Comprar réplicas de luxo para seguir tendência dos famosos pode custar caro; veja como se proteger

Rihanna, Jay-Z, Justin Bieber e Kendall Jenner estão entre as celebridades fashionistas que impulsionaram a popularidade dos tênis de streetwear, hoje objeto de desejo de fãs e, ao mesmo tempo, inspiração para o mercado pirata. Segundo o Anuário da Falsificação de 2026, o vestuário foi o segundo setor mais afetado pelo mercado ilegal no país, com prejuízo de R$ 55 bilhões apenas em 2025, atrás somente das bebidas alcoólicas.
O levantamento, da Associação Brasileira de Combate à Falsificação (ABCF), revela um cenário em expansão: as perdas totais com falsificação, contrabando e pirataria chegaram a R$ 514 bilhões, alta de 8% em relação ao ano anterior. É nesse contexto que muitos internautas, de olho no estilo de vida dos famosos, recorrem a alternativas mais baratas e nem sempre sabem o que estão levando para casa.
João Victor, morador de Anápolis (GO), sentiu na pele, ou melhor, nos pés, o que um produto falsificado pode provocar. Em 2023, quando ainda era estagiário e, segundo ele, "a grana era curta", decidiu comprar dois pares de um dos tênis que viralizaram nos pés dos famosos.
O modelo escolhido foi o Nike Air Force 1, cujo preço varia conforme a cor, as collabs e as edições especiais. Para se ter exemplo, em 2022, um par da parceria entre Nike e Louis Vuitton, assinado pelo estilista Virgil Abloh, foi arrematado por US$ 352.800 (cerca de R$ 1,8 milhão na cotação da época) em um leilão.
Em meio à graduação em engenharia civil, João achou que a economia valeria a pena. "Eu estava precisando de um tênis e comecei a pesquisar na internet. Assim, começaram a aparecer vários anúncios de lojas aqui da cidade mesmo", lembra.
"Os tênis são realmente idênticos, muito bonitos, e com o preço de dois eu não comprava um original. Na necessidade, fui lá e comprei", conta. Ele pagou cerca de R$ 300 pelos dois pares.
O problema é que, anos antes, João já havia enfrentado uma fascite plantar — inflamação na faixa de tecido que liga o calcanhar à base dos dedos—, e precisou de tratamento com ortopedista. Ao incluir os tênis falsificados na rotina, as dores voltaram. "Eles eram horríveis. Esquentavam muito, tinham a sola dura, e o pior era a pisada: o calcanhar literalmente afundava", relata.
Quando percebeu que a economia começava a sair cara e a afetar a saúde, ele se desfez dos pares. "Comprei uma vez para nunca mais."
Quem passou por algo parecido foi o estudante de publicidade Sidney Lima, que viralizou nas redes sociais em agosto depois de ter um momento de desconforto filmado por outro internauta. Durante o show de Anitta em Fortaleza, para o qual o jovem caprichou no visual, uma parte do look não resistiu: as botas, cuja procedência ele não sabe informar.
Segundo Sidney, o calçado, muito parecido com os modelos da britânica Dr. Martens, que custam entre R$ 1.700 e R$ 5.000 em lojas on-line, foi comprado em uma plataforma de marketplace, onde é comum encontrar anúncios de réplicas. "No dia estava muito quente e, depois de um tempo usando, a bota começou a ficar bem desconfortável e acabou fazendo um calo no meu pé. Por causa da dor, em alguns momentos eu apoiava o pé de lado para tentar aliviar", conta.
Foi em um desses momentos que outra pessoa registrou a manobra e publicou o vídeo nas redes, brincando que o calor era tanto que a bota tinha "derretido". A gravação ultrapassou 13 milhões de visualizações no X, e, apesar da dor, Sidney diz ter levado a repercussão com bom humor.
O que diz a lei
Mas, afinal, quem compra um produto falsificado pode ser penalizado? Segundo a advogada Dayene Lopes, especialista em direito do consumidor, a resposta depende do contexto. "A simples compra de um produto falsificado para uso pessoal não significa, automaticamente, que o consumidor será responsabilizado criminalmente", explica.
De acordo com ela, é preciso analisar as circunstâncias de cada caso, principalmente se o comprador sabia que se tratava de um produto ilícito e qual era a finalidade da aquisição. O cenário muda quando a compra é feita para revenda. "Quando existe compra para comercialização ou obtenção de lucro, podem existir consequências jurídicas mais graves", afirma.
No Brasil, o principal instrumento contra esse mercado é a Lei de Propriedade Industrial (Lei nº 9.279/1996), que protege marcas e prevê crimes ligados à reprodução indevida e à venda de produtos falsificados. Para a advogada, o combate à pirataria acontece em duas frentes: "tanto na esfera criminal e de propriedade intelectual quanto na proteção do próprio consumidor que é enganado".
Comprou achando que era original?
Quem pagou por um produto anunciado como original e recebeu uma falsificação foi induzido a erro e está protegido pelo Código de Defesa do Consumidor (CDC). O primeiro passo, segundo a especialista, é reunir provas: o anúncio, a nota fiscal ou o comprovante de pagamento, as conversas com o vendedor, fotos do produto e qualquer registro de que ele era vendido como original.
Com isso em mãos, o consumidor pode exigir a devolução do valor pago e, dependendo do caso, buscar reparação por outros prejuízos. Se a compra foi feita em um marketplace, a orientação é registrar a reclamação imediatamente nos canais da plataforma. Também é possível recorrer aos órgãos de defesa do consumidor, como o Procon, ou à Justiça.
Riscos que vão além do bolso
Assim como nos casos citados, a pirataria não envolve apenas o uso indevido de uma marca. "Existe também uma questão importante de saúde e segurança", alerta a advogada. "Produtos falsificados nem sempre passam pelos mesmos controles de qualidade que os regulares e, dependendo do item, como cosméticos, perfumes, eletrônicos ou brinquedos, podem causar acidentes, queimaduras e outros danos".
Além disso, o comprador normalmente fica sem garantia, sem assistência técnica e sem informações confiáveis sobre a origem e a composição do que levou para casa. "E muitas vezes, quando surge um problema, sequer consegue localizar quem realmente o vendeu", aponta.
KioskNews shows a cleaned-up reading view extracted from the publisher’s page — the original always lives on their site, not ours.