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Wednesday, October 7, 2026

"Os acordos entre o Irão e os EUA são muito instáveis"

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Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Este é o Gabinete de Guerra, esta manhã com a análise do historiador Bruno Cardoso Reis. Olá, Bruno, bom dia, bem-vindo.

Olá, bom dia. Obrigado.

Bom dia. Assinalam-se hoje três anos desde o ataque devastador do Hamas contra Israel, a 7 de outubro de 2023, dia que deu início a um conflito prolongado na Faixa de Gaza. Bruno, que ponto de situação se pode hoje fazer do que se passa no terreno com Gaza em ruínas e o Hamas enfraquecido, mas sem ser erradicado? Israel alcançou alguns dos objetivos ou ficou preso numa guerra sem fim, sem plano para o dia seguinte?

Primeiro, há que realmente recordar o que aconteceu no 7 de outubro, ou seja, realmente um massacre completamente indiscriminado, em que foram essencialmente visados civis, em muitos casos de kibutz, portanto, localidades ou de eventos que estavam até ligados ao movimento que defende os dois Estados, uma paz com os palestinianos. Estamos a falar de pessoas que inclusive se tinham voluntariado para transportar doentes palestinianos para Israel e coisas desse tipo. Estamos a falar de ataques também a não israelitas. Por exemplo, uma das imagens mais impressionantes dos ataques é a morte com uma enxada de um imigrante tailandês que estava a trabalhar numa quinta em Israel e que é capturado pelo Hamas. O objetivo do Hamas era claramente, até pelo caráter extremo do ataque, também provocar uma reação extrema do lado de Israel e com isso tentar conquistar simpatias, sobretudo no Ocidente, nos países democráticos, que ainda são dos poucos que, a par dos interesses, defendem alguma coisa, valores, e que, em muitos casos, colocam também em questão alianças pragmáticas que resultam de parcerias de interesses, de prioridades em termos de segurança, por exemplo, colocam isso em causa quando esses aliados se comportam de uma forma que viola esses valores. E nesse sentido, acho que realmente Israel, em parte, pela forma como respondeu ao ataque, por ter usado muitas vezes força excessiva, por regras muito permissivas no uso da força, de facto acabou por alguns episódios chocantes, enfim, ataques a ambulâncias que estavam a transportar famílias, crianças, etc, acabou por realmente dar azo a essas críticas, que em muitos casos também são completamente excessivas e desproporcionais. Agora, em termos do resultado final, realmente, a questão da resposta militar contra o Hamas foi muito eficaz, até precisamente por não ter havido muitos limites no uso dessa força. Portanto, o Hamas foi completamente decapitado, as suas capacidades militares foram extremamente degradadas. Agora, pela natureza do movimento, um movimento clandestino, uma rede armada clandestina é muito difícil de erradicar completamente e, portanto, por isso vemos que Israel de vez em quando continua a eliminar elementos armados do Hamas em Gaza. E em termos da segurança de Israel, a questão não está resolvida. Ainda agora tivemos há poucos dias uma tentativa de causar a morte em massa de civis israelitas com um piloto a tentar fazer cair um avião cheio de passageiros israelitas. Portanto, claramente a situação não está resolvida e Israel não está mais seguro.

Quem é que hoje governa e controla, de facto, a vida em Gaza?

À partida, Gaza voltou a estar sob ocupação israelita, que era algo que não acontecia até ao 7 de outubro, é importante recordar isso. Portanto, basicamente há 20 anos que Israel realmente controlava as fronteiras ou pelo menos tentava controlar as fronteiras, não com especial eficácia, porque se percebeu que o Hamas tinha conseguido, de facto, traficar imenso armamento para o interior de Gaza, mas era uma região completamente governada por si e neste caso pelo Hamas. Atualmente, realmente está sob ocupação israelita. Agora, a população palestiniana, tudo indica que continua a estar sujeita a este regime também de terror, de controle violento por parte do Hamas, embora haja este esforço no sentido de criar uma administração civil tecnocrática e o próprio Hamas tenha dito que estaria disposto a desarmar-se. Agora, é sempre esta questão, desarmar-se, mas entregar as armas pesadas. Ora, as armas ligeiras são cruciais pra o movimento do tipo do Hamas. Mas enfim, portanto, mesmo isso não é de todo evidente que se possa dar como adquirido. Portanto, quando muito haverá uma espécie de dupla administração, uma administração civil mais tecnocrática, que para já tem conseguido fazer pouco, e depois, na prática, muitos sinais de que o Hamas continua, de facto, a conseguir controlar, até pela violência, continua a conseguir controlar pelo menos uma parte da população palestiniana.

Ainda sobre o Médio Oriente, ao fim de sete meses de guerra contra os Estados Unidos, o exército do Irão anunciou um programa de emergência para aumentar drasticamente o alcance e a velocidade de todo o arsenal de mísseis. Bruno, este anúncio demonstra que a estratégia de contenção militar dos Estados Unidos falhou e que só serviu até para acelerar a corrida aos armamentos em Teerão?

Que muitos dos meios militares do Irão foram destruídos, isso é claro, em particular os meios convencionais. Também é evidente que o Irão conseguiu preparar-se para este conflito, que tem usado táticas e meios militares alternativos. Não tem uma marinha convencional, que foi basicamente toda afundada, navios mais pesados. Mas, por exemplo, continua a fazer ataques com drones ou com pequenas lanchas. Criou toda uma estrutura também de abrigos subterrâneos para armazenar este tipo de munições, mísseis, drones, lanchas, para os fabricar também. Tudo indica que o Irão estava há anos a preparar-se para algo deste tipo. Neste momento, estamos sobretudo numa guerra de desgaste para tentar perceber quem é que aguenta mais os custos económicos do prolongar do conflito. O regime iraniano está convencido que será o regime iraniano e que os Estados Unidos acabarão por ceder, porque há de facto um impacto global importante. Os Estados Unidos têm estado também a fazer um esforço para conseguir recuperar e proteger pelo menos uma parte da navegação a partir do estreito de Ormuz e temos também esta disputa paralela pelo controle do estreito de Tadan, que também é extremamente importante. Em termos de resultado final, eu acho que é demasiado cedo para dizer. Vamos ver até onde é que vai esta guerra económica. À partida, não é impossível que o resultado final disto seja o regime conseguir sobreviver, como tem conseguido até aqui, e com isso sair convencido que a sua estratégia de resistência resultou e apostar ainda mais na via militar e na via também do apoio a grupos armados e eventualmente até na via de avançar com o programa nuclear armado. Isso realmente é perfeitamente possível. No fundo, a ideia de que inclusive o programa nuclear seria a arma última para dissuadir futuros ataques da parte dos Estados Unidos e que todas as tentativas de acordo com os Estados Unidos não valem a pena, porque depois acabam por cair. E de facto, aí a grande imprevisibilidade de Donald Trump, de que ele se gaba, realmente não dá muitos argumentos àqueles setores um pouco mais moderados ou mais pragmáticos do regime, que ainda vão defendendo que seria interessante ter um acordo com os Estados Unidos, porque aí o contra-argumento é sempre que são acordos muito instáveis. Os Estados Unidos são muito imprevisíveis.

Bruno Cardoso Reis, muito obrigada pela tua análise no Gabinete de Guerra. Um bom dia, Bruno.

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