ESPNDaniel Dubois vs. Fabio Wardley: Fight results as Dubois stops Wardley in Round 2ESPN DeportesCruz Azul busca salir de su mala racha ante el sotanero FC JuárezThe Jerusalem PostThe forgotten German who saved Jews in Japan - and the diary that resurfaced 80 years laterInquirerSuper Typhoon Champi to enter PAR on Oct. 20; to be named RosalZDF heuteAktuelle Pressemitteilungen des ZDFUOLO bordel de Vorcaroسكاي نيوز عربيةكارني: "حادث خطير" وراء حريق ضخم بقاعدة عسكرية في ألبرتا매일경제중국 여성들 “AI 기업 대박낼 남편감 찾아요”…美 실리콘밸리 몰린다는데中国新闻网批量“AI小海”卖惨博同情带货 哪些“姨姨妈妈”容易被收割?DW EnglishCanada: Major fire reported at military base in AlbertaInfobaeDefinición “de caño” tras una doble pared y corrida desde la mitad de cancha: los dos goles de Messi en el triunfo del Inter MiamiNew Straits TimesBursa Malaysia expected to maintain cautious bias next week on external uncertainties
The Daily Newsstand · Free, Always
Sunday, October 18, 2026

Joaquim Letria (1943–2026): o jornalista sem papas na língua

Translate

Letria, no entanto, acabaria mesmo por sair da RTP ainda em 1975, dedicando-se ao lançamento de um novo título, O Jornal. Foi ao sair da estação de madrugada que encontrou na rua outros dois experientes camaradas, Manuel Beça Múrias e Hernâni Santos, que lhe perguntaram se não estava farto do jornalismo que se estava a fazer em Portugal. “Estou um bocado, estou um bocado cansado disto, de facto”, respondeu ao desafio, conforme contou ao Observador. “Nessa altura, já se sentia muito a pressão do poder político sobre os jornais. Dantes era o poder económico, depois veio o poder político”, completou.

O Jornal era um semanário de inspiração britânica detido inteiramente pela sua equipa. Essa periodicidade, no entanto, não foi uma questão de escolha, foi porque “não tínhamos dinheiro para fazer um jornal diário”, contando ainda assim com a “boa vontade e a generosidade” de António Pedro Ruella Ramos, que permitiu que usassem a sua gráfica. Não obstante, teve um início fulgurante, ocupando um espaço à esquerda não-comunista e com Letria como primeiro diretor — ao longo dos anos 80, no entanto, foi perdendo gás e acabaria por encerrar e transmutar-se na revista Visão no início dos anos 90.

O jornalista, todavia, já tinha saltado fora ainda antes da mudança da década. Depois de uma passagem pela ANOP (atual Agência Lusa), regressa à RTP em 1978 para dirigir a informação do segundo canal e criar novos formatos. É neste retorno que, por exemplo, entrevista Salvador Dali em 1979, no âmbito do programa Directíssimo, que juntava informação e entretenimento. O projeto seguinte, todavia, seria ainda mais marcante. O nome descontraído, Tal & Qual, deixava antecipar o tom que assumiria, sendo dos primeiros produtos televisivos do país a ter uma rubrica de apanhados. O que o meteu em apuros foi, no entanto, outro formato, o de sketches a imitar entrevistas a personalidades históricas. Por ter feito um episódio a parodiar uma entrevista a um cónego e censor da Real Mesa Censória, recebe ordens da administração, liderada por Victor da Cunha Rêgo, para terminar o programa. A justificação dada à época foi a de que tinha “melindrado a Igreja”. Décadas depois, desmentiu essa versão com provas. “Sei isto pela boca do cardeal, que na altura era António Ribeiro. Nunca a Igreja falou em incómodos nem nada disso. Eu penso que estava a incomodar, tanto que eu sei, aquele que me despediu”, afirmou ao Expresso.

Saído pela segunda vez da RTP, volta a lamber as feridas e acaba a dar uma chapada de luva branca à emissora estatal, quando duas semanas depois do despedimento forma um semanário exatamente com o mesmo nome do programa defunto. A ideia nasceu de lampejo numa mesa de restaurante em Alfama, numa noite de Santo António, a comer sardinhas assadas com amigos. “Eu, de raiva, positiva, claro, fiz o jornal. E foi um sucesso. Saiu numa época em que só havia o ‘Diário de Notícias’, que publicava o que a agência Lusa enviava, e o ‘Dia’, que publicava as notícias de direita da Lusa”, afirmou ao Correio da Manhã em 2005.

