Por que Alice Cooper bancou uma letra do letreiro de Hollywood

Início » Música » Por que Alice Cooper bancou uma letra do letreiro de Hollywood
O roqueiro foi o primeiro a patrocinar a reconstrução do ícone de Los Angeles, em 1978
Giovana Laurelli (@gii_laurelli)
O letreiro de Hollywood é hoje um dos símbolos culturais mais reconhecidos dos Estados Unidos, porém o ícone quase não chegou ao seu centenário. Em 1978, Alice Cooper foi a primeira pessoa a abrir a carteira e iniciar um movimento nacional em prol da placa. Na época, o roqueiro contou no programa The Old Grey Whistle Test, da BBC, porque o monumento era tão importante.
“[Ele] é como a nossa Ponte de Londres, o nosso Big Ben”, afirmou o músico na época (via BBC). “Em Hollywood, não temos nenhum ponto turístico além do letreiro de Hollywood.” A data exata da construção do letreiro é contestada, mas seu centenário oficial foi comemorado em 13 de julho de 2023, completando 103 anos este ano. Entretanto, a estrutura nunca foi pensada para durar. Erguida no Monte Lee como um outdoor de um empreendimento imobiliário, a placa trazia 13 letras de 9 metros de largura e 14 de altura formando a palavra HOLLYWOODLAND, feitas de madeira e chapa metálica sobre postes telefônicos. A previsão era de que ficasse de pé por menos de 18 meses, e construí-la custou mais de US$ 23 mil.
Para garantir que chamasse a atenção de moradores e visitantes da cidade, o letreiro foi iluminado com quase 4.000 luzes que piscavam sequencialmente nas diferentes seções: HOLLY, WOOD e LAND. Um profissional de manutenção, Albert Koeth, foi contratado para manter o letreiro em bom estado e substituir as lâmpadas à medida que queimavam. A ideia era promover um estilo de vida aspiracional para os cidadãos de Los Angeles, em vez de servir como uma espécie de endosso da indústria do entretenimento.
Ao longo da década seguinte, o crescimento da cidade como capital da indústria cinematográfica estadunidense fez com que a placa permanecece no local. Entretanto, com o início da Grande Depressão dos anos 1930, sua manutenção foi reduzida e ela rapidamente se deteriorou. O compositor Eden Ahbez, um dos primeiros defensores do estilo de vida hippie (e futuro compositor de “Nature Boy“, de Nat King Cole), acampou por um tempo sob o primeiro “L” da placa. Em 1944, a imobiliária doou o letreiro à cidade, assim como 425 acres de terreno (aproximadamente 1,72 km²), por US$ 1 simbólico. Uma tempestade já havia derrubado o H, e muitos moradores viam a estrutura como uma aberração. Em 1949, decidiram demolir tudo, porém a Câmara de Comércio de Hollywood reverteu a ordem ao se comprometer a bancar a restauração. A palavra LAND saiu, e nasceu o ícone da cultura norte-americana.
Nos anos 1970, negligência, vandalismo e clima castigaram a placa outra vez. Em 1978, uma forte tempestade quebrou parte do primeiro O e fez outro rolar pela encosta, deixando o letreiro com a inscrição “HuLLYWO D”. Cooper se compadeceu com o estado do letreiro: “Ninguém quer assumir a responsabilidade de restaurá-lo ou algo do tipo”, disse a estrela sobre a placa à BBC. “A coitadinha está lá em cima, é muito querida para nós e está morrendo bem na nossa frente. E eu calculei que custaria uns 40 ou 50 mil dólares para restaurá-la. Então sugeri que fizéssemos um show em algum lugar e simplesmente entregássemos todo o dinheiro para eles”, disse ele.
Infelizmente, a conta era bem maior. Um relatório estrutural realizado pela Câmara de Comércio de Hollywood concluiu que o reparo do letreiro era impossível. O letreiro precisaria ser integralmente substituído por letras de aço, presas a colunas fixadas em uma base de concreto. O custo total chegaria a US$ 250 mil.
A campanha “Salve a Placa” foi lançada em maio de 1978, e, apenas um mês depois, um evento beneficente já ocorria em homengam à causa. Hugh Hefner, fundador da revista adulta Playboy, recebeu em sua mansão estrelas caridosas, com a intenção de arrecadar fundos para a maratona de reconstrução. Cooper abriu a lista de patrocinadores ao pagar por uma letra: “Calculamos que custaria US$ 27.000 cada uma, e imaginei que isso incentivaria outras pessoas”, explicou na época.
O roqueiro pagou pelo último “O”, que dedicou ao seu amigo, o comediante e astro de cinema Groucho Marx, falecido no ano anterior. “E Andy Williams [o cantor americano conhecido por sua versão da música ‘Moon River’] doou uma letra, e a Warner Brothers, claro, também, e Gene Autry [famoso como ‘o Cowboy Cantor’] e algumas outras pessoas muito legais também”, disse Cooper. “Nós, mais ou menos, demos o pontapé inicial, e ainda acredito que todos no mundo devem pelo menos um dólar a Hollywood por todo o entretenimento que vem de lá – e se nós, que vivemos aqui, não pudermos cuidar disso, é meio bobo.”
A placa antiga foi finalmente demolida, e a novidade, com “apenas” 137 metros de comprimento e 240 toneladas, ocupou seu lugar. Ao longo dos anos, o letreiro de Hollywood apareceu em uma infinidade de filmes, contracenando com Charlton Heston em Terremoto (1974), Robert Downey Jr. em Chaplin (1992) e Mila Kunis em Amizade Colorida (2011). O letreiro também foi cenário de brincadeiras e comemorações de marcos históricos: em 1976, o estudante Danny Finegood usou cortinas para que se lesse HOLLYWeeD, coincidindo com o relaxamento das leis sobre a maconha. Em 2017, a provocação foi repetida.
Também no campo de brincadeiras, o letreiro foi alterado para HOLYWOOD (“terra santa”, em tradução livre”), quando o Papa João Paulo II visitou Los Angeles em 1987. No mesmo ano, o cenário foi mudado para OLLYWOOD em referência ao depoimento do Coronel Oliver North no escândalo Irã-Contras. Durante a cerimônia de encerramento das Olimpíadas de Paris de 2024, os dois “Os” foram utilizados para criar os dois anéis inferiores do símbolo olímpico, em alusão à realização dos Jogos em Los Angeles em 2028. Em 31 de dezembro de 1999, a placa foi iluminada novamente pela primeira vez em 60 anos em uma explosão de cores, em uma celebração do novo milênio que referenciava o design original do letreiro. A última atitude foi aprovada por Cooper ainda em 1978, quando afirmou: “Acho que deveriam colocar luzes de néon, luzes piscantes e tudo mais.”
+++ LEIA MAIS: Os artistas que Iggy Pop mais inveja, segundo o cantor
Jornalista em formação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Giovana é apaixonada por música, filmes e a intersecção entre cultura e política. Já foi bailarina e canta em bandas de soul, rock e pop desde a pré-adolescência. Atuou como editora de Cultura e Entretenimento no Jornal Contraponto, veículo laboratorial impresso da PUC-SP. Na Rolling Stone, escreve sobre música, cinema e cultura pop.
KioskNews shows a cleaned-up reading view extracted from the publisher’s page — the original always lives on their site, not ours.