Os recados de Neves na posse do novo secretário-geral do MAI

Na tomada de posse do novo secretário-geral do Ministério da Administração Interna, Luís Neves prometeu a abertura de um “novo ciclo”. Mas, na cerimónia a que presidiu, a sombra da demissão de Ricardo Carrilho fez-se sentir em cada vírgula do discurso. A saída recente do anterior dirigente, que acusa Luís Neves de “pressões ilegítimas” e “de uma interferência política asfixiante”, pairou sobre todo o evento.
Com um discurso carregado de recados dirigidos a um destinatário que nunca nomeou, mas cuja presença era evidente, o ministro da Administração Interna não se limitou a enaltecer as qualidades do major-general Nuno Miguel Parreira da Silva, que escolheu para o cargo. Lembrou também o que não queria ver à frente da estrutura: alguém movido por uma “agenda narcísica e pessoal”, refém do “culto da personalidade”, que precisa de “caminhar de gabinete em gabinete” e que atue “em permanente conflitualidade e confrontação com tudo e com todos”.
Traçando uma linha vermelha ao sublinhar que “a Secretaria-Geral apoia a tutela” e “não [a] dirige”, Luís Neves detalhou o que espera a partir de agora: “Espero um conhecimento rigoroso das necessidades das forças e dos demais organismos, uma gestão criteriosa dos recursos, um acompanhamento próximo dos investimentos e dos programas financiados e uma capacidade permanente de apresentar propostas e concretizar soluções. Um problema, uma solução. E não só problemas.”
Ainda antes de ouvir as palavras do ministro, o novo secretário-geral já tinha prometido “inteira lealdade” a Luís Neves. “Senhor Ministro, o propósito com que entrei na Academia Militar há 35 anos permanece intacto. Hoje dou-lhe continuidade ao serviço de instituições cujas exigências conheço e cuja missão me merece o maior respeito”, garantiu Nuno Miguel Parreira da Silva, rematando com uma promessa: “Pode contar com a minha inteira lealdade e disponibilidade para trabalhar, cooperar e responder pelo que me está confiado. Honrarei a confiança recebida com total dedicação, rigor e com o mesmo compromisso de servir Portugal que me acompanha desde o primeiro dia.”
A lição de Neves: servir o Estado exige “lealdade” e os “anos de serviço não bastam”
Alheio ao barulho de copos a partir e ao barulho dos adeptos do Celtic que antecipavam a partida com o Benfica na esplanada logo por baixo do ministério, Luís Neves abriu o discurso com uma lição. A todos os altos dirigentes do Estado (ou talvez pensando num só), lembrou que “devem exercer as suas funções com legalidade, imparcialidade, competência, responsabilidade, transparência e boa-fé”, assegurando que, no caso do secretário-geral do MAI, este deve ainda exercer a sua missão “de acordo com a lei e de acordo com as orientações do Programa de Governo e com as determinações da tutela”. De forma mais direta: “Exigem, sobretudo, lealdade institucional.”
O ponto seguinte no sumário da lição foi a definição de quem tem — ou não — perfil para tais cargos: “O conhecimento técnico e os anos de serviço são importantes, são sempre importantes, mas por si só não bastam para fazer um alto dirigente do Estado. É preciso saber colocar a responsabilidade e a função acima das ambições ou preferências pessoais ou políticas e preservar a confiança nas instituições que se servem. É por isso que nem todos reúnem as condições para almejar ser um alto dirigente do Estado.”
E voltou-se para o novo secretário-geral a quem confia a “transformação” no ministério: “Conhecemos o seu percurso profissional de décadas de entrega total ao serviço público, construída passo a passo, sem atropelar ninguém, com mérito, sem ter de caminhar de gabinete em gabinete. Sabe o que é o trabalho e o exercício de funções alavancado no trabalho em equipa. É disciplinado e disciplinador e é um fazedor de pontes, destituído de fatores corporativos.”
Luís Neves não deixou de dirigir umas palavras aos funcionários da secretaria-geral do MAI, reconhecendo o desgaste dos últimos meses — que não têm sido “tempos fáceis”: “Aos trabalhadores da Secretaria-Geral da Administração Interna, quero-vos dirigir uma palavra de reconhecimento e gratidão. Sei bem que não têm passado tempos fáceis. Sei bem que têm visto sair muitos colegas, dezenas dos vossos colegas nos últimos tempos.”
Rematou, por fim, com a promessa de um “novo ciclo” e com um aviso contra ‘separatismos’: “Terão um líder humanista e que vos tratará com toda a justiça e a todos, não apenas alguns. Aqui não pode haver separatismo, não pode haver diferenciação. Todos somos apenas uma única estrutura.”
Foco nas “pessoas” para a “mudança organizacional” no MAI: como o novo secretário-geral quer responder ao “tempo de crises”
Num discurso que durou menos de dez minutos — com quase três dedicados exclusivamente a cumprimentar quem estava na sala —, o major-general Nuno Miguel Parreira da Silva focou-se num tema que já tinha marcado a recente tomada de posse do novo diretor nacional da PSP: a valorização dos profissionais.
“Nas diversas funções de comando e direção que exerci ao longo destas décadas, aprendi que a capacidade de uma instituição começa nas pessoas, no seu conhecimento, na sua preparação e no seu sentido de dever”, afirmou o secretário-geral do MAI.
Para quem assume que as pessoas são o seu “recurso mais valioso”, o arranque de funções vai passar por “conhecer com rigor a situação existente”, “ouvir os organismos” e “avaliar as competências, os meios e os procedimentos”. “Deste trabalho resultarão propostas fundamentadas, com responsabilidades claramente definidas e prioridades que possam ser executadas e acompanhadas”, frisou o governante.
Do diagnóstico prometido para as primeiras semanas nascerá, assim, o guião para a anunciada “mudança organizacional” que pretende liderar. Mas, antes de enfrentar o “tempo de crises frequentes e mais complexas” que antecipou, o primeiro teste de Nuno Miguel Parreira da Silva será mesmo resolver as crises de dentro.
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