Irreverente, divertido, polémico, louco. A saga do jornal Tal&Qual, fundado há 40 anos

É com esse lema, de publicar as histórias que não saem nos outros jornais, que o Tal & Qual sai a 28 de junho de 1980 com a icónica manchete “Os dois enfim!” sobre a relação entre Francisco Sá Carneiro e Snu Abecassis. Cáustico, aventureiro, politicamente incorreto, torna-se num sucesso, arranca logo com uma tiragem de 150 mil exemplares e causa mossa. Seria com esse mesmo espírito que, já tendo abandonado a direção do semanário (por um desafio que será mencionado já de seguida) e voltado uma segunda vez à RTP, entrevistou a cadeira vazia do ministro das Finanças do primeiro e segundo Governos de Cavaco Silva, Miguel Cadilhe, já que este desmarcou a sua presença em cima da hora do noticiário. Letria ficaria ainda na história do jornalismo português ao integrar a equipa fundadora da revista Sábado — a convite de Pedro Santana Lopes —, cuja direção assumiu entre 1988 e 1992.

A clandestinidade no PCP, o percurso com Eanes, a campanha com Marcelo

Contrastando com a estabilidade familiar de que gozou fruto do carinho dos seus avós, Joaquim Letria tomou os riscos de desafiar o Estado Novo. Aos 16 anos, filiou-se no Partido Comunista Português (PCP) e chegou a operar na clandestinidade, transportando camaradas e vivendo a oposição nas sombras. Esse período não deixou potenciais sequelas gravosas devido à lealdade de um dos seus amigos de sempre, que não o denunciou à PIDE “mesmo depois de 14 dias de tortura” e, assim, impediu-o de ser preso. Esteve filiado durante oito anos, mesmo já depois de entrar no jornalismo, mas, como tantos outros, rompeu com o partido em outubro de 1968 devido à invasão soviética da Checoslováquia. No entanto, nunca perdeu o carinho e diz ter votado CDU em várias ocasiões subsequentes, o único partido que “nunca o enganou”.

O percurso de Letria voltaria a confluir com o da política mais de uma década depois, quando participou na campanha de reeleição de Ramalho Eanes, em 1980, à Presidência da República. Tendo ficado amigos na RTP, o convite tinha surgido logo na campanha de 1976, mas dessa vez recusou, por várias razões. “Não consegui apoiar uma pessoa — que apoiava pessoalmente — mas cujos apoios públicos incluíam o PSD e o CDS. Expliquei-lhe as minhas razões e acho que ele não ficou melindrado. E havia outro motivo: tinha acabado de criar O Jornal. E estar ligado a um jornal e apoiar um candidato não me pareceu bem”, afirmou ao Nascer do Sol.

Em 1980, todavia, o caso foi diferente. Deixou o Tal & Qual e não só acompanhou o Eanes como se tornou no seu porta-voz para o segundo mandato — seria assim que o veríamos do “outro lado” da relação com os jornalistas, sendo entrevistado na qualidade de representante presidencial. Antes de aceitar, no entanto, teve dúvidas, e foi até Paris para pedir conselhos a Pierre Salinger, correspondente da ABC que antes fora porta-voz de John F. Kennedy e que tentou concorrer ao Senado norte-americano. “Tínhamos amigos comuns e consegui arranjar um encontro. Almoçámos num bistrot bem simpático e disse-lhe que tinha este convite, mas que era jornalista, que nunca tinha saído do jornalismo, e que não sabia o que fazer. E ele disse-me: ‘Aceita porque nunca vais aprender mais do que vais aprender ali’. E confirmou-se. Não me arrependo nada”, completou.

Quando o mandato de Ramalho Eanes terminou em março de 1986, continuou na assessoria política, fazendo a campanha de Francisco Salgado Zenha às subsequentes presidenciais e de Marcelo Rebelo de Sousa às autárquicas por Lisboa em 1989. Do primeiro exemplo, recordou a exasperação de gerir um candidato que foi alvo de uma “campanha suja” e que, mesmo sendo “um ser superior”, era alguém que “fazia tudo o que não devia”, como disse ao Observador. Do segundo, reconheceria mais tarde que não se identificava “de maneira nenhuma com ele” politicamente, mas que achou que “dava um presidente de câmara divertidíssimo”. Para Letria, o critério era identificar-se com as pessoas e, se isso não bastasse, com as suas ideias.

A recusa da autocensura e os 17 anos de afastamento

O fim da experiência na política ditou o seu terceiro e derradeiro regresso à RTP, numa nova fase dourada onde protagonizou programas do segundo canal como o autointitulado Joaquim Letria, Apanhados, Conversa Afiada ou Já Está, no qual entrevistou a polémica D. Maria Pia de Saxe-Coburgo e Bragança. No entanto, em 1996 ocorreu um novo incidente que pôs termo à sua relação com a estação pública em definitivo. Foi no decurso do seu programa de rádio na RDP, Cobras e Lagartos, estando em causa acusações de racismo por ter repetido um termo que um dos ouvintes tinha usado numa emissão. Como contou ao Sol: “Há um ouvinte que está sempre a dizer ‘Os pretos isto, os pretos aquilo…’. Eu, quando respondo, uso a expressão do ouvinte. De repente, aparece uma montagem em que só se ouve a mim”. Na altura, mencionou-se que o incidente tinha criado problemas com o Estado angolano, razão para que o programa fosse suspenso e ele acabasse despedido. Quase 10 anos depois, no entanto, ofereceu outra explicação demolidora ao Correio da Manhã:

