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Saturday, September 26, 2026

Empresa traz ao Brasil software que substitui máquinas de R$ 300 mil no diagnóstico do glaucoma

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A IDMed, distribuidora de tecnologias médicas portáteis, lançou no Brasil em maio de 2026 a Melbourne Rapid Fields (MRF), plataforma da Universidade de Melbourne que realiza exames de campo visual em computadores e tablets. O software custa cerca de R$ 30 por exame e mira a triagem no SUS. A empresa projeta faturamento de R$ 45 milhões a R$ 60 milhões até 2028.

A Sociedade Brasileira de Glaucoma estima que de 1,5 a 2 milhões de pessoas convivam com glaucoma e que a maior parte não sabe do diagnóstico.

Um dos desafios para identificar a doença é o alto valor para a realização de exames. Alguns dos aparelhos que medem o campo visual do paciente podem custar mais de R$ 300 mil e exigem espaço, treinamento e uma estrutura dedicada nas clínicas.

Ao identificar essa limitação, Wagih Nassar Neto fundou a IDMed para licenciar e distribuir no país a Melbourne Rapid Fields (MRF) — uma plataforma desenvolvida pela Universidade de Melbourne, na Austrália, que permite realizar o exame de campo visual em notebooks, tablets e computadores convencionais.

A IDMed fez o lançamento comercial em maio de 2026 e já chegou a algumas clínicas particulares. Mas a principal aposta para crescer nos próximos anos está no setor público.

“Há um subdiagnóstico muito alto. O paciente pode ser diagnosticado tardiamente e já precisar de cirurgia, o que pode aumentar os custos para o sistema de saúde. O exame pode ajudar na identificação precoce da doença e no início do tratamento”, diz Neto.

A empresa mira entre 2 milhões e 3 milhões de exames de triagem por ano e projeta faturamento de R$ 45 milhões a R$ 60 milhões até 2028, somando contratos públicos e privados. Para chegar lá, porém, terá de convencer médicos e gestores de saúde a incorporar uma tecnologia que ainda é nova no país.

De equipamento de 300.000 reais a software

A história da IDMed começa antes do empreendedor conhecer o MRF. Engenheiro civil de formação, Neto fez mestrado na Universidade de Melbourne, na Austrália. De volta ao Brasil, passou seis anos na indústria farmacêutica, trabalhando na área de novos negócios e buscando parcerias e tecnologias para o setor.

Foi nesse período que entrou em contato com uma startup que desenvolvia uma tecnologia para exame de campo visual em óculos de realidade virtual. A ideia era usar um equipamento semelhante aos óculos de videogame para avaliar a visão periférica de pacientes com glaucoma. Ele levou a tecnologia para a farmacêutica onde trabalhava, mas a empresa decidiu não avançar porque seu negócio estava concentrado em medicamentos, e não em diagnóstico.

Ele decidiu trazer a tecnologia por conta própria. Abriu a IDMed e começou a negociar com os desenvolvedores suíços. O processo, porém, demorou e, quando a operação avançou, outras empresas já haviam colocado soluções semelhantes no mercado.

"Errei porque não fui olhar quem mais tinha essa tecnologia. O cara me falou que era algo novo, mas eu não fiz uma pesquisa de campo”, afirma.

A busca por uma nova alternativa levou o executivo novamente à Universidade de Melbourne, onde encontrou um professor que desenvolvia outra tecnologia para o mesmo exame. Em vez de óculos de realidade virtual, a solução usava a câmera e a tela de um computador, com recursos de machine learning para identificar o paciente e ajustar sua posição diante da tela.

A proposta chamou a atenção porque eliminava justamente a estrutura que encarecia o exame tradicional. O MRF realiza exames de acuidade e campo visual sem exigir um equipamento dedicado. O software usa a câmera e a tela do computador para posicionar o paciente e apresentar os estímulos necessários ao exame.

Na prática, isso elimina parte da estrutura necessária para um campímetro convencional. A clínica não precisa reservar uma sala específica para o equipamento nem comprar uma máquina dedicada.

Durante o exame, o paciente precisa manter o olhar fixo em um ponto na tela enquanto o software apresenta estímulos em diferentes áreas do campo visual. A câmera do computador acompanha a posição do paciente, e o sistema gera o relatório do exame na hora (Divulgação)

O modelo comercial segue a mesma lógica. Em vez de vender uma máquina, a IDMed cobra pelo uso da plataforma. O menor pacote comercial mencionado pelo executivo tem 50 exames, com prazo de até um ano para utilização.

Ele afirma que o custo é de cerca de R$ 30 por exame, ou R$ 15 por olho. Também existem planos de maior volume e contratos anuais para instituições que precisam realizar muitos exames. "Eu quero oferecer essa solução pelo menor custo possível", afirma.

Para uma clínica pequena, a proposta reduz o investimento inicial. Para uma rede, a empresa permite distribuir os créditos entre diferentes unidades.

O desafio está no diagnóstico precoce

O glaucoma é uma das principais causas de cegueira irreversível. Um dos problemas do tratamento é que a doença pode avançar sem que o paciente perceba a perda de visão nas fases iniciais.

O campo visual ajuda a identificar alterações que não são necessariamente percebidas pelo paciente. O MRF produz um mapa que deve ser interpretado pelo oftalmologista. O software não fecha o diagnóstico de glaucoma.

O exame também compara o desempenho do paciente com referências de pessoas da mesma faixa etária. O resultado apresenta indicadores de normalidade, mas a interpretação clínica continua sendo responsabilidade do médico.

