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Thursday, September 17, 2026

O que foi que uniu o último chefe da PIDE a Che Guevara?

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8:14, é hora de conhecermos o tema do Contracorrente. Para participar, só tem que ligar 91 002 41 85, mas também nos pode deixar a sua mensagem nas redes sociais, no site do Observador, ou então enviar-nos o seu áudio através do WhatsApp. Carla. O Observador tem mais um podcast Plus. Chama-se “Os Escândalos de uma Revolucionária” e conta a fascinante história não apenas de como a filha do último diretor da Polícia Política do Estado Novo se apaixonou pelo regime cubano e se tornou na intérprete favorita de Fidel Castro, como ao mesmo tempo manteve uma relação de afeição pelo pai e se preocupou quando ele esteve preso depois do 25 de Abril. Vamos, por isso, revisitar no Contracorrente de hoje não só a Cuba dos primeiros anos da Revolução, como a PIDE dos últimos anos da ditadura. Bom dia, José Manuel. Suponho que já ouviste todos os episódios deste podcast Plus.

Já ouvi e os nossos ouvintes se quiserem também ouvir, basta serem assinantes do Observador.

Ora nem mais.

Portanto, senão, têm que ir semana a semana e ficam um pouquinho a perder.

E ainda só vai no primeiro.

Ainda só vai no primeiro. E ficam um pouquinho a perder, porque aquilo vai aguçando o apetite. A história é, de facto, uma história fascinante. Ela já era conhecida aqui há uns anos, primeiro numa investigação jornalística do José Pedro Castanheira e do Valdemar Cruz, que foi publicada no Expresso e depois em livro. Mas este podcast vai um pouco mais longe, porque não só dá voz a alguns dos protagonistas, como também conta um pouco, talvez com mais detalhe, aquilo que foi a vida da família da Anísia Pais. Primeiro que tudo, quem era esta mulher? A Anísia Pais era uma jovem portuguesa filha de uma família de classe média, que assim podemos considerar. O pai era major, tinha sido oficial do exército, depois é nomeado diretor-geral da Polícia Política, da PIDE, depois DGS, mas isso não fazia dele uma pessoa rica. Eles viviam num apartamento em Arroios, no chamado Bairro das Colónias, na Rua Moçambique, aparentemente sem grande luxo. Tinham uma casa de férias na linha de Estoril, depois também às vezes iam para o Molede e para a Figueira da Foz passar o verão. Mas não era uma vida de luxo, nada de especial. Era uma vida muito típica de uma certa classe média dessa época, em que o pai trabalhava, a mãe não. Havia apenas uma filha, que era precisamente a Anísia Pais, e pelas fotografias percebe-se que era uma mulher bonita. Ela nasce na década de 1930. Chega à idade casadeira no final dos anos 50. Percebe-se desde o princípio que há ali algo que era muito típico. Esta geração é a mesma geração que de alguma forma é retratada. Esta geração de pessoas que crescem, chegam à idade adulta no pós-guerra, é a mesma geração daqueles filmes que nós vimos, por exemplo, com o James Dean nos Estados Unidos. A geração furiosa, como se dizia, é a geração que vai acolher o rock'n'roll. Não é ainda a geração típica dos anos 60, ligeiramente mais nova, e que depois protagonizará momentos de revolta como Maio de 68, que é já uma pequena sequência do que se vai precisamente passar na época que é apanhada por Anísia Pais. Ela é filha única. Acontece em famílias com filha única uma relação de tensão com a mãe. Entre esses motivos de tensão, naturalmente que há, desde ela participar ou não participar em concursos de beleza. Ela é, por exemplo, eleita Miss Praia na zona da Figueira da Foz nessa altura, penso eu que no final dos anos 50 ainda. E depois vai acabar por casar com um diplomata suíço, que é o tipo de casamento que as mães gostariam que as suas filhas tivessem, pensando naquilo que era o espírito da época. E é nessas circunstâncias, ao casar com um diplomata suíço, é que ela vai para Cuba. E em Cuba é que se dá a transformação. E aqui há questões que mesmo no podcast não ficam bem definidas. No princípio, fica sempre uma dúvida no