Não houve crise nenhuma. Dou-me muito bem com os angolanos. Isso foi um dedinho do PS para acabar com um programa que lhe era desconfortável. E para isso usou uma coisa que é o ‘assassinato de carácter’, acusando-me de proferir ideias racistas. Hoje até me rio, porque sou amigo do Amílcar Cabral, do Agostinho Neto, do MPLA. Dizer que eu era racista é admirável e só podia sair da cabeça de algumas pessoas do PS. No final, a justiça deu-me razão. E sei perfeitamente que aquilo era uma montagem com meios do Estado. Típico do PS.”

Esta não seria a primeira nem a última vez que se sentiria visado pelo poder, considerando-se atacado por representar um incómodo. Relativamente ao desaguisado com Victor da Cunha Rêgo quanto ao Tal & Qual, afirmou ao Expresso que, além da inimizade pessoal com o antigo ministro dos Negócios Estrangeiros de Soares, foi despedido porque “não fazia as vontades, não fazia fretes”. Já ao Sol afirmou que nunca teve um nome vetado para os programas que realizou porque “não pedia autorização a ninguém”, mas que, “mais tarde houve tentativas” e, nesse aspeto, “o PS foi o pior”. Antes, ao CM, tinha alertado para a tentação de “todos os governos, de todos os partidos, de uma maneira ou de outra, quererem controlar a comunicação social”. Nesse grupo, destacou o Partido Socialista porque “não consegue mesmo resistir e é o que faz esse controlo da pior maneira”.

Após a saída da RDP, entrou num período de exílio no qual teve colaborações com a Rádio Comercial e o tabloide 24 Horas, mas que serviu essencialmente para dedicar-se à escrita e ao ensino: lecionou na Escola Superior de Jornalismo do Porto, na Universidade Independente, na Universidade Autónoma de Lisboa e no ISCIA em Aveiro. Ao longo de 17 anos, diz que não recebeu “nem um convite”, mas também não andou “aí a sofrer por não aparecer”, ao contrário de “gente que mendigava um tempo na televisão”. “Felizmente tinha possibilidade de recorrer a outras atividades, mas nestes 17 anos ninguém se preocupou em pensar ‘como é que aquele tipo come? O que faz da vida? E a família?’. Ninguém se preocupou. Nunca ninguém me perguntou se precisava de alguma coisa”, lamentou.

O regresso só se deu em 2014, depois de regressar ao olhar mediático quando a jornalista Dora Santos Rosa lançou o livro-entrevista Joaquim Letria – Sem Papas na Língua e os dois foram convidados para apresentá-lo no A Tarde É Sua, da TVI. “Ela foi convidada para ir ao programa da Fátima Lopes. E levou o emplastro, que era eu. A Fátima gostou da minha presença, perguntou se não gostava de voltar a fazer televisão”, afirmou ao Sol. Letria aceitou e acabou a ter uma rubrica regular neste programa.

Nas várias entrevistas que foi dando ao longo da vida, Joaquim Letria nunca se arrependeu do que disse ou fez e das suas consequências. “Eu digo porque penso, não é porque fico à espera do resultado do que digo. Em liberdade acho que devemos ser assim. A autocensura é a pior das censuras”, apontou. Olhando para o estado atual do país e do jornalismo, afirmou que é “cada vez mais fácil estarmos entregues à bicharada”, mas não quis culpar os jovens: “há dificuldades muito grandes de que as pessoas não têm culpa. Não têm culpa do que ganham, não têm culpa do tempo que lhes dão para fazer as coisas, da falta de direção…”

Joaquim Letria: “Tenho saudades do Benfica europeu”

Nesse domínio, tentou escrever até quando pôde, assinando crónicas semanais no Minho Digital entre 2019 e o início de 2025. Antes de publicá-las, dava-as a ler a Berta Correia Ribeiro, a sua segunda mulher, que conheceu durante um voo presidencial a São Tomé nos anos 80 quando esta, assistente de bordo da TAP, lhe serviu café em cima do chá. Teve dois filhos e o seu outro grande amor era o Benfica, que acompanhava desde “o tempo do Coluna, do Eusébio, do Germano”, mas que o entristecia por já não ser um clube de dimensão europeia. Muito do que atingiu na vida, assumiu em 2014, ao fazer 70 anos, surpreendeu-o: “Nunca esperei chegar a esta idade. Andei sempre com a ideia que era como Cristo, que ficava nos 33. Quando comecei a ver os anos a passarem, pensei que a partir daí era sempre ganho. Não me sinto angustiado com a ideia da morte. Mas há certas coisas que sinto que já não vou ter tempo para fazer”.

View the original on Observador Desporto →

KioskNews shows a cleaned-up reading view extracted from the publisher’s page — the original always lives on their site, not ours.