Maçonaria: os Devoristas

Podemos ler na obra de Oliveira Marques, A Maçonaria em Portugal, que com o advento do chamado liberalismo, em 1834, os maçons chegaram ao poder. Apesar das cisões, revoltas e crises, espelho do próprio liberalismo, a maçonaria iria resistir até bem dentro do século XX. Efetivamente, no período compreendido entre aquela data e o ano de 1926 pode-se afirmar que a história do liberalismo é a história da maçonaria. No podcast E o Resto é História, Rui Ramos dedicou um programa aos devoristas, designação dada aos políticos que tomaram o poder logo a seguir à morte de D. Pedro. No entanto, este historiador não se permitiu fazer a ligação que me parece premente.
Conforme Ramos explicou, o termo fica a dever-se às nacionalizações do período, principalmente as relativas à Igreja. A pejoração fundava-se na ideia de que os governantes e os seus comparsas se tinham dedicado (tinham devorado) à distribuição pelas mãos amigas dos bens e dinheiro resultante da operação. Como é fácil de perceber, foi o 28 de Maio e depois Salazar que acabaram com o predomínio maçónico. Findo o Estado Novo, os jacobinos sentiram-se mais livres para agir e, após o 25 de Novembro, terminada a ameaça comunista e afins, existiu e existe a sombra (pelo menos) da convicção de que os maçons retornaram aos velhos hábitos de repartir os lugares de poder. O caso Luís Neves, seja-me permitido o salto cronológico, enquadra-se nesta trama histórica.
Na audição parlamentar ao MAI, o deputado Rui Rocha foi muito perentório na sua pergunta a Luís Neves: se pertence ou pertenceu à Maçonaria. A resposta foi direta, recusando terminantemente ser ou ter sido um dos irmãos. O liberal, mais tarde, numa entrevista ao canal NOW, afirmou que não acreditava na palavra do ministro, acusando-o, de resto, de mentir abundante e descaradamente aos portugueses. Rui Rio, vendo a reação corporal de Luís Neves no parlamento, confirmou também a sua desconfiança, ficando com a ideia de que algo não estava completamente esclarecido.
Estas graves considerações e alegações – um ministro mentir ao país e aos deputados na Assembleia da República – colocam várias questões e levantam um pouco o véu a uma impressão partilhada por um considerável número de pessoas mais atentas: qual a razão da insistência de Rui Rocha, qual o motivo que leva Rui Rio a desconfiar das ligações de Neves a tal entidade? Mais importante ainda: que relevo ganha a pertença ou relação com essa instituição secreta e ritualista (Oliveira Marques)? Pois, como vimos, existe uma estreita relação histórica entre Maçonaria e poder político.
Sendo a Maçonaria uma sociedade secreta (ou, no mínimo, discreta) torna-se difícil este artigo não permanecer numa espécie de limbo. À exceção de alguns perfis, muitas das suas principais figuras não se revelam. No entanto, existem certos elementos que estão à nossa disposição, permitindo-me assim arriscar o texto. De acrescentar que a neblina que paira sobre a Ordem deve-se exclusivamente aos próprios maçons. Expressões como teia de interesses e outras do género são comuns quando a conversa cai nesse tema. Parece-me que seria útil e saudável, esclarecedor e fautor de transparência, se os detentores de cargos públicos, nomeadamente políticos, viessem à luz do dia afirmar-se como pedreiros-livres. A descoberto, não resistem quaisquer teorias da conspiração; se os seus elementos preferem outro cenário em vez de sair do armário, isso pesará unicamente sobre eles.
Não se conclua que a Maçonaria é um bloco unitário. Aliás, por definitivamente não o ser, somente aumenta a suspeição. São várias as fações e congregações, o que permite deduzir que nela habitarão diversas ideologias. Logo à partida, as orientações anglo-saxónica e francesa. Todavia, isso não será impedimento à existência de um chão comum – de uma fusão de esforços.
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