ar, que é se a paixão que ela acaba por ter pela revolução cubana não começa por ser um encantamento com a figura de Che Guevara. Porque tudo indica que há um momento em que numa festa, uma receção numa embaixada, Che Guevara aparece, chega atrasado, vem fardado, com as botas enlameadas, elogia o vestido vermelho da Anísia Pais e ela fica absolutamente hipnotizada, guarda o vestido, nem sequer o lava, fica ali uma coisa para outros momentos e depois a pouco e pouco passa-se algo que nós não sabemos em todo o detalhe, até porque o marido é apanhado de surpresa. O podcast até começa, este episódio que já pode ser ouvido, com a sua ansiedade de saber se ela volta ou não de uma viagem ao México, que fez para desanuviar precisamente, e depois vai voltar ou não vai voltar. Ele está no aeroporto, à espera do avião, sai toda a gente, ela não sai, e depois percebe-se que houve ali já uma cumplicidade com o regime cubano para a esconder. A história começa por aí. Ela nunca vai envolver-se, pelo menos que se conheça, com Che Guevara. Che Guevara era um homem que encantou muitas mulheres, mas acabou por ter dois casamentos e o seu segundo casamento, do qual tem quatro filhos, nunca acabou em rutura, apesar de ele ser um marido ausente. É interessante o tipo de mulheres que escolheu não são exatamente o tipo de figuras como a Aníbal Pais, se bem que fossem ambas bastante bonitas e houvesse também aí qualquer encantamento. Há discussões entre os biógrafos de Che Guevara exatamente sobre o tipo de relação que ele tinha com mulheres. Mas não era a sua prioridade. Ele era sobretudo um revolucionário e também isso podia ajudar a explicar, vamos falar um pouco disso, a razão do seu magnetismo. Mas ao mesmo tempo que tudo isto sucede, há a relação difícil com a família, há uma visita da mãe a Cuba que não corre nada bem, há depois um esforço de Silva Pais, que sente que aquilo é um escândalo enorme e coloca o seu lugar à disposição de Salazar, mas Salazar mantém a confiança nele. Pelo meio, há aquilo que foi o grande escândalo da PIDE nesses anos, que é o assassinato de Humberto Delgado. Discute-se um pouco a responsabilidade ou a menor responsabilidade de Silva Pais nesse processo. E depois chegamos ao 25 de Abril e ela regressa a Portugal episodicamente, visita muitas vezes o pai na prisão, procura ajudá-lo. Ele está doente, tem um final de vida com muitas doenças. Na altura em que está a ser julgado, acabam por permitir que ele saia da prisão precisamente porque está muito doente. Mas ela acaba por preferir sempre ficar em Cuba, acaba por morrer em Cuba. E há aqui alguns aspetos bastante interessantes do que é a sua vida em Cuba, de qual é o seu envolvimento com a revolução. Isso tem muito a ver com o porquê do encantamento que durante, sobretudo os anos 60, 70, aquela revolução despertou em muita gente, e depois perceber porque é que o desencantamento veio a seguir e porque é que em muitos aspetos, quer a figura crística, aquela famosa fotografia de Che Guevara, também embeiça tantas pessoas, e porque é que há muita gente que apesar da evidência, continua a não querer ver a realidade e a sonhar com o modelo revolucionário que, de alguma forma, não só está ultrapassado, como fracassou. Vamos tentar revisitar isso tudo, desde essa figura quase burocrática do chefe da PIDE, até a sua relação com a filha, até a sua relação com o Salazar, até o que era Portugal dos anos 60, ou o que era Cuba dos anos 60. Porque esta história não é a única no mundo deste tipo de saltos de um lado para o outro do espectro político, mas tem um lado misterioso, encantatório, mas ao mesmo tempo revelador do que era o país e o mundo naquela época. Estamos a falar dos anos, sobretudo o período em que tudo isto acontece, o principal acontece, que é anos 60 e depois início da década de 70.

Tudo à boleia do novo podcast "Paz, Amor e Salazar".

Exatamente.

Até já, José Manuel. Ligue 91 002 41 85 e entre em direto no "Contra Corrente" logo a seguir ao jornal das 10.

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