Trump tensiona como ninguém a relação entre a imprensa e a Presidência
Um belo dia você chega à Casa Branca para cobrir um briefing de imprensa, com permissão de acesso ao local, e alguém lhe diz que não pode entrar. Ou você devolve o crachá ou joga no lixo, mas, caia fora. Banimento deste tipo ocorreu dias atrás com repórteres da rede CNN, do site Politico e da plataforma MS Now. Assim Donald Trump pune jornalistas que, segundo ele, fabricam fake news contra o seu governo.
Circulam teses variadas sobre a nova onda de embates do presidente americano com a imprensa. Entre elas, a de que Trump anda destemperado com a proximidade das eleições de meio de mandato; os embates servem para desviar a atenção de assuntos mais graves; ou nada neste imbróglio oferece novidade.
Talvez haja um pouco de tudo. Não por acaso, Trump arruma encrenca com a mídia para lançar uma cortina de fumaça sobre a sua desastrada política externa, os maus indicadores econômicos e um declínio acentuado nas pesquisas de popularidade. Felizmente os três veículos reverteram a decisão autoritária na Justiça, tal como fez a Associated Press, depois de ser banida pela Casa Branca ao se recusar a chamar o Golfo do México de Golfo da América.
A relação entre presidentes e imprensa sempre rendeu manchetes nos EUA. Algumas memoráveis, como as que tratavam da gravação vazada do republicano Richard Nixon, barrando a cobertura do jornal The Washington Post no caso Watergate. Jornalistas seriam bloqueados até nos eventos paroquiais da primeira-dama.
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Antes, em 1963, o democrata Lyndon Johnson incumbiu J. Edgar Hoover, chefão do FBI, de vigiar repórteres. Mais recentes são as regras do democrata Joe Biden para jornalistas lotados na Casa Branca. De tão restritivas, levaram à diminuição do número de credenciais.
Sedento de superlativos, Trump poderá dizer que é o presidente que mais coleciona brigas com os veículos noticiosos. Isso aparece na pesquisa dos cientistas políticos americanos Joshua Meyer-Gutbrod e John T. Woolley, publicada no livro "Novos Conflitos na Sala de Imprensa".
Trata-se de um estudo comparativo sobre a relação Presidência-mídia, começando nos tempos de Bill Clinton e chegando a Trump. Os autores separam falas da administração, perguntas dos jornalistas e conteúdos publicados, analisando uma relação de trabalho sempre tensa, porém, interdependente: a Presidência precisa da imprensa para passar a sua mensagem, e a imprensa precisa da Presidência para falar ao público.
Com Clinton, George W. Bush e Barack Obama, identificaram um padrão: os jornalistas não pouparam de críticas as administrações e, ao subirem o tom, o governo fazia o mesmo, sem quebrar o diálogo. Há dois pontos fora da curva: após os ataques 11 de setembro de 2001, em Nova York, e na guerra contra o Iraque, quando Bush filho foi alvo de duras críticas.
Os governos Trump 1 e 2 fogem ao padrão por adotar a comunicação de confronto, em linguagem negativa, quando não agressiva. Isso tem gerado reações da imprensa, como um espelhamento. Daí o presidente vai para a rede social, aprofundando as hostilidades.
Não há lua de mel que perdure entre imprensa e governo, já que o olhar de um é o escrutínio do outro, mas há balizas para operar com independência, em campos distintos. Trump afirma que acessar a Casa Branca "é um privilégio, não um direito". Engana-se: é um direito dos jornalistas e um privilégio sendo corroído.
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