Esse ponto é importante para a estratégia da IDMed. A empresa não pretende posicionar o software como substituto integral dos campímetros convencionais. Na entrevista, o fundador reconhece que o equipamento tradicional continua sendo o padrão de referência da oftalmologia.

Os estudos disponíveis apontam equivalência diagnóstica superior a 90% em determinadas avaliações, mas ainda pode existir a necessidade de realizar o exame tradicional.

A estratégia, portanto, passa por usar o MRF principalmente em triagem e no acesso inicial ao exame. Um paciente identificado com alteração pode então ser encaminhado para uma investigação mais completa.

A aposta no SUS

A empresa não abre quantas clínicas e hospitais estão sendo atendidos no Brasil, mas o crescimento mundial ainda está no começo. São mais de 370 hospitais e clínicas cadastradas no mundo e mais de 100 mil exames realizados neste ano.

Para crescer a tecnologia no Brasil, a aposta está no sistema público. O exame convencional depende de um equipamento caro e de uma estrutura que nem todas as unidades possuem.

A empresa quer colocar o software em unidades de atenção básica e usar o resultado como uma ferramenta para direcionar pacientes. Um município também poderia contratar um número determinado de exames para realizar um mutirão.

A companhia já conversa com municípios e pretende começar por projetos locais antes de tentar ampliar a contratação para governos estaduais e federal. Como o ano de 2026 é ano eleitoral, o executivo afirma que a empresa está concentrando esforços nos municípios e espera acelerar os contratos públicos entre o fim deste ano e o início de 2027.

Por que as clínicas privadas são mais difíceis

No setor privado, o problema é diferente. Hospitais e clínicas que já investiram centenas de milhares de reais em equipamentos tradicionais têm menos incentivo para adotar uma nova solução.

A IDMed tenta entrar nesses locais como complemento. Um hospital pode manter o campímetro convencional e usar o MRF para ampliar o número de exames ou fazer uma primeira triagem.

"Eu já tenho vários estudos apontando que ele tem uma equivalência diagnóstica, inclusive no início do glaucoma", diz.

A meta é chegar a mais de 150 clínicas e médicos independentes utilizando o MRF no Brasil até o fim de 2026.

O modelo de venda também tenta reduzir a barreira para o médico. O treinamento é feito remotamente e o software tem uma assistente virtual que orienta o paciente durante o exame, inclusive quando ele se afasta da câmera ou deixa de olhar para o ponto indicado.

De glaucoma para outras tecnologias médicas

O glaucoma é apenas a porta de entrada. A ambição do fundador é transformar a IDMed em uma distribuidora de tecnologias médicas portáteis que possam reduzir o custo e ampliar o acesso a exames. A lógica vem do próprio nome da empresa, Intelligent Devices in Medicine. A companhia procura softwares e dispositivos desenvolvidos fora do Brasil que tenham validação clínica e possam ser adaptados a uma estrutura com menos recursos.

A empresa já avalia outras tecnologias, mas não revela quais são. A preocupação é evitar repetir a experiência do primeiro projeto, quando soluções semelhantes chegaram ao mercado antes que a IDMed conseguisse concluir a operação.

“Minha ideia é trazer soluções portáteis e inovadoras, pensando em tecnologias mais acessíveis. Hoje, estou aberta a diferentes possibilidades: estão surgindo softwares e também dispositivos físicos, todos com o objetivo de ampliar a portabilidade e o acesso.”

O plano financeiro depende justamente de encontrar escala nesse modelo. A companhia estima que o MRF possa chegar a 2 milhões a 3 milhões de exames de triagem por ano e ajudar a identificar precocemente até 150.000 novos casos de glaucoma.

Para atingir um faturamento de R$ 45 milhões a R$ 60 milhões em 2028, porém, a IDMed terá de transformar uma tecnologia que hoje atende principalmente clínicas e grupos privados em uma ferramenta de larga escala na saúde pública.

'Perguntas frequentes'

Como funciona o exame de campo visual da Melbourne Rapid Fields? +

A Melbourne Rapid Fields usa a câmera e a tela de notebooks, tablets ou computadores para posicionar o paciente e apresentar estímulos em diferentes áreas do campo visual. O sistema gera o relatório do exame na hora.

Quanto custa um exame realizado com a plataforma MRF? +

O custo é de cerca de R$ 30 por exame, ou R$ 15 por olho, segundo Wagih Nassar Neto, fundador da IDMed. O menor pacote comercial citado pelo executivo inclui 50 exames, que podem ser utilizados em até um ano.

O software MRF pode diagnosticar glaucoma? +

Não. O MRF produz um mapa do campo visual e indicadores de normalidade, mas o resultado deve ser interpretado por um oftalmologista, responsável pelo diagnóstico clínico.

Por que a IDMed aposta no SUS para expandir a plataforma? +

A IDMed pretende usar o MRF em unidades de atenção básica e mutirões para ampliar a triagem sem exigir campímetros que podem custar mais de R$ 300 mil. A empresa conversa com municípios e espera acelerar os contratos públicos entre o fim de 2026 e o início de 2027.

Quantas pessoas podem ter glaucoma no Brasil sem saber? +

A Sociedade Brasileira de Glaucoma estima que entre 1,5 milhão e 2 milhões de pessoas convivam com a doença no país e que a maioria não saiba do diagnóstico.

Quais são as metas da IDMed para a plataforma MRF? +

A IDMed estima que o MRF possa alcançar de 2 milhões a 3 milhões de exames de triagem por ano e ajudar a identificar precocemente até 150 mil novos casos de glaucoma. A empresa projeta faturamento de R$ 45 milhões a R$ 60 milhões até 2028, com contratos públicos e privados.

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