no palco. O rapper estava programado para se apresentar em oito dos dez shows restantes da turnê de Sheeran nos Estados Unidos.
Em comunicado compartilhado com a Rolling Stone, a Messina Touring Group, empresa que promove a etapa estadunidense da Loop Tour de Sheeran, afirmou: “Fomos notificados, pelas casas de shows das próximas datas da turnê americana, que elas não permitirão a realização de shows com Macklemore na programação, o que resultaria no cancelamento da turnê e impactaria centenas de milhares de fãs. Após discussões com as partes interessadas, Macklemore não se apresentará nas datas restantes da turnê de abertura.”
Agora, Macklemore se pronunciou abertamente sobre o assunto no Instagram. “Ed Sheeran e sua equipe decidiram me retirar da “Loop Tour“, disse. “Mas antes de entrar no assunto, quero dizer algo que deveria ser óbvio. Acho que isso é importante neste momento. Eu não sou uma vítima. Ed Sheeran não é uma vítima. Pink não é uma vítima”, continuou, referindo-se à cantora que o criticou por fazer “propaganda anti-Israel” .
“Temos carreiras, dinheiro, oportunidades, segurança e públicos ao redor do mundo. Quaisquer que sejam as consequências que qualquer um de nós enfrente pelo que dizemos, podemos voltar para casa e para nossas famílias. As vítimas são o povo palestino. Os homens, mulheres e crianças que foram mortos, deixados passar fome, deslocados e forçados a viver em meio a uma violência inimaginável. Mais de 20.000 crianças foram mortas somente em Gaza. Pessoas estão sendo mortas hoje, e pessoas serão mortas amanhã.”
Em seguida, o rapper atribuiu a responsabilidade pela sua saída da turnê a Robert Kraft, proprietário do New England Patriots. Segundo ele, o bilionário teria mobilizado outros donos de estádios para impedir suas apresentações nos locais dos próximos shows.
“Na segunda-feira passada, o Ed me contou que o Robert Kraft havia ligado para ele. Tínhamos um show marcado para o final deste mês no Gillette Stadium, que pertence ao Kraft Group. O Ed me disse que o Kraft afirmou que eu não teria permissão para me apresentar no estádio dele”, revelou. “O Ed também me contou que o Kraft havia mobilizado alguns dos outros proprietários de estádios e que, juntos, eles lhe deram um ultimato: se o Macklemore continuasse na turnê, ele não poderia tocar nos locais deles“.
Macklemore disse que Sheeran “estava numa situação muito complicada”, pois a postura “tipicamente apolítica” do cantor estava sendo desafiada de forma inédita.
O posicionamento de Sheeran, segundo Macklemore
Macklemore explicou o posicionamento de Sheeran sobre o ocorrido: “Ele me disse que as palavras ‘Palestina Livre’ e a imagem da bandeira palestina eram ofensivas para muitas das pessoas com quem conversava”. Macklemore teria respondido que, “se essas palavras fossem mais ofensivas do que as dezenas de milhares de crianças palestinas mortas por Israel, então havia uma desconexão fundamental entre a posição daquelas pessoas e a minha”. Entretanto, o rapper afirma que o cantor “não conseguia superar sua postura pública de ‘não tomar partido’”.
O rapper afirma que Sheeran é seu amigo há 13 anos, e é como um “irmão” para ele. “Tivemos algumas conversas difíceis na semana passada”, ressaltou. Segundo Macklemore, as conversas foram “fundamentadas no amor e no respeito”, mas ainda assim “terminaram em um ponto de discordância fundamental”.
Macklemore continuou o texto refletindo sobre a escolha de muitas pessoas de não se posicionar sobre o conflito na Palestina. “Eu entendo por que as pessoas não fazem isso. Tomar partido pode custar caro. Dinheiro, contratos de marca, patrocínios, festivais, apresentações privadas, relacionamentos e acesso. Eu perdi tudo isso”, confessou. “Mas não existe posição neutra entre o opressor e o oprimido. Quando um lado tem as bombas e o apoio financeiro e militar ilimitado dos Estados Unidos, recusar-se a tomar partido não coloca você no meio-termo”.
O rapper ressaltou que se posiciona a favor da Palestina há três anos, e que deseja que sua amizade com Sheeran não se abale devido à polêmica. “Eu espero que nós dois continuemos ouvindo, estudando o que acontece na Palestina e lutando com o que a neutralidade significa em um momento como esse. Minhas portas estarão sempre abertas para continuar essa conversa”, completou.
Macklemore afirmou ainda que o cancelamento dos seus shows é um problema “pequeno” quando comparado a “um povo inteiro sendo deslocado, passando fome e sendo morto enquanto o mundo debate quais palavras podemos usar para descrever isso, como essas palavras nos fazem sentir e se o nosso desconforto importa mais do que as pessoas que estão vivendo um genocídio”.
Por fim, ele concluiu a postagem expressando mais uma vez seu apoio à causa palestina, e salientando que não se arrepende de ter usado sua voz para defendê-la. “Eu não precisava de 10 shows do Ed. Eu precisava de 2”, afirmou. “Duas chances de ficar na frente de 90 mil pessoas e dizer as palavras que, de alguma forma, se tornaram perigosas demais para serem ditas. Palestina Livre. Mas se essas palavras me custaram o palco, ao mesmo tempo que redirecionaram a conversa para a Palestina, então foi a turnê de maior sucesso que já fiz”.
O que Macklemore falou nos shows de Sheeran?
Na primeira noite como atração de abertura para Sheeran, Macklemore clamou por uma “Palestina Livre” e expressou solidariedade ao povo de Gaza e da Cisjordânia, além de exibir imagens da destruição na região e apresentar sua canção de protesto, “Hind’s Hall”.
“Uma grande parte da razão pela qual eu quis fazer esta turnê foi para poder subir em estádios como este e dizer duas palavras que são muito importantes para mim: ‘Palestina Livre’”, disse. “Eu disse: ‘Palestina Livre!’ Quero que essas palavras sejam ouvidas em alto e bom som, para que as pessoas em Gaza e na Cisjordânia ocupada saibam que não nos esquecemos delas.”
Apesar de receber críticas pelas falas, inclusive do Conselho Israelense-Americano e de artistas como Pink, Macklemore se manifestou novamente na segunda noite em Nova York, falando diretamente com os membros judeus da plateia.
“Críticas a Israel, críticas ao apartheid, ser contra o genocídio não são, de forma alguma, críticas a vocês”, ressaltou. “Minha mensagem é pela paz; pelo amor a todos os seres humanos, para que sejam tratados com dignidade, respeito e igualdade.”
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Jornalista em formação pela Universidade de São Paulo, Gabriela é mineira e apaixonada por arte e cultura. Ela também já foi dançarina e seu principal hobbie é conhecer todos os cinemas de rua de SP. Foi estagiária no Jornal da USP e, na Rolling Stone Brasil, fala sobre música, filmes e séries.
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