‘Retorno a Buenos Aires’ explora os limites entre sobrevivência, culpa e moralidade

Novo longa do cineasta Marco Bechis foi conferido por Rolling Stone Brasil na 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo
Angelo Cordeiro (@angelocordeirosilva)
Em um mundo cada vez mais polarizado, no qual as pessoas parecem ser constantemente reduzidas a posições extremas, Retorno a Buenos Aires, de Marco Bechis (Garage Olimpo), encontra sua principal força justamente nos tons de cinza. Ao acompanhar Mariano Guerra (Adriano Giannini, Destino Insólito), sobrevivente da ditadura militar argentina que retorna ao país para testemunhar contra seus torturadores, o cineasta constrói um protagonista moralmente complexo, cuja condição de vítima não o isenta de confrontar suas memórias.
Afinal, Mariano carrega um passado comprometedor, que coloca em discussão os limites entre sobrevivência, colaboração e culpa. É nessa ambiguidade, sem respostas fáceis ou julgamentos imediatos, que o longa encontra seus momentos mais interessantes. Bechis demonstra segurança na direção, especialmente ao estabelecer uma atmosfera sombria e melancólica, na qual o peso do passado parece impregnar cada ambiente e interação.
Há uma sensação constante de desconforto, alimentada tanto pelos reencontros entre sobreviventes quanto pela dificuldade de Mariano em lidar com aquilo que fez para continuar vivo. O cineasta compreende que as marcas da violência não desaparecem com o passar dos anos e que, mesmo diante da possibilidade de justiça, certas feridas permanecem abertas.
Para revelar as contradições de seu protagonista, Bechis recorre a flashbacks que, aos poucos, desvendam os acontecimentos que Mariano preferiria deixar enterrados. São momentos importantes para compreender a dimensão de seus traumas e, sobretudo, as decisões moralmente questionáveis que precisou tomar para sobreviver.
Entretanto, embora contribuam para aprofundar a complexidade do personagem, essas incursões ao passado nem sempre encontram o equilíbrio necessário. Algumas sequências, especialmente aquelas envolvendo sexo e tortura, soam excessivamente expositivas ou mesmo gratuitas, como se o cineasta precisasse recorrer ao choque para transmitir um horror que já se manifesta de maneira suficientemente perturbadora no imaginário coletivo.
Ainda assim, Retorno a Buenos Aires cumpre sua proposta ao abordar um período histórico brutal sem transformar seus sobreviventes em figuras idealizadas. Mais do que revisitar os horrores da ditadura, o longa encontra relevância ao questionar o que significa sobreviver a eles — e até que ponto alguém pode ser responsabilizado pelas decisões tomadas quando continuar vivo era a única prioridade.
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Angelo Cordeiro é repórter do núcleo de cinema da Editora Perfil, que inclui CineBuzz, Rolling Stone Brasil e Contigo. Formado em Jornalismo pela Universidade São Judas, escreve sobre filmes desde 2014. São-paulino, pisciano, paulistano do bairro de Interlagos e fanático por Fórmula 1, listas e rankings.
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