Sesc faz 80 anos e prepara abertura de unidade que será das maiores de São Paulo
Tudo é contraste no novo Sesc Parque Dom Pedro 2° e arredores, no centro de São Paulo.
O azul claro das cinco piscinas, no alto do prédio, está próximo das águas poluídas do Tamanduateí, que correm lá embaixo, ao lado de uma das entradas dessa unidade do Sesc. A degradação do rio que corta a região onde São Paulo nasceu é resultado de décadas de descaso.
O quase silêncio dentro do novo edifício, fruto do projeto acústico, chama a atenção diante do barulho do trânsito nas avenidas do Estado e Mercúrio, a poucos metros do prédio.
Prestes a completar 80 anos, o Serviço Social do Comércio (Sesc) se impõe uma missão nada trivial. Diante desses e outros descompassos urbanos e sociais, o desafio é fazer daquele pedaço, a antiga várzea do Carmo, uma área menos hostil. Com essa finalidade, deve receber, em média, 8.000 pessoas por dia.
Projeto do estúdio Una, dos arquitetos Fernanda Barbara e Fabio Valentim, o prédio ao lado do Mercado Municipal será um dos maiores espaços do Sesc na capital paulista, considerando a área construída. Com mais de 36 mil metros quadrados divididos em seis andares, vai se tornar o quinto maior nesse quesito entre as 21 unidades da cidade de São Paulo.
"É a joia da coroa", diz Luiz Galina, diretor da seção paulista do Sesc. Segundo ele, a data de inauguração da unidade não foi definida, mas a expectativa é que seja aberta ainda neste ano. A reportagem passou a tarde da quarta-feira, dia 2, no prédio e acompanhou dezenas de colaboradores –entre pedreiros, eletricistas e marceneiros– trabalhando em detalhes do acabamento da obra.
O edifício é resultado de um investimento de cerca de R$ 350 milhões, que inclui a construção e a compra e instalação de equipamentos e mobiliário. Para efeito de comparação, o Sesc 24 de Maio, aberto em 2017 também no centro de São Paulo, custou R$ 190 milhões –valor corrigido pela inflação.
Parte do entusiasmo de Galina se deve aos prêmios de arquitetura conquistados pelo projeto. O principal deles foi concedido no ano passado pela Holcim, fundação sediada na Suíça que destaca construções sustentáveis com bom design. Foram quatro os projetos laureados na América Latina.
Nos anos anteriores, a criação da Una havia sido premiada pelo IAB (Instituto de Arquitetura do Brasil) e pela Bienal de Arquitetura de Buenos Aires, entre outros reconhecimentos.
O cuidado com a sustentabilidade está nas fachadas de todos os pisos, que privilegiam a iluminação e a ventilação naturais. São poucos os ambientes com ar-condicionado, como o restaurante e a biblioteca, que terá cerca de 5.000 volumes.
Um sistema de aquecimento solar regula a temperatura das piscinas –duas de grandes dimensões e três pequenas, destinadas ao público infantil.
Essa preocupação se reflete até nos pisos das calçadas ao redor das três faces do novo prédio: a praça São Vito e as avenidas do Estado e Mercúrio. São feitas de um material capaz de drenar a água, o que contribui para reduzir alagamentos.
Além disso, são mais de 5.000 metros quadrados de área verde pelos seis andares. No térreo, um jardim em formato triangular reúne espécies da mata Atlântica.
Outra premissa central, nas palavras de Fernanda Barbara, é "olhar para a cidade". Não há muros ou grades em torno do Sesc, que terá três entradas. "Pensamos em um prédio muito permeável, um espaço de circulação que fosse convidativo", afirma a arquiteta.
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A praça do segundo andar nos aproxima do Mercadão. Olhando mais adiante, revela-se um panorama de edifícios do centro paulistano, como o Farol Santander. Nos terraços dos pisos logo acima, é possível ver boa parte das zonas leste e norte e, bem ao fundo, a Serra da Cantareira.
Essa praça, também triangular, será um dos cenários instagramáveis do novo Sesc. Mas o grande espaço de convivência ocupará o térreo, com móveis desenhados pelos arquitetos do Una. Essa área também vai cumprir o papel de foyer do teatro multifuncional, com pouco mais de 300 lugares.
De acordo com Galina, "a alma da unidade é o espaço cênico. Terá uma grande plataforma elevatória, que vai oferecer aos grupos de teatro possibilidades de inovar nas encenações".
O novo Sesc tende ainda a impulsionar os debates sobre as soluções para reverter a deterioração do parque Dom Pedro 2º. A prefeitura de São Paulo tem um projeto de concessão da área para a iniciativa privada.
Sem fazer referência específica a essa iniciativa da gestão Ricardo Nunes, Galina diz que o Sesc pretende colaborar para a recuperação do parque. "Aqui era o Ibirapuera da década de 1920, com jardins bem planejados", afirma o diretor, que falou com a Folha em uma das salas da unidade.
Nos anos 1960 e 1970, os viadutos foram construídos sobre o parque para ligar o centro à zona leste, que se expandia. Segundo Fernanda Barbara, "essas obras viárias foram uma violência contra a cidade. Existem poucas situações no mundo de tamanha agressão a um centro histórico".
Ao longo do último século, o parque foi sendo abandonado e com ele o Tamanduateí, que se estende por 35 km. Sucessivos planos de canalização deram fim às curvas do rio, hoje imundo.
Uma das atrações da abertura do Sesc será a exposição "As Sete Voltas do Tamanduateí", com a curadoria de Veronica Stigger e Eduardo Sterzi, que unem história e arte.
80 anos
O novo prédio fica em uma região com empresas de armazenagem, distribuição e comercialização de alimentos. De um lado do rio, o Mercadão; do outro, a zona cerealista. Para Galina, "abrir uma unidade aqui é, de certa maneira, uma homenagem aos fundadores do Sesc, que eram lideranças do comércio".
Em 13 de setembro de 1946, um decreto assinado pelo presidente Eurico Gaspar Dutra autorizou a Confederação Nacional do Comércio a criar o Sesc, uma instituição privada com serviços de interesse público.
Nos últimos anos, a contribuição compulsória repassada pelas empresas para o Sistema S, que inclui o Sesc, tem sido questionada. Em reportagem da Folha em janeiro deste ano, o economista Marcos Lisboa criticou a falta de prestação de contas dessas entidades.
"Prestamos contas a um conselho regional e ao TCU (Tribunal de Contas da União). Além disso, nós e o Senac (Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial) temos um conselho fiscal, cujos integrantes são, em sua maioria, membros do governo federal", afirma Galina.
A seção paulista do Sesc, comandada por ele, tem um orçamento anual de R$ 4 bilhões. Com os dois espaços que têm abertura prevista para este ano –um no Parque Dom Pedro 2º e outro na cidade de Marília–, o Sesc vai chegar a 46 unidades em todo o estado. Aproxima-se de 10 mil funcionários em regime CLT.
Neste mês de aniversário, o exame médico para os frequentadores, requisito para utilização da piscina, é realizado sem custo. A programação de shows e espetáculos teatrais deste fim de semana, dias 12 e 13, também será gratuita, com exceção das atrações do Mirada, festival de artes cênicas que acontece na Baixada Santista.
Nos outros estados, o Sesc também celebra as oito décadas de existência. No sábado, por exemplo, Péricles e Xande de Pilares cantam no sambódromo de Manaus, e Seu Jorge se apresenta em Maceió. No domingo, Caetano Veloso faz show em Taguatinga, no Distrito Federal, e Samuel Rosa, em Campo Grande.
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